Nesta quinta-feira, assinalaram-se os 80 anos do início dos julgamentos de Nuremberga e a Biblioteca da Harvard Law School tornou acessível a coleção integral de todos os registos jurídicos que levaram os principais líderes nazis à justiça. O projeto, levado a cabo por uma equipa de cerca de 30 historiadores, curadores de metadados e bibliotecários, demorou mais de 25 anos a ser concluído.

“O trabalho minucioso de retirar agrafos e clipes enferrujados dos documentos frágeis para que pudessem ser digitalizados” começou em 1998, contou Paul Deschner, responsável pelo projeto, ao The Guardian, acrescentando que o objetivo inicial foi “digitalizar tudo o que existia sobre os procedimentos do tribunal na coleção da biblioteca”, que até então estava guardado em caixas e a desfazer-se com o toque, “por estarem em papel mimeografado ácido dos anos 40, incapaz de resistir ao manuseamento”.

A coleção reúne mais de 750 mil páginas. Entre os materiais agora disponibilizados contam-se transcrições que registam, palavra por palavra, toda a atividade em tribunal, bem como documentos de origem usados pelos advogados e provas apresentadas pela acusação e pela defesa entre 1945 e 1949. Nos julgamentos principais, foram levados ao banco dos réus 19 dos mais influentes dirigentes nazis, entre os quais Hermann Göring, Rudolf Hess e Albert Speer acusados de crimes contra a humanidade no Holocausto. Nas sessões seguintes, quase 200 indivíduos foram acusados e apenas três foram absolvidos.

De acordo com Deschner, a nova plataforma online irá permitir aos utilizadores descobrir informação “de múltiplas formas, quer usando as transcrições como mapa de entrada na coleção, quer por palavra-chave”. Os documentos mostram com detalhe “como planos inicialmente pouco visíveis na década de 30 evoluíram em poucos anos para a máquina do genocídio”. Há, segundo conta o responsável, peças em que “o horror é explícito” e que traçam “um quadro claro das dinâmicas” que conduziram ao Holocausto. “Tem uma utilidade enorme para quem tenha olhos para ver e ouvidos para ouvir“, disse, sublinhando que os arquivos podem ajudar a reconhecer padrões que permanecem relevantes “em qualquer época, incluindo a nossa”.

O coordenador considera, ainda, que o projeto ganha mais importância numa altura em que, diz, a liberdade académica é frequentemente posta em causa e o papel das universidades enquanto guardiãs da verdade é contestado. “Num tempo em que o acesso ao mundo é moldado pelo que está digitalmente acessível e em que aquilo que antes se entendia como autêntico está a ser destruído, é absolutamente essencial oferecer ao utilizador provas que sustentem a autenticidade do que está a ver“.

Amanda Watson, que trabalha nos serviços da biblioteca da Harvard Law School, afirmou que preservar e partilhar os documentos online. “Esta coleção é uma resposta a uma das perguntas mais críticas da História. Como é que o Direito pode estar à altura de momentos de crise internacional? Hoje garantimos que esta resposta não fica trancada, mas sim acessível a todos“, sublinhou.