O céu a arredondar-se numa espiral de tons quentes em torno de uma bola cândida. Lembramo-nos rapidamente da capa de Songs In The Key Of Life. Mas o facto de “Wonder” ser simultaneamente apelido artístico de quem, em 1976, editou esse seu 18.º álbum de estúdio e o nome dado por quem, cinco décadas mais tarde, viria a editar o seu terceiro a solo, é uma feliz coincidência. E, no caso de Papillon, WONDER vem confirmar o que à terceira é o tal “de vez”: a chave para descodificar a vida de Rui Pereira está mesmo nas suas canções. “Esse é o terreno onde todas as ideias florescem e é o ponto de partida para procurar as respostas”, confessar-nos-ia a meio caminho de uma conversa franca a pretexto da apresentação do seu novo disco. Um trabalho que assinala com efeito uma trilogia cumprida, a concretização de um sonho antigo que, por sua vez, vê agora abrir-se um novo capítulo: “É uma coisa um bocado espiritual, mas os sonhos para mim são o início e o fim”, começa por nos explicar o autor. “Esse é o catalisador do que vem no WONDER”, elucida-nos.
Com efeito uma trilogia que começa em Deepak Looper (2018), passa por Jony Driver (2022) e termina em WONDER (2025). Uma “missão interna” há muito projetada, que se vê completa no eixo que faltava à resolução de uma história cíclica. Se, na forma, WONDER soa mais próximo do álbum de estreia de Papillon, no conteúdo está mais perto do seu direto antecessor. À imagem da capa, é um trabalho mais redondo, mais solar, por contraste ao lúgubre Jony Driver: “Era claramente um álbum mais fechado, mais de luto, onde estava muito virado para mim, para a maneira como estava a lidar com a minha própria dor”, confessa-nos o artista de Mem-Martins. “Este álbum funciona um bocadinho em oposição, ou seja, é muito mais aberto, muito mais leve, também em representação do momento que estou a viver na minha vida”, acrescenta ao reforçar essa contraposição.
Esse momento na sua vida, determinante também para a conceção do longa-duração que agora apresenta, vem à baila quando o questionamos sobre o ponto de partida para um trabalho que, na sua essência, nasce do mesmo sítio que os anteriores. “A resposta curta é que fui pai — e isso muda tudo”, devolve-nos de sorriso condizente. Aliás, respostas curtas para as grandes questões foi exatamente a palavra de ordem no processo criativo deste projeto, segundo o próprio: “Uma das minhas missões era conseguir dizer muito com poucas palavras. É muito difícil fazer isso para uma pessoa que vem do rap.”
[o álbum “WONDER”, disponível na íntegra no Spotify:]
Para o rapper que desde cedo se destacou entre o já extinto colectivo GROGNation, a escrita sempre foi a sua arma de eleição. A carreira a solo tem-no revelado como um cantor e compositor de mão cheia, mas em Jony Driver há claramente a intenção do pecado por excesso no que à arte de versar diz respeito. WONDER está, por isso, no polo oposto no que toca à abordagem lírica, e esse poder de síntese abonou claramente a favor do seu autor. Ao camuflar “mais camadas de significado em cada frase”, Papillon ainda reduziu para hora certa (a circularidade também se revela nos detalhes) as mesmas 13 faixas que no disco anterior se estendiam por mais de hora e um quarto. E o resultado é um trabalho em perfeita harmonia a todos os níveis, despido do “peso do processo” dos seus predecessores: “Para o WONDER, parti de um lugar em que eu já sabia onde queria chegar com o disco. Isso fez com que eu trabalhasse as canções com mais leveza, e queria que essa leveza se traduzisse nas canções.”
Mérito também dos obreiros arquitetónicos ao nível da composição instrumental, denunciados logo nos singles de antecipação, Já Entendi e ¡+1!. À cabeça, os brilhantes GOIAS, nas pessoas dos irmãos-gémeos António e Henrique Carvalhal, co-produtores executivos de Afro Fado, último trabalho editado por Slow J — ele que, ao contrário do que aconteceu nos dois discos anteriores (sobretudo no primeiro) do seu parceiro em Sente Isto, não teve tanta mão na criação de WONDER; mas também o guitarrista e baixista Diogo Púrpura e, ainda, a dupla fantástica formada por Ariel e Migz — que tem deixado marca profunda nacional nos últimos anos, da pop ao hip hop — a assumirem um papel preponderante na produção executiva deste álbum. Sem esquecer os demais músicos instrumentistas envolvidos ao longo do processo: “Muitas vezes só falamos dos produtores, mas os músicos também são muito importantes”, num disco onde ainda participam de viva voz Carla Prata e Bárbara Tinoco.
[o vídeo de “¡+1!”:]
Já a nível visual, Papillon volta a servir-se da sétima arte, na forma de uma curta-metragem, para dar cor à sua história. E também neste campo volta a desvelar-se um paralelo entre este disco e o anterior, mais uma vez na representação do contraste, em que ao brutalmente explícito e densificado Jony Driver correspondeu uma curta mais ambígua e conceptual, enquanto para WONDER nos chegou em antecipação um short film (ainda que mais longo) realizado por Miguel Mendes, bem mais linear e cronológico no storytelling, mesmo que construído in media res. “São projetos que se estão a refletir inversamente um no outro”, confirma-nos o protagonista de ambos.
Ter o papel principal da narrativa, ser personagem central da sua história, é porém coisa que, muito subtilmente, se vai esbatendo ao longo do álbum. WONDER até pode começar onde Jony Driver ficou, seguir reiterada e assumidamente um fio condutor de auto-reflexão, num diálogo constante ao espelho de quem o conduz; mas à medida que a paternidade se manifesta patente nestas canções, parece emergir nas entrelinhas o fruto enquanto causa maior da criação: “Questionei-me algumas vezes se o que estou a dizer quero mesmo dizer, porque isto vai ficar e a minha filha vai ouvir eventualmente”, partilha Papillon. Reflexo dos “medos novos” que a paternidade veio desbloquear. Medos esses que são ponte entre os traumas de ser filho e as preocupações de ser pai. E do luto à paternidade, este é um álbum marcado por uma libertação que vai do perdão à gratidão, que faz pazes com o passado que o moldou e se compromete com o futuro que tem pela frente por moldar.
[a curta “Sonhos”, um retrato do percurso de Papillon:]
Novamente, esclarecido. Um esclarecimento a nível pessoal que se traduz numa clarividência artística em WONDER. E aqui, como nos sonhos de Papillon, este fim leva-nos de volta ao início, ao ponto de partida que é em si um ponto de chegada por natureza, como se a resposta curta bastasse para toda uma longa caminhada: “Por defeito, mais esclarecido — mas mais em paz. Se o nível de esclarecimento nos álbuns anteriores me apontava numa direção — e que me dava o que agora posso chamar de ‘falsas certezas’ —, agora estou num ponto onde o esclarecimento é aceitar que não há uma direção e que não há propriamente respostas”, pode ser a resposta longa a essa pergunta de partida.
Já o Coliseu dos Recreios — célebre casa que o espera a 20 de março do próximo ano para a concretização plena desta trilogia — seria um ponto de chegada, não fosse a sua primeira resposta curta causa de tudo na sua vida ter mudado. Do estúdio ao palco: “Durante muitos anos, fazia os meus concertos para mim. É um processo terapêutico, uma catarse em cima do palco”, recorda. Agora, questiona-se: “Como é que faria um bom espectáculo para a minha filha?”. E a resposta não mora mais em si: “Encontrei uma nova forma de evoluir que não se centra na minha pessoa”.
Nessa dualidade de presenças de espírito em palco, Papillon menciona The Prestige (2006) como referência maior até na própria construção do álbum. Alude à obra de Christopher Nolan para explorar a ideia da performance artística enquanto expressão autêntica do ser, a partir da qual sentiu que tornar-se pai fez dele “mais altruísta” nessa entrega. Por esta altura, já mais Angier que Borden na relação com o público, “aí está o paradoxo…”, reconhece por fim. É que para quem passou uma vida no casulo a sonhar com voos maiores, só quando teve de sair para ceder esse lugar pôde bater asas livremente. “Estou em paz com as incertezas e com a exploração do que está por vir sem precisar de uma certeza para dar um passo em frente — e antes eu precisava dessas certezas”, assegura-nos. Uma borboleta no seu esplendor. Reparem bem na força das suas asas.