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FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Críticas à polícia, uma assembleia popular sem voto e as novas caras do protesto: milhares em São Bento pela habitação

De uma cozinheira de 56 anos a uma emigrante de regresso à Suíça, a crise da habitação levou milhares a São Bento. A organização da Acampada travou o acampamento e mandou a multidão para a "cama".

Helena chegou à rua de São Bento às 18h30. É a hora marcada para o arranque da manifestação pela habitação, em frente à Assembleia da República, mas a praça — que se há de encher de manifestantes em poucos minutos — ainda está despida. A cozinheira da Amadora, de 56 anos, e o marido decidiram juntar-se ao protesto, mas garantem que não o fazem por eles: é pelos que vieram a seguir. “Estou a tentar salvaguardar o futuro dos meus filhos e das minhas netas. A habitação está pela hora da morte, ninguém consegue fazer face à escalada de preços.”

Ao ver as pessoas que chegam de várias artérias de Lisboa, depois de um dia de trabalho, saúda quem decidiu aparecer nas manifestações pela habitação. No ponto alto da manifestação, a polícia contabilizou entre 5 mil e 7 mil manifestantes, a organização falava em números superiores. “Parece que as pessoas finalmente estão a abrir os olhos. E devem, porque as coisas estão mesmo muito más para quem trabalha”, desabafa a mulher ao Observador.

Àquela hora ainda não é certo como o protesto vai terminar. As imagens dos dias anteriores, com a polícia a varrer as tendas e os manifestantes da Praça D. Pedro IV, ainda estão frescas na memória. Uma nova tentativa de acampada, desta vez em frente ao Parlamento, seria o melhor caminho para quem protesta há vários dias ininterruptamente? Helena diz que é uma opção legítima. “É uma forma de manifestação. Eu não vou ficar, mas não sou contra.”

Polícia, protestos e habitação. O dia 1 do debate do Orçamento (que passou ao lado) e que obrigou Montenegro a falar

Quase cinco horas depois, a organização da Acampada de Lisboa decidia que, esta terça-feira, não haveria Acampada em frente ao Parlamento. “Não estão reunidas as condições para fazermos um acampamento aqui”, anunciou Priscilla Valadão, uma das porta-vozes do movimento que tem liderado informalmente os protestos, a partir de um pequeno estrado que serviu de palco para as intervenções da noite. Pela primeira vez, não houve votação: a organização da Acampada comunicou a decisão de não pernoitar sem antes levar o assunto a discussão dos manifestantes, como tinha acontecido até agora no Rossio. A Assembleia Popular esteve reunida por horas a fio, mas não foram apresentadas propostas pelos intervenientes — apenas palavras de ordem e testemunhos de quem tem dificuldades para pagar o preço de um teto para viver.

Também não houve explicações sobre como a organização chegou à decisão de não acampar ali. No dia anterior, no Rossio, foi deixada em aberto a hipótese de o protesto se instalar em frente à Assembleia. Não aconteceu. A partir do palco, Priscilla Valadão garantiu que a organização consultou a “equipa de segurança” da Acampada, que apontou para a falta de condições de segurança para pernoitar ali. “Eu quero dormir na minha cama. Vamos juntos para casa”, afirmou apenas a porta-voz, apelando ao regresso a casa.

As tendas, que nas últimas duas semanas se transformaram num símbolo do protesto, quase não apareceram. As únicas que se viram foram as que a multidão fez circular pelo ar, numa espécie de “crowd surfing”. Entre os manifestantes, estiveram esta terça-feira pessoas de diversas faixas etárias — uma afluência diferente daquela que se tem verificado nos protestos noturnos no Rossio, sobretudo nas madrugadas na praça, onde a maioria dos participantes é jovem.

▲ Três tendas circularam pela rua de São Bento pelas mãos dos milhares de manifestantes

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Numa das intervenções da Assembleia Popular, uma das manifestantes afirmou: “Isto não é um lugar mal frequentado, isto é um país”. Não foi a única a contestar o estereótipo que alguns responsáveis políticos e comentadores têm tentado associar aos manifestantes que lutam pelo direito à habitação. A expressão “arruaceiros”, usada pelo democrata-cristão Paulo Núncio, foi recordada até à exaustão durante o protesto, com os manifestantes a garantir que “não interessa o que fumam, vestem ou de que cor têm o cabelo pintado”, mas sim a causa que têm defendido nas últimas semanas.

