“Quarteto nasceu de uma ideia, tem um fim exclusivo e um objetivo claro – oferecer ao público de Lisboa o cinema de que gostamos. Esta exigência impunha a criação de um pequeno circuito de salas, um centro de cinema, adaptado à condição exigida. É, portanto, de nossa total responsabilidade a qualidade dos filmes exibidos. O que somos pode-se ver pelos filmes a exibir. Do que gostamos também. O tempo, com cada filme exibido, dará de nós a nossa imagem. Queremos antes de tudo assegurar a divulgação de filmes que achamos importantes. Assim, estas 4 salas constituirão um acesso a cinema de qualidade, a cinema novo, a Cinema”.

Assim escrevia Pedro Bandeira Freire (1939-2008), o fundador do Cinema Quarteto, no programa de apresentação daquele que foi o primeiro multiplex português, um projeto assinado pelo arquiteto Nuno San-Payo, que abriu há 50 anos, a 21 de Novembro de 1975. Quatro dias antes da tentativa de golpe da extrema-esquerda, e um mês após a inauguração do Nimas, situado numa artéria discreta e sem saída paralela à Avenida dos Estados Unidos, a Rua Flores do Lima. Chegava ao fim o PREC, arrancava o Quarteto.

“Quatro salas, quatro filmes”, era a divisa sucinta que o definia. Um modelo importado de Paris por Bandeira Freire, um cinéfilo de casca e gema com experiência profissional no meio, que inovou a oferta de filmes em Lisboa pela quantidade (já havia outras salas-estúdio na cidade, como o Estúdio 444, o Estúdio do Império, o Apolo 70, o Satélite ou o citado Nimas, mas não em complexo); e pela qualidade, ao privilegiar o chamado cinema de “arte e ensaio” (ou “alternativo”, como se dizia na época), de todas as latitudes e a produção independente norte-americana, bem como curiosidades e excentricidades irrotuláveis, e ainda os clássicos em cópias restauradas, contribuindo assim de forma inestimável para a divulgação e o enriquecimento da cultura cinematográfica, e o fomento da cinefilia.

Os filmes inaugurais desse memorável dia 21 de Novembro de 1975 foram E Deram-lhe Uma Espingarda…, de Dalton Trumbo, S. Miguel Tinha Um Galo, de Paolo e Vittorio Taviani, Um Filme Doce, de Dusan Makavejev e Amor em Tons Eróticos, de Mai Zetterling. Os bilhetes custavam 27$50 nas sessões da tarde e 32$50 nas da noite (preços que voltavam a ser praticados sempre que o cinema fazia anos e se realizavam as inesquecíveis maratonas de 24 horas a ver filmes). As quatro salas tinham uma média de 170 lugares, não numerados, que davam um total de 18 sessões diárias. Eram acessíveis por pequenas escadas ascendentes ou descendentes, e havia um bar na entrada do cinema, no lado oposto às bilheteiras. Lá trabalhavam 22 pessoas.

[“Trailer” de “E Deram-lhe Uma Espingarda”, um dos quatro filmes que inauguraram o Quarteto:]

O amor ao cinema de Pedro Bandeira Freire e a sua vontade de mostrar aos outros os filmes de que gostava (e também alguns de que não gostava, mas que achava importante divulgar), aliados ao seu sentido do negócio e de oportunidade (estávamos no pós-25 de Abril e com o fim da Censura o mercado da exibição estava livre e escancarado, e apto a servir um público que acorria em massa às salas ávido de ver tudo o que lhe fosse proposto, da pornografia hardcore ao cinema de “autor” mais abstruso e vanguardista, bem como os filmes banidos pelo regime anterior) transformaram o Quarteto, do dia para a noite, num fenómeno de popularidade único. O cinema tornou-se assim num endereço de frequência obrigatória quer para os cinéfilos lisboetas, quer para quem, não o sendo propriamente, ia ao cinema com regularidade na capital. Como dizia Bandeira Freire, “a nossa vocação é mostrar cinema, e quanto melhor, melhor”.

O Quarteto foi inovador não só pela forma, pela filosofia e pela programação, mas também pelas muitas e variadíssimas iniciativas. Pedro Bandeira Freire criou sessões duplas da meia-noite às sextas-feiras (foi numa destas que houve uma “batalha” épica entre dois grupos rivais de motociclistas da Avenida de Roma, durante a exibição de Rollerball, de Norman Jewison) e as já mencionadas maratonas de aniversário que duravam um dia, apresentou extensões da Quinzena dos Realizadores e das Perspectivas do Cinema Francês, vindas do Festival de Cannes, bem como de festivais portugueses como o Fantasporto, levou às quatro salas diversos ciclos, de Jerry Lewis ao cinema soviético e cubano, passando pela comédia, fitas baseadas em obras literárias ou selecções do melhor das principais distribuidoras nacionais, sem esquecer as antestreias de filmes portugueses. E houve ainda ousadias várias, caso da estreia de All That Jazz, de Bob Fosse, em simultâneo nas quatro salas, ou de Noite e Nevoeiro, de Alain Resnais, num dia 1º de Janeiro.

