E à 10.ª reunião, a assembleia popular da Acampada de Lisboa aprovou por unanimidade mudar de cenário. Por um dia, vai trocar o Rossio pela Assembleia da República. O movimento pelo direito à habitação vai juntar-se a uma manifestação já promovida por outra organização, a Casa para Viver, que irá concentrar-se a partir das 18h30 desta terça-feira em frente ao Parlamento, no primeiro dia de discussão do Orçamento do Estado para o próximo ano. Será depois desta manifestação que a Acampada vai realizar mais uma assembleia popular, a primeira que não terá o Rossio como palco — e é nesse momento que os manifestantes devem tomar a decisão sobre se as tendas ficam ou são recolhidas.
Se a decisão de mudar de local passou facilmente com os votos a favor da generalidade dos participantes, o eventual regresso aos acampamentos noturnos não obteve uma maioria clara. Numa sessão que terá sido das menos participadas desde o início da Acampada de Lisboa, foi tempo de respirar e ganhar fôlego para o protesto do dia seguinte, mas também foram percetíveis as marcas da recente carga policial sobre quem estava acampado no Rossio na madrugada de domingo e que provocou vários feridos.
Quando foi a votos a proposta inicialmente feita por Renata Cambra de acampar à noite em frente ao Parlamento para ficar até quarta-feira — dia em que será votado na generalidade o Orçamento do Estado —, a assembleia dividiu-se. Apesar de haver mais votos favoráveis do que contra, a esmagadora maioria dos participantes absteve-se e vários manifestaram preocupação face a uma eventual intervenção policial mais musculada. Mas também houve quem defendesse que era importante aproveitar o momento e capitalizar o impacto já conseguido, aumentando a pressão sobre o Governo.
Com os votos contados de braço no ar e de forma aproximada, os organizadores da assembleia procuraram apresentar uma proposta que suscitasse um apoio mais claro.
▲ Votação na assembleia popular realizada a 26 de outubro no Rossio
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Depois de ouvir os argumentos de quem defendia cada uma das três opções, a solução votada ficou a meio caminho — os manifestantes que quiserem levam as tendas para o Parlamento, onde serão montadas de forma simbólica. Uma eventual decisão de ficar acampados durante a noite, como aconteceu pela última vez na noite de sábado para domingo, será tomada mais tarde durante a assembleia popular que se irá realizar depois da manifestação pela habitação, por volta das 20h00. A ação de protesto vai começar no Marquês de Pombal com uma marcha de bicicletas com destino à Rua de São Bento.
Esta foi a votação que marcou a noite, não obstante ter havido uma lista grande de pontos votados — alguns dos quais vinham já de reuniões passadas. A noite acabou mais cedo para a grande maioria dos participantes, mas houve quem quisesse ficar. E para os resistentes, a organização tinha outra proposta — formação.
Fazer-se pesado e proteger a cabeça e zonas sensíveis: manual de resistência à polícia
Os que ficaram foram divididos em três a quatro grupos e, em cada um deles, alguns membros da organização deram uma aula prática sobre como resistir pacificamente à ação policial num protesto.
Os participantes revezaram-se a desempenhar os papéis de agentes policiais e de manifestantes, a quem foi explicado que deveriam fazer-se pesados como se fossem sacos de batatas, caso fossem removidos. Também foram dadas dicas sobre como proteger as zonas mais sensíveis do corpo, em caso de uma atuação mais agressiva.
Numa assembleia em que a presença policial foi discreta — eram visíveis menos de dez agentes na Praça do Rossio — não faltaram referências às forças policiais. E até houve uma proposta para o movimento se juntar à manifestação que a PSP tem programada para esta semana, para mostrar que não estão contra a polícia, mas sim contra o Governo. E até, quem sabe, para conquistar alguns polícias para o lado do movimento.
“É uma proposta da minha mãe, que até vota no PSD mas é boa pessoa”, argumenta o proponente que, perante algumas reações negativas, justifica ter sido um dos agredidos na madrugada de domingo. A proposta não passou na votação, mas outras passaram.
▲ Presença policial discreta, mas visível nesta 11.ª assembleia popular
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Uma das decisões tomadas foi a de dirigir um apelo às centrais sindicais CGTP e UGT para avançarem com uma greve geral, unindo-se aos sindicatos espanhóis numa greve ibérica.
Também foi incluída nas reivindicações do movimento a exigência de que a Câmara de Lisboa suspenda a venda em hasta pública de dez terrenos municipais. São quase 30 mil hectares que dariam para construir 500 casas, argumenta o defensor da proposta que compara o encaixe previsto de 59 milhões de euros com a dimensão dos apoios que a Câmara de Lisboa deu nos últimos anos à realização da Web Summit. “Não precisamos de mais casas de luxo, queremos casas acessíveis”.
Ao longo da assembleia, foram colocados vários temas sobre como deve evoluir a organização do movimento porque, constata uma das organizadoras, não basta aparecer e votar. Para construir o movimento é preciso distribuir tarefas. “Precisamos de pessoas para trabalhar” e já estão a ser formados vários grupos temáticos — da tecnologia à logística, passando pela comunicação e pela segurança. É igualmente necessário tomar decisões sobre o funcionamento das assembleias, das votações e se continuam a acontecer num espaço aberto a todos, incluindo à comunicação social.
A assembleia popular desta terça-feira foi antecedida de vários testemunhos e os ativistas do Climáximo apelaram à mobilização dos estudantes para uma greve climática a nível europeu no dia 20 de novembro, seguida de uma concentração no dia seguinte contra a militarização da Europa. Houve ainda lugar aos mais diversos testemunhos. Desde o preso político e militante do PCP que foi detido em 1971 até à médica que nasceu em Chelas e que até tem casa comprada e não tem cabelo azul, mas não sabe o que lhe aconteceria se se separasse e tivesse de encontrar outro sítio onde morar.
A concentração frente à Assembleia da República está marcada para as 18h30, hora a que ainda decorrerá o debate sobre o Orçamento do Estado para 2027. Pouco depois, os manifestantes decidem os passos seguintes — três dias depois da última noite de confrontos entre polícia e participantes da acampada pelo direito à habitação.
[Duarte Lima admite ter estado com Rosalina Ribeiro na noite em que a herdeira milionária desapareceu mas nega ter sido a última pessoa a vê-la com vida. Conta que, depois da reunião que tiveram, no Rio de Janeiro, levou a cliente até Maricá, para um encontro com uma mulher chamada Gisele. É uma versão que não bate certo com as primeiras provas recolhidas pelas autoridades brasileiras. Enquanto Duarte Lima se torna, para a polícia, o principal suspeito do homicídio, perde força a outra linha de investigação. Olímpia Feteira era inimiga assumida da antiga companheira do pai mas garante que nunca desejou a morte dela. E, ao contrário de Duarte Lima, disponibiliza-se para prestar todas as informações necessárias à polícia brasileira. Já pode ouvir o segundo episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]