O LEFFEST — Lisboa Film Festival, que já habitou Sintra e o Estoril, regressa de 7 a 16 de novembro agora à capital e à Amadora, com a promessa de mostrar o que nem sempre encontra lugar nas estreias comerciais ou saciar a curiosidade dos que vivem sempre um pouco à frente do calendário cinematográfico.
A oferta é vasta, as sobreposições várias, e a 19.ª edição do certame arranca com algumas sessões já esgotadas, como a de Agente Secreto (com a presença do ator Wagner Moura) ou exibição única de Father Mother Sister Brother, novíssimo filme de Jim Jarmusch, vencedor do Leão de Ouro em Veneza, com estreia nas salas portuguesas marcada para 15 de janeiro — será, assim, preciso esperar mais um pouco para ver Tom Waits no grande ecrã.
Sem a ambição de percorrer todos os pontos de interesse (humanamente impossível), abaixo está uma proposta de itinerário para uma semana de cinema em fartura.
“Entroncamento”
De Pedro Cabeleira
O então jovem cineasta português Pedro Cabeleira revelou-se com Verão Danado, em 2017, uma produção à portuguesa, “denrascada”, mas nem por isso desinspirada. Saído da Escola Superior de Teatro e Cinema, Cabeleira filmava com urgência a deriva de uma juventude recém-licenciada, perdida entre festas, drogas e amores falhados numa Lisboa como cenário de um verão sem rumo para uma geração à beira do mundo adulto.
Oito anos depois, eis por fim a segunda longa-metragem de Cabeleira, que regressou às origens: o Entroncamento, no Ribatejo, onde cresceu. É ali que se passa a ação que gira em torno de Laura (Ana Vilaça), uma mulher em fuga de um passado turbulento, se refugia naquela cidade para reconstruir a vida. O argumento é de Diogo Figueira e Pedro Cabeleira, a direção de fotografia de Leonor Teles. O filme estreou-se em maio no Acid, uma secção paralela do Festival de Cinema de Cannes. (9 de novembro, 17h, Cinema São Jorge, 13 de novembro, 11h, Cinema Medeia Nimas, 21h, Cineteatro D. João V)
“Le mage du Kremlin”
De Olivier Assayas
Paul Dano, Alicia Vikander, Jeffrey Wright, Jude Law. O elenco é por si chamariz para o thriller político ou comédia negra (dependerá da perspetiva) realizada por Olivier Assayas a partir de uma adaptação do romance de Giuliano da Empoli, que recorreu à ficção para ilustrar a natureza do poder na Rússia, imaginando o que vai na cabeça de Putin.
“O Mago do Kremlin”, em tradução livre, conta a história de Vadim Baranov, um jovem brilhante que se torna um mestre da comunicação e da manipulação. Na Rússia turbulenta dos anos 1990, após o colapso da União Soviética, este artista e produtor de reality shows mergulha nas sombras do poder até se tornar spin doctor de um agente em ascensão do KGB: Vladimir Putin. Passados anos de reclusão e segredo, Baranov rompe o silêncio para desvendar os bastidores e as contradições do regime que ajudou a criar. A única exibição no festival conta com uma conversa com Olivier Assayas. (9 de novembro, 19h30, Culturgest)
“Kontinental 25’”
De Radu Jude
Poucos realizadores captam tão bem o zeitgeist como o romeno Radu Jude. Depois Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental (2021) e Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo (2023), o cineasta regressa com um drama que combina sátira política e reflexão moral. A história segue Orsulya Ionescu, uma oficial de justiça dividida entre as suas origens húngaras e a cidadania romena, que vê o seu sentido ético abalar-se após uma tragédia ligada ao despejo de um sem-abrigo que comete suicídio.
Jude constrói um retrato mordaz de uma Europa liberal e desigual, onde a ética se perde entre o cinismo e a sobrevivência. Num pingue-pongue permanente entre drama e comédia, Kontinental ‘25 disseca com ironia o impacto do capitalismo sobre as cidades e as pessoas que nelas vivem, entre críticas à gentrificação, à descaracterização urbana e aos discursos de intolerância. Fiel ao seu humor ácido e olhar lúcido sobre o presente, Radu Jude prova, mais uma vez, ser um observador incisivo da contemporaneidade europeia. (10 de novembro, 18h, Culturgest)
“Hamnet”
De Chloé Zhao
Com o fim do ano à vista começa a desenhar-se o caminho até aos Óscares e este Hamnet, de Chloé Zhao, perfila-se como um forte candidato na corrida. O filme conta a história do filho de William Shakespeare, cuja morte se suspeita que tenha inspirado uma das mais reconhecidas peças do dramaturgo inglês, Hamlet.
Baseada no romance de Maggie O’Farrell, esta adaptação filmada nas paisagens verdes do País de Gales conta com Paul Mescal e Jessie Buckley nos papéis principais, e uma fotografia belíssima (já antecipada no trailer) assinada por Łukasz Żal, nomeado ao Óscar por Cold War (2013) e Ida (2018). É a primeira oportunidade de ver uma obra que será por certo badalada nos próximos meses — e que deverá chegar às salas portuguesas no princípio de 2026. (8 de novembro, 21h45, Cinema São Jorge)
“Dead Man’s Wire”
De Gus Van Sant
Fora de competição, o novo trabalho de Gus Van Sant é um dos mais aguardados do festival, que chegou a comunicar que o realizador “em princípio virá apresentar o filme” para há poucos dias informar que, afinal, o autor de O Bom Rebelde e Milk não marcará presença.
