O novo filme de Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto, volta a passar-se no Recife natal do realizador, em 1977. E a recriação de época é caracterizada por uma minuciosa autenticidade, que nos instala de imediato e sem esforço naquele tempo e lugar, refletindo, para além de um rigoroso trabalho de direção artística, a ligação afetiva e nostálgica que o autor de Aquarius e Bacurau tem à cidade e ao seu passado, a essa tempo da vida no Brasil, à cultura pop e à televisão da altura e, é claro, ao cinema que se fazia então e às salas em que era visto. E cujas referências, como a Tubarão, de Steven Spielberg, que atravessa todo o enredo, não são mera sinalização cinéfila, mas sim pertinentes para a história.
São claros os laços de O Agente Secreto ao filme anterior de Mendonça Filho, o documentário Retratos Fantasmas (2023), sobre os grandes cinemas hoje desaparecidos do Recife, que o realizador ainda conheceu e frequentou, e a descaracterização da cidade, assim como a curtas-metragens suas, caso de Homem de Projecção e Casa de Imagem (ambas de 1992). A figura de Alexandre (Carlos Francisco), o veterano projecionista e sogro da personagem principal de O Agente Secreto, Marcelo (Wagner Moura), homenageia o seu homónimo real, Alexandre Moura, que aparece nos filmes acima citados.
[Veja o “trailer” de “O Agente Secreto”:]
Na senda de Ainda Estamos Aqui, de Walter Salles, e outros títulos anteriores, O Agente Secreto é também um filme político que labuta sobre a memória, os aleijões e as comoções coletivas do regime militar vigente entre as décadas de 60 e 80 (embora, a bem dizer, realidades como a corrupção, a desorganização social e a violência endémica lhe sejam anteriores, e permaneçam no Brasil de hoje). Mas neste caso, fá-lo em segundo plano, de forma mais indireta e elíptica, alusiva e sinuosa, que esquiva — até certo ponto — o facilmente demonstrativo e o estereotipadamente “militante”, e cultiva o suspense e o mistério pedindo um esforço de participação ao espectador na decifração do que está a ser contado, em vez de lhe servir a papinha toda feita. E ao contrário do que o título indica, não há nenhum agente secreto na fita, embora o ambiente seja de denso secretismo.
Wagner Moura interpreta Marcelo, um engenheiro viúvo que regressa ao Recife em pleno Carnaval sob uma falsa identidade, para vir buscar o filho pequeno que vive com os avós maternos e ir com ele para o estrangeiro. Marcelo é perseguido, sem o saber, por dois assassinos profissionais. As suas motivações para querer deixar o país com a criança, bem como a razão de ser o alvo do duo de matadores, serão reveladas pouco a pouco. Ajudado por uma rede de oposicionistas ao regime, Marcelo fica instalado num prédio gerido pela castiça Dona Sebastiana (Tânia Maria), que mais tarde descobriremos ter casado com um italiano, vivido na Itália durante a II Guerra Mundial e sido comunista e anarquista.
[Veja uma entrevista com Kleber Mendonça Filho:]
Ali há um gato com dois focinhos e estão também alojadas outras pessoas, algumas delas vítimas tipificadas: uma dentista que pegou na filha e abandonou o marido que a maltratava, ou um jovem vindo do campo e fugido ao pai e ao tio, por não corresponder “ao tipo de homem” que eles queriam que ele fosse; ou ainda um casal angolano, presume-se que fugido às purgas do MPLA (estamos já após a independência de Angola), embora o discurso da mulher seja violentamente anti-português. Marcelo vai trabalhar como funcionário público numa repartição municipal de Recife onde está instalada a delegacia de polícia, chefiada pelo obviamente corrupto, nepotista e boçal delegado Euclides (o excelente Robério Diógenes), que é coadjuvados por dois dos seus filhos, um branco e um negro.
[Veja uma entrevista com Wagner Moura:]
Estas figuras secundárias e comparsas “característicos”, em especial os polícias, o duo de assassinos (padrasto e enteado, qual deles o pior) e o patibular criminoso local que estes subcontratam na cidade, têm todos “le physique du métier” e contribuem com a sua veracidade humana para a autenticidade geral e para o clima de incomodidade e ameaça crescente instalado por Kleber Mendonça Filho na fita. Que se desdobra também em subenredos, um dos quais envolve uma “perna cabeluda” que fugiu da boca de um tubarão capturado dias antes e que aterroriza os locais. É uma digressão insólita e desconcertante, que destoa muito no filme e denuncia a autocomplacência que também o caracteriza — e prejudica.
[Veja uma sequência de “O Agente Secreto”:]
Isto porque O Agente Secreto, sobre ter as qualidades já referidas, nomeadamente a picuinhice narrativa do seu argumentista e realizador, que não se perde nas voltas, reviravoltas, atalhos, e tangentes do muito atarefado enredo (recorde-se que Mendonça Filho ganhou o prémio de Melhor Realizador em Cannes, e Wagner Moura o de Melhor Ator), é também um filme dilatado, disperso e incapaz de sintetizar e de condensar. E que se estende de forma indulgente por mais de duas horas e meia, em que coexistem a melhor ação cinematográfica e dinamismo visual, como na sequência do tiroteio e da perseguição pelas ruas do Recife, com a ganga e a gordura.
A fita comete também o mesmo erro de Ainda Estamos Aqui. Não se contenta em ficar no passado e aí ter o seu clímax e fechar a história, saltando para o presente para dar ao espectador um final “confortável” e muito explicado, pela mão de uma das estudantes universitárias que estão, nos nossos dias, a fazer transcrições de gravações relacionadas com o caso de Marcelo. E onde Wagner Moura surge de novo, agora a fazer do seu filho adulto. Percebe-se qual foi a ideia de Kleber Mendonça Filho ao recorrer ao mesmo ator para os dois papéis. Mas fica a impressão que se trata de um sósia ou de um clone daquele, do que do filho. O Agente Secreto acaba por ser menos do que a soma das suas (muitas) partes.