Aos 33 anos, o nome de Ana Vilaça começa, finalmente, a ganhar destaque. Mas o seu percurso começou muito antes de qualquer reconhecimento. Anos de castings, papéis em curtas universitárias, formações e uma persistência silenciosa moldaram uma atriz que hoje colhe os primeiros frutos de uma carreira construída com paciência, resiliência e entrega total à arte de representar. O sucesso, diz, pode parecer recente, mas foi tudo menos repentino.
Nasceu no Porto a 19 de julho de 1991, filha de uma professora e de um vendedor de caterpillars. Viveu na mesma casa em Leça da Palmeira toda a vida até ir para a faculdade, numa estrada de terra batida onde só entravam os carros de quem ali morava.
Com um contexto familiar que define como “normal”, morava também com a avó materna, com quem sempre teve uma relação cúmplice. “Ela adoeceu muito cedo e eu assisti a todo esse processo muito de perto. Obviamente eu não era a prioridade, havia uma coisa grave a acontecer. Acho que isso me marcou muito, ganhei a capacidade de observar, de entender o que era oportuno. Tive de perceber muito cedo o que é que se passava dentro dos adultos”, resume. Sem artistas na família, talvez tenha sido com ela que aprendeu a importância das histórias. “A minha avó ficou fisicamente impedida de fazer muitas coisas muito cedo, então passava muito tempo na cama com ela, a ouvir as histórias dela e a falar com ela. Esta coisa de ouvir histórias e de criar imagens na minha cabeça do que ela me contava… Talvez tenha vindo um bocado daí.”
Era uma criança tímida, expressava-se através do canto, na catequese. “Morria de vergonha, mas havia qualquer coisa no silêncio que se assemelha muito entre o ação e o corta, que não existia no caos da minha vida… Sentia que nesse momento conseguia purgar coisas.”
▲ A atriz chamou a atenção em "By Flávio" (2022), curta-metragem de Pedro Cabeleira que se estreou no Festival de Cinema de Berlim
Sem cinemas de bairro e longe dos multiplex, o cinema que via-se resumia-se aos filmes de sábado à tarde na televisão, as películas da saga 007 ou de Martin Scorsese, de que o pai era fã. “Tinha esse imaginário de filmes de gangster, universos muito masculinos”, observa em retrospetiva. Foi na adolescência que descobriu clássicos dos anos 1950 e se apaixonou por James Dean, ídolo mitificado no emblemático Rebel without a Cause (1955). “Senti que aquele filme me estava a ver, senti-me menos perdida”, nota. “Havia uma espécie de superpoder qualquer de sentir muito e canalizar aquele sentir para me fazer sentir também. Vi aquele filme muitas vezes, via os extras dos DVDs. Houve um dia em que a minha mãe me viu muito emocionada e me disse: ‘uma pessoa que se emociona assim com um filme tem de fazer cinema’. Foi a primeira vez que me caiu a ficha. Será que isto é uma opção? Ser como o James Dean?”
Não no desfecho, já que Dean até já tinha morrido quando o filme se estreou na América. Também não na fama, já que Vilaça nunca quis o spotlight, nem sequer o lado social. Aliás, quando se senta com o Observador num jardim com vista sobre o Tejo, lamenta não ser uma grande comunicadora — na vida, nas conversas. “Sinto que não consigo formular uma ideia até ao fim, sinto-me sempre perdida a falar. Quando estou a filmar sinto uma segurança que não sinto na minha vida”. Dar uma entrevista, “aterroriza-me”, diz seguida de uma gargalhada. “A fama não me entusiasmava e não me entusiasma, é um bicho que me parece muito estranho”.
Agora que o seu nome aterra na imprensa portuguesa de forma inevitável, graças ao protagonismo num filme escalado para um importante festival internacional, Ana Vilaça sabe o que não quer: que façam dela uma revelação da noite para o dia. Até porque a revelação levou anos, com muitos empregos pelo meio e muita espera. Depois de estudar na Academia Contemporânea do Espetáculo (ACE) do Porto e de uma temporada em Inglaterra onde fez a licenciatura em representação, voltou ao Porto cheia de sonhos para se confrontar com uma roda infinita de castings para curtas de escola. “Ninguém sabia quem eu era, não tinha andando na ESTC, não tinha agente”.
Como foram esses tempos?, perguntamos. “Foram uma merda”, atira. “É sempre frustrante sentires que tens um monte de coisas que podias usar para fazer qualquer coisa e ninguém te estar a deixar fazê-lo. Se calhar há miúdas de 20 anos que têm uma autoestima de ferro, mas eu não tinha. Foi um bocado duro.”
Equilibrava a vida com castings, projetos experimentais sem grande risco, que encarava como laboratórios que lhe permitiam atirar-se sem rede, falhar e falhar outra vez. Foi um período de anos, diz, sem pudor em quebrar a glamorização habitual da narrativa de atriz em ascenção. Trabalhou em restaurantes, deu aulas, fez traduções. “Era biscateira”, resume.
Ana já era mãe quando conseguiu passar a viver apenas do trabalho de atriz. “Durante muito tempo foi assim. Mas nunca me incomodou, não tenho uma perspetiva de viver de grandes luxos, nunca foi esse o meu objetivo”, garante. “Viver dignamente a fazer isto é já uma vitória. Não estamos num país que proteja os artistas de maneira nenhuma. Continuamos a trabalhar a recibos verdes, não temos projeção nenhuma.”
▲ Ana Vilaça (em baixo, ao centro) na peça "A Colónia", de Marco Martins, em 2024. Foi a primeira experiência da atriz no teatro
“Foi um caminho. Esta coisa do sucesso da noite para o dia não existe, é um mito”, frisa, agora que a carreira está prestes a levantar voo. “Não é de repente. Vamos fazer as contas. Comecei a estudar com 16 anos, vou fazer 34 em julho. Estou em Cannes quase 20 anos depois do início do meu percurso.”
