Crisóstomo (Rodrigo Santoro) é um pescador num local incerto e num tempo por confirmar. Sabemos através da narração que, apesar de ter uma vida preenchida com a natureza, com as coisas simples, sente falta de algo muito específico: um filho. Há uma criança que eventualmente fica ao seu cuidado, Camilo (Miguel Martines) e, partir daqui, a história de O Filho de Mil Homens parte para outro lado.
A história não é contada de forma óbvia, em parte pela maneira como aborda uma multiplicidade de ideias e derruba certos preconceitos em volta daquilo que se concebe como família. Apresentados Crisóstomo e Camilo, Daniel Rezende segue na história, trazendo outras personagens, sempre sem uma definição clara de tempo, de lugar (cabe ao espectador vê-la, percebê-la), que irão ajudar a percorrer um caminho para se vencer dogmas.
O estereótipo familiar vai sendo derrubado a favor do carinho gerado pelas personagens. Afinal, são eles, que saem dos caminhos naturais da sociedade, que estão certos, e os outros, que criam os códigos, que estão errados? Realizador e protagonista não têm respostas, mas O Filho de Mil Homens celebra várias possibilidades. Falámos com ambos via Zoom.
[o trailer de “O Filho de Mil Homens”:]
Já conhecia o trabalho de Valter Hugo Mãe?
Daniel Rezende (DR) — Foi o primeiro livro do Valter que li e fui completamente arrebatado logo no primeiro capítulo. O Crisóstomo se apossou de mim e, quanto mais eu ia entrando nas outras personagens que o Valter vai descrevendo, mais tinha a certeza de que este seria o meu próximo projeto.
O que o convenceu?
DR — Foi esse lugar de usar o realismo mágico, usar esse não-tempo, esse não-lugar, e essas personagens tão únicas para poder alargar os conceitos de família, de masculino, de como representar o feminino dentro da sociedade, o capacitismo, falar de capacitismo, falar sobre homofobia, mas sempre com um olhar muito humano, muito afetuoso, com autoridade. Terminei o livro e não tirava da cabeça a ideia de que este teria de ser o próximo projecto que ia dirigir e, pela primeira, escrever: foi a primeira vez que escrevi um roteiro. A poesia do Valter conquistou-me.
Rodrigo, o Daniel acabou de referir-se à sua personagem. Como a descreveria?
Rodrigo Santoro (RS) — São tantas coisas. O Daniel mandou-me o roteiro, eu não tinha lido o livro, apesar de já ter ouvido falar bastante do Valter Hugo Mãe. Fui imediatamente fisgado pela história, emocionou-me, e o Crisóstomo é uma personagem incrível. Deu-me muito receio de como traduzir para a tela, humanizar uma personagem da literatura, com tanta poesia, nesse ambiente que o Valter constrói, do realismo mágico. A gente não está, exatamente, numa realidade. Aceitei o desafio do Daniel, respeitando sempre a essência do livro e das personagens.
Foi difícil apoderar-se da personalidade de Crisóstomo, recriá-la?
RS — O Crisóstomo foi um mergulho meditativo, uma experiência onde precisei de exercitar a presença, o estar presente, estar conectado com a natureza, como a personagem. O Crisóstomo cresce conectado com a natureza e desconetado com o ambiente social, as pessoas, então é alguém que tem um ritmo diferente, tem uma forma de se relacionar com o mundo muito particular. Precisei de habitar este lugar, tentei encontrar este lugar e estar nele durante o processo todo, da preparação e da filmagem. Foi um presente maravilhoso, levarei o Crisóstomo no coração a minha vida toda.
▲ O estereótipo familiar vai sendo derrubado a favor do carinho gerado pelas personagens. Protagonista e realizador não têm respostas, mas "O Filho de Mil Homens" celebra várias possibilidades
Ambos mencionaram a questão do realismo mágico. Tendo isso em mente, há alguma cena que se revelou particularmente especial?