[“Trailer” de “All That Jazz”, de Bob Fosse, estreado nas quatro salas do Quarteto:]

O Quarteto teve também uma revista, A Memória do Cinema, e um cartão de fidelidade do espectador. Quando os seus 20 rectângulos (um por bilhete) estivessem todos carimbados, recebia-se um bilhete grátis. E entre os Verões de 1981 e 1982, o Quarteto substituiu a Cinemateca, cuja nova sala tinha sido destruída por um incêndio no dia 23 de Abril de 1981, meio ano após a sua inauguração. Viram-se, nessa altura em que a Cinemateca foi “hóspede” de uma das salas da Rua Flores do Lima, oito ciclos, o último dos quais, dedicado a Georges Franju, em Junho e Julho de 1982, recebeu a visita do realizador de Olhos Sem Rosto.

Além da Cinemateca, o Quarteto também acolheu teatro. A primeira peça lá encenada foi A Verdadeira História de Jack, o Estripador, de Isabelle Huppert, interpretada por Ana Zanatti e Zita Duarte, com encenação de Carlos Avillez. Huppert esteve presente na estreia e o espectáculo, anunciado na imprensa como “A quinta dimensão do Quarteto”, e “Ao vivo!” deu muito que falar por causa da nudez das actrizes. Entre mais algumas peças, também lá se viu Traições, de Harold Pinter, com Lia Gama, Filipe Ferrer e Mário Jacques. E por falar em quinteto, Pedro Bandeira Freire explorou ainda, entre 1982 e 1985, o Quinteto, na Rua ActorTaborda, ex-Cinebolso, sala que tinha sido aberta no início de 1975 por um seu futuro sócio no Quarteto, primeiro como cinema “arte e ensaio”, e passando a exibir filmes pornográficos a partir de 1976.

São muitas as histórias curiosas e insólitas passadas no Quarteto. Uma das mais conhecidas é a do espectador que emitia ruídos estranhos durante a exibição de um filme de Pedro Almodóvar, numa sessão da meia-noite. Houve quem pensasse que estava a manifestar o seu desprazer pelo filme, outros que o homem se estaria a masturbar. Quando, a fita terminada e a sala esvaziada de público, o espectador incómodo permaneceu no seu lugar, os funcionários do cinema foram ver o que se passava e constataram que ele tinha morrido de ataque cardíaco. Foi  um “cinéfilo até ao desfalecimento”, comentou então Pedro Bandeira Freire. Que, noutro episódio célebre, expulsou do Quarteto o realizador francês Jacques Rivette, vindo a Lisboa para assistir à estreia do seu filme A Religiosa, e que não parava de lhe fazer reparos sobre a projeção. Até que Bandeira Freire perdeu a paciência e lhe gritou:” Dehors! Fora daqui!”.

[“Trailer” de “A Religiosa”, de Jacques Rivette:]

O Quarteto foi um templo maior dos cinéfilos lisboetas, parte fundamental da idade de ouro da exibição cinematográfica e da da cinefilia pós-25 de Abril, que abrangeu a segunda metade dos anos 70 e a década de 80. O cinema continuou a ter sucesso ao longo dos ano 90, mas veio a sofrer o impacto da concorrência das outras salas multiplex que foram entretanto abrindo em Lisboa, caso do King Triplex de Paulo Branco, que propunha uma programação semelhante à sua, bem como do advento do vídeo e dos videoclubes, começando a perder público aos poucos e a entrar em decadência. Quando celebrou 30 anos, em 2005, já as salas eram exploradas, desde 1999, pela Socorama/LNK, a quem Pedro Bandeira Freire, com problemas de saúde, havia entregue a concessão.

A 16 de Novembro de 2007, e após um par de outras entidades o terem explorado, o Quarteto fechou as portas, na sequência de uma vistoria da Inspeção Geral das Actividades Culturais, que considerou que o cinema não tinha quaisquer condições de segurança para funcionar. Um ano depois, Pedro Bandeira Freire deixou-nos. O edifício alberga hoje um conjunto de escritórios partilhados. O Quarteto desapareceu, mas vive para sempre na recordação de quem o frequentou. Um pequeno poema escrito por Bandeira Freire e publicado no livro Quarteto — Um Quarto do Século XX (Contemporânea Editora), saído em 2000 para comemorar os 25 anos do cinema, termina assim: “Muitas vezes saí do cinema e ia ao cinema /Entre coisas boas e más ia ao cinema/Com sol e chuva ia ao cinema/Fiz um cinema e vou ao cinema”. E nós também fomos. Ao Quarteto.