O poeta Luís Quintais, vencedor do Prémio PEN Poesia 2025, revisita 30 anos da sua obra na antologia A Destruição do Tempo, recém-publicada pela Assírio & Alvim, com um posfácio da escritora Tatiana Faia.
Luís Quintais é antropólogo, poeta e ensaísta, professor do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra, com investigação sobre interações entre biotecnologias, arte e cognição, e vencedor, pela segunda vez, do Prémio PEN de poesia com Nocturama, dez anos depois de galardoado por O Vidro, que também recebeu o Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa.
A Destruição do Tempo — Três décadas, é uma antologia que surge 30 anos após o primeiro livro de poemas de Luís Quintais, A Imprecisa Melancolia (1995). “Passado este tempo“, lê-se na apresentação da obra, “essa voz foi amadurecendo, construindo um núcleo de referências, espreitando o mundo pela lente de uma antropologia da literatura, resultando agora numa antologia pessoalíssima do autor”, sob a dúvida: “Olhando para a própria obra, o que queremos dar a ler a estes tempos?”
O poeta responde desde logo na abertura da antologia: “As palavras que se reúnem sob os sortilégios desse jogo de linguagem que é a poesia servem uma ideia de ordem. São a régua e o esquadro da experiência que não pode ser metrificada, que não é mensurável. Talvez seja este o sentido flutuante da poesia”, escreve publicada pela Assírio & Alvim.
“Gostaria de acreditar que os poemas impregnados — densos — de sentido acabam por não ter sentido algum”, escreve o poeta, natural de Luena, em Angola, onde nasceu a 19 de agosto de 1968.
Quintais, no mesmo texto, afirma que não gosta de dizer que os poemas estão do lado do som. “Prefiro a ideia de eco”, atesta, esclarecendo: “O som terá acontecido, e o mundo — na sua materialidade de que a linguagem faz parte — devolve-me o som”.
“Os poemas não são vetoriais, são escalares”, prossegue o poeta, declarando: “Uma parte do que escrevi tem a ver com uma conceção da experiência que a faz presa — sujeitando-se à devoração — de uma atmosfera”.
Quintais afirma que “a atmosfera que é um escalar — como o medo ou ‘Angst’ [sentimento de profunda ansiedade ou pavor, geralmente difuso, relacionado com a condição humana ou com o estado do mundo em geral; título escolhido para a obra sua de 2002] que quis convocar —”, armadilha-lhe a vida, e ele, respondendo, “devolve o seu eco”. “Transfiguro a poderosa — e invencível — cilada”, afirma.
Tatiana Faia, distinguida em 2019 com o Prémio P.E.N. Poesia, afirma no posfácio que “Luís Quintais é um poeta difícil de arrumar numa tradição“, em parte por ser “um poeta absolutamente livre” com os “seus fantasmas” que escolhe e os nomeia, tendo “escrito com cuidado sobre o que há para ser encontrado neles”.
Segundo Tatiana Faia, Luís Quintais “é um desses poetas que existe num mundo onde, em certo sentido, até certo ponto na cronologia da evolução dos diálogos platónicos, Sócrates [470-399 antes de Cristo] existiu, num mundo em que a filosofia é, também ela, uma forma de poesia”.
A escritora tece paralelos entre Luís Quintais e Fernando Assis Pacheco (1937-1995) de Eu tinha Grandes Naus [1963] e Carlos Oliveira (1921-1981), como já o tinha referido a investigadora da Universidade de Turim Gaia Bertonesi, sobre o escritor.
Tatiana Faia afirma que a trajetória poética de Luís Quintais, “como delineada nesta antologia”, lhe recorda “outra obra recente que [lhe] parece pensar alguns dos mesmos contextos, a dos romances de Paulo Faria”.
“Ambos escrevem sobre as feridas da guerra colonial nas gerações posteriores a António Lobo Antunes, sobre violência, totalitarismo, famílias. Ambos pensam uma lucidez que não julga e não se propõe a resolver nada”.
Antropólogo, poeta e ensaísta, Luís Quintais publicou vários artigos em revistas da especialidade, nomeadamente sobre as implicações socioculturais do conhecimento biomédico. Entre os seus trabalhos, desenvolveu etnografia sobre guerra e memória traumática com ex-combatentes das guerras coloniais portuguesas e também investigação no arquivo da psiquiatria forense portuguesa.
Na Universidade de Coimbra, segundo o site do Centro de Estudos Sociais, a sua área pedagógica aborda culturas visuais, literatura e antropologia, antropologia médica e antropologia cognitiva.
O seu trabalho científico encontra-se publicado em publicações portuguesas e internacionais.
Como poeta, publicou A Imprecisa Melancolia (1995), Lamento (1999), Umbria (1999), Verso Antigo (2001), Duelo (2004), obra distinguida com o Prémio Luís Miguel Nava de Poesia.
Canto Onde (2006), Mais Espesso que a Água (2008), Riscava a Palavra Dor no Quadro Negro (2010), Depois da Música (2013), Uma Arte do Degelo (2015), A Noite Imóvel (2017), Agon (2018), Ângulo Morto (2021) são outras obras do poeta distinguido com o Prémio da Fundação Inês de Castro.
Com a coletânea de poesia Arrancar Penas a Um Canto de Cisne venceu o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes da Associação Portuguesa de Escritores.