DR — Procurei a conexão visual do Crisóstomo com a natureza e quis trazer alguns conceitos que estudei na minha vida e que me ajudaram a desconstruir de padrões e crenças limitantes: a energia kundalini, a energia tântrica, a energia da conexão do seu corpo para com o mundo. Quando tive a ideia de fazer isso, ele escutando uma concha que acendia uma luz laranja, essa luz, era uma coisa que falávamos durante todo o processo. A função é que a luz laranja do Crisóstomo, que o conecta com as estrelas, com o mundo, areia, o mar, pudesse plantar sementes de Crisóstomos pelo mundo. Filmar essa concha, essa imagem icónica, da conexão dele com a natureza, escutar o som do mar e isso trazer a energia laranja, que parte do corpo dele, chega no mundo e vai transformando ele e as pessoas em redor. Fiquei muito feliz de transformar isso em imagem. E trazer da essência da palavra, um pouco da palavra do Valter, que funciona muito bem no livro, mas transformar isso em códigos, simples e imagéticos no filme, que não precisam do diálogo, da palavra, para que o espectador sinta e traz o espectador para ser alguém ativo no filme, não só passivo. Ele vai sentido essa sensibilidade, a subtileza das emoções, pelo meio do realismo mágico.
A ausência de tempo na história, e o tema, tornam-na algo intemporal. Mas vivemos em 2025, por isso, o que pode este filme ensinar hoje às pessoas?
DR — Tudo [risos].
RS — É uma lista muito grande. Mas falo do Crisóstomo, pela minha experiência. Vivemos num mundo individualista, toda a questão da internet, da globalização, de ter acesso a tantas coisas. Está a perder-se a capacidade de escuta e cada vez se olha menos para o outro. O Valter criou uma personagem que cresce isolado do mundo e isso forja um homem quase como o Mogli [O Menino Lobo]. Ele foi criado com outros códigos, por isso é uma metáfora muito interessante. É uma referência masculina que não estamos habituados a ver, nem na tela, nem na vida. É o primeiro convite a olhar para isso. Tem um homem que simplesmente escuta e vê o outro, é um convite ao espectador a pensar o lugar que ocupa no mundo. O filme, entre outras coisas, fala sobre a adoção. Quando o protagonista se vai tornando pai, ele vai aprendendo a relacionar-se com seres humanos.
▲ "A família pode ser um sentimento, uma rede de afeto que você encontra pelo mundo. Como você interage com outro ser humano, através do afeto, da compreensão, da autoridade", diz o realizador
Ao invés de ser um pai que doutrina, que ensina, que impõe.
RS — Sim, ele ensina e aprende ao mesmo tempo, ele acolhe, vai pelo afeto, pela escuta, ele respeita. Mesmo sendo uma criança, ele respeita aquele indivíduo em vez de dizer “faz assim”. É ao contrário, é a criança que diz para ele. A figura do Camilo é interessante, é ele que traz os códigos da sociedade, do mundo, “é assim que tem de fazer”, “você não me vai fazer isso”, “não vou para a escola”. Ele vem com questionamentos e o Crisóstomo vai dando respostas que nos fazem refletir muito. Ao adotar uma criança, também está a adotar o mundo e a si mesmo, olhar com olhos de quem quer ver de verdade, fala muito sobre o que a gente está a viver na atualidade.
DR — O filme não é panfletário, não diz o que está errado ou não, ele tem essa vontade, desejo, de simplesmente alargar conceitos como o que é uma família. A família pode ser um sentimento, uma rede de afeto que você encontra pelo mundo. Como você interage com outro ser humano, através do afeto, da compreensão, da autoridade. Nesse sentido, o filme é atemporal, mas não poderia ser mais atual, passamos pelas temáticas e ligamo-nos com estas personagens, sofremos com elas e nos identificamos com elas. Fico muito feliz quando a gente entende estas personagens, formando uma família que se une pelo afeto.
Essa questão da ausência de códigos do Crisóstomo está bem presente numa das cenas final, quando ele pede os churros.
DR — Essa cena é uma coisa que trouxe para o filme de experiências pessoais e que incorporei dentro da narrativa do Valter Hugo Mãe e que ajuda a criar a nossa personagem do Crisóstomo do filme. Fico feliz que tenha citado essa cena, especificamente.