Vaias à PSP de meia em meia hora, tendas no ar e uma emigrante que voltou a São Bento antes de voar de regresso à Suíça

Aos 15 anos, viver perto da rua de São Bento significava, muitas vezes, ficar irritada por não ter autocarro para andar “porque a malta se vinha manifestar”. “Hoje, com 24 anos, faço parte da malta que se anda a manifestar”, contou a manifestante ao microfone montado no pequeno palco em frente à Assembleia da República que diz ter “o tempo contado”.

A noite “aterrorizante” no Rossio, que acabou com carga policial, barricadas e vários feridos

Daqui a duas semanas terá um voo de volta para a Suíça, para onde emigrou há três anos “exatamente” por não conseguir pagar uma casa. Embora admita recordar um “Portugal diferente”, em que o vizinho ainda era quem emprestava açúcar quando faltava. Ainda assim, não esconde a vontade de regressar de vez. “Este foi o país que me criou e é para aqui que eu quero voltar”, vincou.

Antes, as intervenções tinham arrancado com uma atuação de Marisa Liz e Vasco Duarte, anunciada pelo comentador e ativista Nuno Ramos de Almeida, do movimento Vida Justa. Lá em cima, viam-se janelas do edifício do Parlamento abertas. No interior, várias pessoas acompanhavam o que se passava na rua. Durante a atuação de Marisa Liz, viram-se pessoas nas janelas dos gabinetes do Chega a bater palmas ao ritmo das canções, enquanto nas janelas da Iniciativa Liberal os presentes se limitavam a assistir. Depois de começar com “A Morte Saiu à Rua”, de Zeca Afonso, a artista apelou logo de seguida aos agentes da PSP presentes para que se juntassem ao protesto.

Mas a mensagem de Marisa Liz contrastava com os intervalos pontuais para assobiar a polícia. De meia em meia hora, quem estivesse a falar ao microfone tinha de parar a intervenção para dar lugar à troca de agentes da PSP. Os mesmos manifestantes que começavam por vaiar e assobiar a chegada do novo contingente acabavam, segundos depois, a cantar em coro “Juntem-se a nós”. Os olhares entre a multidão procuravam uma reação nos rostos dos agentes — mas que nunca chegou. A PSP foi gerindo a presença no protesto: além dos seis elementos em permanência, a meio da escadaria, várias equipas da Unidade Especial de Polícia ficaram horas estacionadas junto ao Palácio de São Bento, uns metros acima do protesto.

Pela rua de São Bento viram-se tochas a arder, tendas a passar de mão em mão por cima da multidão em “crowd surfing” e até um saco de palha que acabou despejado para lá das grades de proteção da escadaria. E além das intervenções da Interjovem, da CGTP, assim como de outros grupos, a própria organização da Acampada de Lisboa falou.

“O Governo tirou-nos as tendas porque tem medo do movimento que estamos a construir”, acusou um dos porta-vozes, exigindo a retirada da nova lei do arrendamento e a fixação de tetos de renda acessíveis. João Veloso, outro dos porta-vozes, atirou que “este também vai ser o Governo que vamos ver cair”, garantindo que “às bastonadas deles respondemos a voltar a montar as tendas”. Priscilla Valadão, mediadora de todas as assembleias populares no Rossio, deixou uma pergunta: “Quem tem medo do poder popular?”

A desmobilização de quem luta por ter casa e o regresso de um grupo de amigos a uma “boa casa”

Perto da meia-noite, quando a maioria dos manifestantes respondia ao apelo da organização da Acampada e já começava a abandonar a rua de São Bento, um grupo de quatro amigos entre os 50 e 60 anos debatia a crise de habitação. “Isto não tem só freaks e loucos”, garantiu ao Observador Caetano.