Mas vamos ao filme. A história deste Dead Man’s Wire é baseada num acontecimento real: a 8 de fevereiro de 1977 um homem de 44 anos entrou no escritório do presidente da Meridian Mortgage Company, nos EUA, para o fazer refém. Fê-lo com uma espingarda de cano serrado, conectada por um “fio da morte” que ia do gatilho à cabeça do presidente. Foram dias de impasse que tornaram o caso um verdadeiro fenómeno mediático. Originalmente, a adaptação cinematográfica deste episódio da história recente norte-americana tinha Werner Herzog como realizador e Nicolas Cage como protagonista, mas ambos acabariam por sair do projeto. (15 de novembro, 21h, Cinema São Jorge)
“The Voice of Hind Rajab”
De Kaouther Ben Hania
Da realizadora tunisina Kaouther Ben Hania chega o muito badalado The Voice of Hind Rajab, um filme que transpõe para o grande ecrã a tragédia recente em Gaza. O filme nasce da gravação de uma chamada telefónica entre Hind Rajab, uma criança palestiniana de seis anos que fica presa num carro debaixo de fogo, e os membros do Crescente Vermelho Palestiniano em Ramallah. A criança, encurralada após um ataque israelita que vitimou a família, ficou durante três horas em contacto telefónico permanente, tornando-se símbolo da vulnerabilidade e da resistência de um povo preso entre o medo e a esperança.
O filme, que se estreou com estrondo no Festival de Veneza, tem uma mise-en-scène de precisão quase documental, reforçando o impacto devastador da guerra e a força do testemunho. (9 de novembro, 21h15, Cinema São Jorge)
“Blue Moon”
De Richard Linklater
Na competição oficial destaca-se o mais recente filme de Richard Linklater, o autor de Boyhood e da trilogia Antes do Amanhecer/Antes do Anoitecer/Antes da Meia-Noite. Com um elenco pejado de estrelas (a saber: Ethan Hawke, Margaret Qualley, Bobby Cannavale, e Andrew Scott), Blue Moon, exibido na seleção competitiva da Berlinale, mostra-se agora em Portugal sendo quase certa a sua estreia comercial nos meses que se avizinham.
Trata-se de uma biografia de Lorenz Hart (Hawke), letrista da Broadway, no momento em que enfrenta o peso da obsolescência artística, ao vislumbrar o sucesso do seu antigo parceiro, Richard Rodgers (representado por Andrew Scott), e lidar com o seu próprio declínio emocional e profissional. A narrativa desenrola-se em grande parte num bar, na noite de 31 de março de 1943, data de estreia do musical Oklahoma!. (8 de novembro, 14h, Cinema São Jorge e 10 de novembro, 21h45, Cinema Medeia Nimas)
“The Mastermind”
De Kelly Reichardt
Massachusetts, 1970. J.B. Mooney, um artista falhado transformado em carpinteiro desempregado, decide levar a cabo o seu primeiro grande assalto. Escolhe roubar um pequeno museu de arte com um plano que, à partida, lhe parece sólido. Só que este protagonista, interpretado por Josh O’Connor (Challengers, A Quimera), vê no roubo de arte uma forma de dar sentido à própria vida.
No LEFFEST integrado no ciclo Grandes Mestres, este trabalho da cineasta norte-americana Kelly Reichardt desmonta o género de heist movie, preferindo ser um notável observatório do que é o fracasso iminente de uma personagem, tendo como cenário o ambiente social conturbado da América dos anos 1970, com a Guerra do Vietname como pano de fundo. No final, The Mastermind transforma-se num estudo de personagem mais interessado no que acontece depois do roubo do que no próprio ato em si. (7 de novembro, 21h30, Culturgest, 15 de novembro, 21h30, Cinema Medeia Nimas)
“Sex (Love Dreams)”
De Dag Johan Haugerud
A trilogia Sex (Love Dreams), do norueguês Dag Johan Haugerud, cujo capítulo mais recente conquistou o Urso de Ouro em Berlim, mostra-se no festival em três sessões acompanhadas com uma conversa com o cineasta no final. Juntas, as três obras formam um tríptico sobre amor, corpo e liberdade. Em Sex, acompanhamos dois limpa-chaminés cujas vidas são abaladas por experiências que os levam a questionar as suas certezas sobre género e identidade, em Kjærlighet conhecemos uma médica e um enfermeiro que exploram novas formas de intimidade fora do quadro mais convencional, e em Drømmer descobrimos a história de uma jovem de 17 anos que se apaixona pela professora e regista essa paixão em textos que desestabilizam a mãe e a avó. (Sex (Love Dreams) (Sex), 9 de novembro, 21h30, Cinema Medeia Nimas. Dreams (Sex Love) (Drømmer), 10 de novembro, 21h30, Cinema São Jorge. Love (Sex Dreams) (Kjærlighet), 10 de novembro, 14h, Cinema Medeia Nimas)
“Where to Land”
De Hal Hartle
A primeira grande retrospetiva europeia de Hal Hartley, nome de relevo na geração do cinema indie norte-americano nos anos 1990, faz-se acompanhar no LEFFEST pela estreia do mais recente filme do autor, Where to Land, que se apresenta em competição no festival.
O cineasta estará presente em Lisboa, para conversar sobre esta obra — a primeira dos últimos 10 anos — que acompanha Joseph Fulton, um realizador reformado à procura de uma vida mais tranquila. Só que quando se candidata a um emprego modesto como assistente de jardineiro num cemitério e começa a elaborar o seu testamento, a família e os amigos interpretam mal a situação: estão convencidos de que Fulton está à beira da morte. O resultado é uma comédia sobre a velhice e o medo do inevitável fim. (12 de novembro, 18h, Cineteatro D. João V, 13 de novembro, 21h30, Cinema Medeia Nimas, 14 de novembro, 15h, Cinema São Jorge)