Foi graças ao casting para a novela Coração de Ouro, da SIC, que a atriz trocou a Invicta pela capital, onde acabou a fazer mais curtas e “muitas borlas”, ri. Até que surgiu By Flávio, a curta que, aos olhos de muitos, mudou tudo. Foi uma curta escrita a três mãos, a de Ana, Pedro Cabeleira (cineasta e companheiro da atriz na vida) e Diogo S. Figueira. Partiu de “um momento de falhanço para todos nós. O Pedro tinha perdido um concurso do ICA, o Diogo também estava numa fase em que estava a trabalhar só em publicidade, eu estava numa fase em que não tinha trabalho, achava que ninguém queria saber da minha existência e que não ia trabalhar mais”, dramatiza.
Sentaram-se os três a discutir ideias para fazer uma curta e dali nasceu a história de Márcia, uma mãe solteira do interior de Portugal que encontra nas redes sociais uma forma de escapar à rotina e projetar uma versão idealizada de si mesma. Ana Vilaça veste a pele dessa quase influencer por instinto, que domina a arte das poses e dos ângulos perfeitos, fotografada pelo filho, o pequeno Flávio, que lhe tira os retratos provocantes — muitas vezes na praia, em fato de banho. A história explora, com nuances, a questão do sonho e realidade, a objetificação feminina no universo do rap e a linha ténue entre empoderamento e exposição.
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“Foi um filme em que senti num controlo total do meu instrumento. Senti-me zero insegura, é isto.” By Flávio estreou-se na competição de curtas da Berlinale, em 2022, chegou à Competição Nacional do IndieLisboa, e foi até parar às salas de cinema — feito raro para uma curta-metragem — enquadrada nas sessões “Que Mulheres Serão Estas?”, um programa que integrava três curtas premiadas sobre mulheres que, apesar de muito diferentes entre si, partilham as mesmas lutas, sem nunca perderem a esperança numa vida melhor.
A curta deu-lhe um grande plano e pôs o seu talento em evidência. Pouco depois, Marco Martins chamou-a para o palco, e colocou-a em destaque na peça A Colónia, a única entrada de teatro no currículo da atriz.
▲ Cresceu em Leça da Palmeira, estudou no Porto e depois em Inglaterra. Aos 33 anos, desmistifica a ideia de atriz-revelação: "Estou em Cannes quase 20 anos depois do início do meu percurso"
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Tudo parece ter preparado caminho para Laura, a personagem que agora interpreta no mais recente filme de Pedro Cabeleira (Verão Danado), que se estreia no Acid, uma secção paralela do Festival de Cinema de Cannes, e cuja primeira sessão acontece já este sábado, dia 17 de maio. Esta ficção, filmada na cidade natal do realizador, o Entroncamento, conta a história de uma mulher que, em fuga de um passado turbulento, se refugia-se naquela cidade para reconstruir a vida. A terra dá titulo ao filme, que é escrito por Diogo Figueira e Pedro Cabeleira e tem direção de fotografia de Leonor Teles.
É a primeira longa-metragem da atriz, que recorda com felicidade as 10 semanas de rodagem, a temporada a viver no Entroncamento e até as longas viagens para Lisboa para os treinos de Muay Thai com Dina Pedro, uma das primeiras mulheres lutadoras deste desporto em Portugal. Considerou a exposição a um ambiente de violência essencial para criar a personagem, “uma mulher do Porto, do bairro do Cerco, que vem de um contexto violento e que foge para o Entroncamento”. “Ela tenta arranjar um trabalho honesto, mas acaba por inserir-se num meio de pequenos crimes, tráfico de droga”, revela. “O que é importante para mim é que esta personagem consegue movimentar-se em meios muito machistas. E consegue ter ela o poder sobre eles. Ela não se deixa manipular. É uma sobrevivente”.
A obra, que ainda não tem data de estreia prevista em Portugal, pode bem catapultá-la para voos maiores. Tem já outros projetos na manga, filmes em desenvolvimento com realizadores emergentes da praça. “Gostava de um dia estar confortável o suficiente para ir escolhendo só as coisas que me apetece fazer, mas acho que isso deve ser o sonho de muita gente”.
▲ "Entroncamento" é a primeira longa-metragem de Ana Vilaça, que viveu durante meses no Entroncamento para preparar o papel da protagonista do filme
Sem ceder à tentação de prever o futuro, dá voz aos seus desejos: “Estar na escrita de mais coisas. E quero muito realizar. Fiz umas experiências na pandemia, mas ainda não ganhei coragem. Tenho a sensação de que é um papel que não me pertence. Acho que tenho de ser convencida”, ri.
Finda a entrevista, Ana passeia-se pelo jardim sem pressas. Vive em Almada e confessa, com um certo espanto, que se sente em casa. Num dia normal estaria com a filha, Alma, de cinco anos, ou a ler. Neste momento tem uma obra de Susan Sontag à cabeceira. “Ando à procura de ajuda sobre coisas em que ando a pensar…”. O quê, perguntamos. “Ando a desconstruir algumas coisas, e à procura de outras… O que é que é isto de ser mulher no mundo em que estamos? Qual é o meu papel nesse mundo, o mundo em que a minha filha está a existir? Como é que lhe posso dar mais ferramentas do que as que eu tive? Em que posso contribuir como cidadã, como atriz?”. A essas inquietações, responde apenas com silêncio — por agora. “Acho que é importante essa desconstrução. É assim que vamos passando a tocha, não é?”