PSP publica vídeo nas redes sociais onde mostra agressões de manifestantes

Nuno admitiu que vivem perto, bem no coração de Lisboa, e que por estarem “solidários com esta situação” fizeram questão de estar presentes no protesto. “Vivo no centro da cidade há muito tempo e pago 750 euros [de renda], mas tive de pagar por fora ao meu senhorio para estar numas condições acordadas”, admite Natcho, gestor cultural. O apartamento, que chama de uma “boa casa”, é um T4, mas só está nas condições atuais porque à entrada, há 15 anos, foi ele próprio, como arrendatário, quem renovou a casa. “Eu é que a reparei, quando entrei estava completamente destruída”, garante.

O contrato de arrendamento nas condições em que existe neste momento vai vigorar até ter 67 anos. O amigo Nuno vive no mesmo prédio e paga 1.100 euros de renda. “São senhorios fixes, que há poucos”, diz um deles.

“Isto aqui é apartidário. Não tem política aqui, aqui tem direitos do cidadão e deveres do Estado”, garante Caetano. O quarto amigo do grupo chama-se Valério e é o único que não vive em Lisboa. Chegou de Itália há alguns anos para trabalhar em Portugal e teve que ir embora de Lisboa por não conseguir pagar uma renda. “Voltou para a terra dele”, diz um dos amigos em tom de brincadeira.

▲ Milhares reuniram-se à frente do Parlamento, em dia de discussão do Orçamento do Estado para 2027

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Poucos minutos depois de falar com o Observador, os amigos fazem o caminho para regressar a casa. Nesse momento, o palco de onde os manifestantes gritavam palavras de ordem já tinha sido desmontado e os membros da organização já não se encontravam no local. Na rua de São Bento permaneciam pequenos grupos de manifestantes e alguns curiosos que observavam a escadaria do Parlamento, onde seis agentes da PSP continuavam alinhados no segundo patamar.

Depois disso, já depois da 1h00, chegaram as máquinas de limpeza municipais para limpar o local. Parte da estrada e passeio ficaram repletos de vidros de uma paragem de autocarro. O Observador não conseguiu apurar as circunstâncias em que aquele equipamento acabou danificado. Durante o protesto, pelo menos três pessoas estiveram sentadas no teto da paragem de autocarro.

Acampada. 8 minutos na linha da frente entre polícias e manifestantes

Enquanto os poucos grupos que restavam se limitavam a conviver, apenas um jovem mantinha a postura de protesto. De cara tapada por um lenço, com cotoveleiras, luvas e uma joelheira rasgada, chegou a pegar em garrafas de vidro — não para as arremessar, mas para as deitar no lixo. Nas mãos segurava um cartaz apenas com o símbolo da paz. “É por uma questão de presença, para que eles [os agentes da PSP] vejam que nos protegemos uns aos outros”, explicou ao Observador.

Esta quarta-feira, os manifestantes da Acampada de Lisboa regressam à Praça Dom Pedro IV, no Rossio, o local habitual da manifestação. Há nova Assembleia Popular marcada para as 19h00. Na Assembleia da República vai continuar a discutir-se e é votada na generalidade a proposta do Orçamento do Estado para 2027. Durante a manifestação, muitos subiram ao palco para criticar o documento, garantindo que não dá resposta aos problemas da habitação.

“O que hoje foi discutido no Parlamento é o corte de 6% na Habitação”, afirmou João Veloso, porta-voz da Acampada de Lisboa. Como muitos outros manifestantes, João Veloso apelou à adesão a uma greve geral ibérica e a uma mobilização das centrais sindicais. Esse protesto já tem data marcada: 11 de novembro.

[Duarte Lima admite ter estado com Rosalina Ribeiro na noite em que a herdeira milionária desapareceu mas nega ter sido a última pessoa a vê-la com vida. Conta que, depois da reunião que tiveram, no Rio de Janeiro, levou a cliente até Maricá, para um encontro com uma mulher chamada Gisele. É uma versão que não bate certo com as primeiras provas recolhidas pelas autoridades brasileiras. Enquanto Duarte Lima se torna, para a polícia, o principal suspeito do homicídio, perde força a outra linha de investigação. Olímpia Feteira era inimiga assumida da antiga companheira do pai mas garante que nunca desejou a morte dela. E, ao contrário de Duarte Lima, disponibiliza-se para prestar todas as informações necessárias à polícia brasileira. Já pode ouvir o segundo episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

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