Agualusa tem uma obra compacta e diversa. Quem abre um livro do autor angolano encontra-se como quem tropeça — e não se entende logo o que se lá vai encontrar. Tudo sobre Deus é surpreendente na forma, no enredo e também na técnica: em meia dúzia de pinceladas, Agualusa traça um cenário, e nunca abdica da concisão frásica, que não só marca o romance como o apresenta de forma límpida.
No centro, e logo à cabeça, há um homem, Leopoldo, que às portas da morte compra uma igreja abandonada, no deserto do Namibe, para onde se muda. Isto aparece logo a pés juntos, numa prosa enxuta que permite ao leitor ver acção e personagem, ao mesmo tempo que contexto. De imediato, fica-se no gancho, quer-se saber do protagonista.
E o leitor vê o livro correr-lhe à frente como quem bebe um copo de água. Agualusa não conhece a fealdade – em cada parágrafo está a beleza inteira e pura. Num contraste permanente entre a poesia e a violência (p. 21), que vai aparecendo como contraste entre a beleza e o cinismo, vê-se o fim da vida, com os flashes de tudo o que ficou para trás. Ora, esses flashes são, afinal, tudo o que importa: a relação de amor que lhe estruturou o quotidiano e a filha que um dia desapareceu, deixando um carro abandonado para trás.
Título: “Tudo sobre Deus”
Autor: José Eduardo Agualusa
Editora: Quetzal
Páginas: 192
Ora, tudo isto é delicadeza, estando a língua portuguesa transformada em seda. Prosa de Agualusa é algodão doce que se desfaz dentro da boca. As transições dentro dos capítulos são suaves, mesmo entre analepses e prolepses, num apurado exercício da arte de contar. Em Agualusa, tudo é elegância: as personagens aparecem em breves pinceladas carregadas de sentido, as descrições são directas, sem gorduras, os diálogos são reduzidos ao que importa. Entre tudo, destaca-se o talento para a síntese, já que numa frase se condensa uma personagem ou um estado emocional. Exemplo:
Enfim, concluiu Ana Maria, a ira, ainda que justa; o talento para satirizar os erros alheios; a intolerância à crítica; a inveja, o ciúme, o mau vinho, a propensão para a violência e para a melancolia, tudo isso contribuiu para que familiares, amigos, antigos colegas da Endiama, colegas da universidade, alunos e ex-alunos se fossem, pouco a pouco, afastando de Leopoldo.” (p. 25)
Enquanto a acção de desenvolve, o leitor tem sempre acesso aos dois lados da moeda: a violência e a melancolia, o bruto e o delicado, o feio e o belo no mesmo movimento. Ao mesmo tempo, não passa despercebido o quão bem delineado é o protagonista. Abre-se o livro e eis Leopoldo a existir, a passear – a respirar como coisa fora do papel. Para isso, muito contribuem os episódios em analepse, que ajudam a construir a personagem, ao mesmo tempo que nos dão a percepção pública sobre ele. Num exercício de meta-ficção, em que o romance se cruza com a realidade, temos Leopoldo a travar amizade com Mia Couto, quase como graça, uma vez que a própria relação não é operante na narrativa.
De resto, o romance faz-se com recurso a mantras, como “Amar o nosso semelhante é fácil – difícil é amar o diferente” (p. 29) ou “Envelhecer é perder a capacidade de se espantar” (p. 58), a frases como “A raiva é o amor em estado de abismo” (p. 127) e a graças, como um homem que não é calado, mas “apenas sucinto” (p. 31). A estrutura do romance é sólida, em parte porque até a estrutura dos parágrafos o é. Aliás, ao longo do livro, nota-se que os inícios de parágrafos são fortes, sucintos como o homem que não é calado. Exemplos:
Recuemos até 1988. Dundo. Ruas à sombra de enormes mangueiras. Casas coloniais muito bem cuidadas. Quase toda a cidade pertencia à Endiama. Leopoldo foi chamado ao gabinete de um dos diretores.” (p. 73)
“A noite caiu sobre o deserto. O frio instalou-se dentro do carro.” (p. 85)
A prosa é cirúrgica, parecendo alicerçar-se num misto de poesia e matemática, de simbologia e rigor. Agualusa consegue, a partir da primeira página, ir subvertendo as expectativas. A aparente simplicidade do enredo – ou a ideia da sua ausência, que pode derivar da expectativa de que o romance beba mais de uma sensação – é uma armadilha elegante: o leitor, que pensa que vai seguir uma narrativa linear, surpreende-se com com um delicado entre-cruzamento de fios narrativos. O deserto do Namibe, além de cenário, é uma espécie de personagem silenciosa, que aqui e ali consegue passar a sensação de vazio e de desnorte. Árido, contrapõe-se à riqueza emocional e aos dramas latentes, em particular ao desaparecimento da menina, que fica a arder no pai a vida inteira. Aliás, esta figura existe mais como catalisadora emocional do que como personagem compacta e detalhada, sem por isso passar a fazer de fantoche.
O romance apresenta uma saída no fim, explicando-lhe a ausência, e a justificação até pode saber a pouco, mas esse pouco não deixa de criar densidade emocional – fica-se com a sensação de que a vida podia ter sido de outra maneira, ou até que um pequeno descontrolo pode ter consequências desproporcionais. Seja como for, e estando a filha sem grande corpo na narrativa – é quase toda ausência –, Agualusa permite-se ir conjugando personagens centrais e quase periféricas – ainda que essenciais para o delinear das principais –, exibindo, em simultâneo, um domínio considerável sobre a construção do enredo: não há excesso, não há digressões escusadas; cada palavra tem propósito, cada parágrafo parece ter sido feito a bisturi.
De resto, é ainda assinalável a forma como o autor doma o ritmo da narrativa, alternando entre passagens introspectivas e cenas de acção. O leitor agarra o gancho e vai atrás, sem outra hipótese. A tensão narrativa está lá sempre, respirando em breves momentos de humor, sustentada pela prosa precisa e peso equilíbrio perfeito entre forma e conteúdo. Num romance sem gorduras, sem costuras, as frases estão esculpidas para que se maximize o efeito, seja estético, narrativo ou emocional.
Tudo pesado, Tudo sobre Deus diz mais sobre o Homem, e sobretudo sobre um homem. O romance é maduro, alicerçado em muita experiência narrativa, e Agualusa alia concisão a profundidade, inteligência narrativa a sensibilidade estética. O leitor abre o livro como quem mergulha, e é puxado para o livro com mãos de seda, com suavidade e graça. Fechado o livro, entende-se que o rigor se alia à inventividade, e que o nome disso é mestria.
A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico.