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Mani: a dança do homem-groove (1962-2025)

Este artigo tem mais de 6 meses

No baixo encontrou o melhor amigo, com os Stone Roses fez a pop perfeita dançar como nunca e aos Primal Scream entregou balanço singular. Músico de referência, ícone de uma era, morreu aos 63 anos.

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▲Gary Mounfield: autodidata iluminado, libertador de ancas, o sensualizador da pop mais açucarada

Getty Images

▲Gary Mounfield: autodidata iluminado, libertador de ancas, o sensualizador da pop mais açucarada

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Até quinta-feira, 20 de novembro, quando alguém em Portugal googlasse a palavra “Mani”, o primeiro resultado que obtinha era o de uma empresa de embalagens, com um site a lembrar os anos 90, onde se pode ler que no site “pode encontrar uma vasta gama de embalagens para a restauração, supermercado e indústria alimentar”. Isto diz-nos pelo menos duas coisas: que se por acaso quisermos montar uma cantina já sabemos onde encomendar tabuleiros; e que Mani, o ex-baixista dos Stone Roses, que mais tarde se juntou aos Primal Scream, podia ser uma estrela entre os seus pares, mas é desconhecido da maioria do povo.

O que se pôde comprovar esta quinta-feira, 20 de novembro, quando morreu, dois anos após a morte da sua mulher, em circunstâncias ainda por apurar. A título de exemplo, recordemos a morte de Prince: toda a internet o chorou e partilhou histórias do que sentiu ao ouvir Prince pela primeira vez, ou ao vê-lo ao vivo. Prince era uma super-estrela, cuja música chegou aos ouvidos de dezenas e dezenas de milhões, pelo que isto é normal.

Mas ontem, ao scrollar pelas redes sociais, não encontrávamos o mesmo tipo de partilha – houve uma catadupa de tributos, homenagens e lágrimas vertidas, sim, mas sobretudo por parte de músicos, nomeadamente músicos ingleses que tenham sido relevantes entre o final dos anos 80 e o final da década de 90. A segunda grande demografia a lamentar a morte de Mani foi a malta da minha geração que ouviu os Stone Roses mais ou menos quando apareceram – e se a memória nos fez pensar que os Stone Roses foram gigantes, talvez ela nos tenha andado a pregar truques, porque se assim fosse devia haver mais posts. Ou então nunca ninguém liga aos baixistas. As pessoas reconhecem os vocalistas, quando muito os guitarristas, mas é raro que alguém se lembre de um baixista.

No caso, deviam. Porque se hoje é comum vermos homens brancos a abanar o rabo na pista de dança às 4 da manhã, as coisas não eram assim na década de 80. Os brancos dançavam, mas a anca permanecia quieta. Para quem nasceu entre 1970 e 1985, isto foi assim até ao aparecimento de dois fenómenos: Prince e os Stone Roses. A omnipresença de Prince, e do seu groove, começou a libertar a anca do homem branco; mas foi a aparição dos Stones Roses, e o culto pelos Stone Roses, que dispuseram o homem branco para a possibilidade de se deixar ir e libertar o rabo (passe a expressão).

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▲ John Squire, Reni, Ian Brown e Mani: os Stone Roses em 1989

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Deixem-me agora imaginar-vos enquanto pessoas nascidas depois de 1990: é preciso explicar-vos que vocês não terão conhecido o mundo pré-internet e pré-telemóveis. As coisas, nomeadamente as notícias e os discos, chegavam a Portugal com muito atraso relativo ao momento em que tinham acontecido. Nem sempre era assim, note-se: o meu primeiro disco de Prince, o maxi single de Time, obtive-o em 1987 e passei horas a ouvi-lo na sala, com a minha irmã, enquanto lhe perguntava o que eram a SIDA e o crack que Prince mencionava na canção; ser puto naquela altura era não ter nada para fazer, ouvir obsessivamente a mesma canção, e pelo meio descobrir duas epidemias.

E agora uma confissão: anos mais tarde ela foi para a faculdade, onde dividia quarto com uma colega. Enquanto a família (e a colega) conversavam na sala de estar, sentei-me na cama da minha irmã a olhar para uma cassete que estava na mesinha de cabeceira – de um lado tinha um disco dos Cure que eu não conhecia, do outro um álbum de uma banda de que eu nunca tinha ouvido falar. Apeteceu-me ouvir o disco dos Cure (é normal: era grande fã): meti a cassete e fiquei apaixonado por aquele som quente e redondo, que me parecia vir de tempos antigos, como se fosse música que os meus pais ou tios tivessem dançado no casamento ou batizado de um deles.

Eu tinha, claro, posto a tocar o disco de estreia, homónimo, dos Stone Roses. Dizendo a mim mesmo que a minha irmã não se importaria que a cassete fosse deslocalizada para nossa casa, meti a dita ao bolso e optei por não a informar do facto até, bom, até hoje. E foi assim que descobri The Stone Roses, o disco de estreia dos ditos e passaram-se anos até saber alguma coisa sobre eles; mas passaram-se só dias até à minha irmã dizer que tinha desaparecido a cassete dos Stone Roses da sua colega de quarto – aparentemente eu não só me enganei no lado da cassete, também me enganei na cama e mesinha de cabeceira. Optei por não esclarecer a minha irmã.

Ao início, quando ainda não tinha lido uma peça de jornal que fosse sobre os Roses, pensei que fosse uma banda influenciada simultaneamente por uns Rolling Stones mas mais docinhos, e pelo que imaginava terem sido os músicos que marcaram Prince (e que eu não sabia quem eram). Nesses tempos, para sabermos alguma coisa sobre as bandas ou líamos o Blitz – o que eu passei a fazer – ou pedíamos a quem fosse ao estrangeiro para nos trazer discos e jornais – o que eu passei a fazer.

E foi assim que comecei a ler NMEs e Melody Makers e a ir às lojas de discos importados e revistas importadas do Porto abastecer-me de música e informação, o que me obrigava a cortar a relva dos vizinhos a troco de, bem, trocos.

Inicialmente o que me cativou nos Roses foi a melodia; mas lentamente o meu ouvido começou a ficar treinado em desmontar as canções, não as ouvir apenas como um todo mas cada parte – e foi aí que comecei a reparar na cola que cometia o milagre de unir cada parte individual e ao mesmo tempo fazer o todo abanar sem cair: o baixo.

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▲ Bobbi Gillespie e Mani: os Primal Scream ao vivo no festival de Glastonbury em 2005

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Meu Deus, que baixo, que bateria: entre aquele bum-tchaka-bum dos Roses (que mais tarde percebi que foi pilhado à Motown) e a guitarra ritmo do genial John Squire havia algo ali a ondear, algo de subreptício e redondo, que primeiro nos fazia abanar as costas, depois o ombro, até finalmente chegar à anca e, por osmose, ao rabo: as mais roliças linhas de baixo que até então tinha ouvido.

Passaram-se anos até descobrir que os Roses haviam sido um fenómeno, conquistado o Reino Unido da noite para o dia, e que The Stone Roses fora disco de platina. Na minha terra natal não conhecia ninguém que os apreciasse, mas quando cheguei à universidade comecei a ver miudagem com T-shirts com a capa do disco e percebi que estava finalmente em casa. Que agora pertencia a alguma coisa.

A história dos Roses é meio trágica: andaram de formação em formação até Mani entrar e tudo bater certo, fizeram um par de singles que não entraram no disco, o primeiro dos quais lançado 4 anos antes, e explodiram com o álbum, enchendo estádios e deixando atrás de si um rasto de concertos míticos, em que supostamente o consumo de MD bateu recordes – convém recordar que eles vieram de Manchester, onde – no pós-Joy Division – a Hacienda popularizou o house e outros géneros dançáveis.

Mani (Gary Mounfield) não nasceu propriamente abonado: filho da classe operária de Manchester, criado nas ruas, descobriu a música por mero acaso, e adotou o baixo pelas mesmas razões que levaram tantos outros baixistas a optar por esse instrumento: não sabia cantar, tocar guitarra ou bateria. Teoricamente, e na música feita por brancos, o baixo é o instrumento mais simples de tocar – um stacatto na nota raiz do acorde, quando muito uma ida à 4ª ou à 5ª, e está a andar. Mas aquelas ruas estavam cheias da então nascente música de dança e música de dança num baixo significa funk e soul e mesmo sem um conhecimento enciclopédico da música negra dos anos 60 e 70 Mani descobriu o seu caminho para a mina de ouro dos rabos que abanam: um autodidata iluminado.

Entre zangas pessoais, querelas com editoras e problemas de dinheiro e quantidades absurdas de drogas, os Roses demoraram 5 anos a criar o seu segundo disco, Second Coming, que obviamente não esteve à altura do hype e do seu antecessor; três anos depois, Mani juntou-se aos Primal Scream e participou em Vanishing Point – por amor de Deus, ponham-se já a ouvir Vanishing Point, desse disco, e ouçam com atenção a linha de baixo.

A morte de Mani poderá não ter o impacto para a humanidade que a de Prince teve – mas para uma certa demografia de uma certa geração, representa o mesmo: foi a pessoa que nos libertou o rabo. Nunca pensei escrever isto, mas: obrigado por me libertares o rabo, Mani.

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