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Depois de dois álbuns e dois EP (mini-álbuns) com os GROGNation, Papillon lançou-se a solo e edita agora o seu segundo disco em nome próprio, que apresenta este sábado no festival Super Bock em Stock
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Depois de dois álbuns e dois EP (mini-álbuns) com os GROGNation, Papillon lançou-se a solo e edita agora o seu segundo disco em nome próprio, que apresenta este sábado no festival Super Bock em Stock

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Depois de dois álbuns e dois EP (mini-álbuns) com os GROGNation, Papillon lançou-se a solo e edita agora o seu segundo disco em nome próprio, que apresenta este sábado no festival Super Bock em Stock

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

A metamorfose de Papillon continua: em "Jony Driver", volta a escrever mais história no hip-hop

O antigo membro dos GROGNation acaba de lançar o sucessor de "Deepak Looper". "Jony Driver" volta a marcar a diferença no hip-hop. "É também um álbum de homenagem ao meu pai", conta ao Observador.

É preciso renovar a mensagem / é preciso / remodelar a paisagem”, ouvimos Papillon rimar afirmativamente logo no primeiro tema, “Metamorfose Fase 1”, que aguça a curiosidade e eleva a fasquia para o que se há-de seguir, uma voz a ouvir-se a diferentes velocidades e a batida luxuriante, apurada, a situar este hip-hop em 2022. “Agora é a minha vez / agora é comigo / a partir de agora eu ‘tou a criar o meu próprio caminho”, ouvimos-lhe no último tema, que por sinal dá título a um álbum (Jony Driver) que chegou às plataformas digitais de streaming esta terça-feira, 22 de novembro, ainda a tempo de entrar nas discussões sobre os discos que mais marcaram este ano de 2022.

A tentação mais instintiva seria, por esta altura, explicar que Papillon, ou Rui Pereira, é um rapper de Algueirão – Mem Martins (Sintra), que até há poucos meses fez parte de um grupo português de hip-hop chamado GROGNation (o grupo terminou) e que em 2018 revelou-se a solo com um primeiro disco em nome próprio chamado Deepak Looper. Mas isso, não sendo mentira, começa a soar cada vez mais redutor, especialmente depois de se escutar Jony Driver: Papillon é um rapper mas já não é só um rapper, é também um cantor, um renovador do hip-hop nacional e da música portuguesa, um imaginador de canções e universos sonoros em que o hip-hop é base inclusiva e aberta a uma palete vasta de ritmos e de sons.

Não é como se isto tivesse acontecido de um dia para o outro. Em março de 2018, quando Deepak Looper saiu, escrevíamos aqui que esse disco era um objeto estranho tanto “ao hip-hop tradicional” como ao “trap mais retilíneo”, um objeto sonoro musicalmente e liricamente rico que se diferenciava de quase tudo o que vínhamos ouvindo no rap, português ou não. Uns meses mais tarde, já depois de o vermos apresentar apoteoticamente o novo álbum nos Estúdios Time Out, em Lisboa, revimo-lo no festival NOS Alive, num “concerto de consagração” em que voltou a mostrar saber contornar com engenho algumas convenções e estereótipos ainda associados ao hip-hop. Em Jony Driver, desfazem-se as dúvidas de vez: Papillon veio mesmo para ficar.

Este novo disco, já disponível, tinha tudo para ser uma espécie de polaroide imensa do passado e da história de Rui Pereira (Papillon), não se desse o caso de a vida aqui parecer filtrada para rimas e canções com um olhar de quem não escreve apenas para se contar, mas também para contar o que aprendeu e como mudou. Há espaço para a festa e para a dor, para a melancolia mais densa e para a energia mais contagiante, para a morte e para a vida, para as perdas e para os sonhos.

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[O álbum já pode ser ouvido no Spotify, aqui:]

Em canções suportadas por batidas de alguns dos melhores criadores instrumentais do hip-hop português — Slow J, Fumaxa, Boss AC, Holly, vários outros — mas também em instrumentação orgânica (sobretudo guitarras e teclas), com coros (ouvimos a voz de Heber Marques e de Enoque Silva, por exemplo), samples e sons de conversas (por exemplo, com Emicida), Papillon vai guiando o ouvinte neste disco que serve também de homenagem ao seu pai.

Durante uma hora e 18 minutos, ouvimo-lo utilizar a voz de forma criativa e ampla, rimando em diferentes velocidades e flows e cantando também profusamente, em temas que impressionam igualmente pela arquitetura sonora, pelas batidas em ritmos muito diferentes que casam com a voz de forma original.

O mais impressionante, porém, talvez seja mesmo a revelação do talento lírico de Papillon em todo o seu esplendor: ao contrário de outros artistas proeminentes do hip-hop mais popular destes tempos, a forma como joga com os sons das palavras e com os diferentes sentidos que estas podem ter não é inconsequente. Papillon não faz apenas malabarismo com as letras, nem se dedica ao foguetório das rimas feitas a velocidade estonteante mas sem grande substrato. Nenhuma palavra é gratuitamente usada, nenhuma é escolhida de forma rebuscada para rimar com outra apenas pelo som que tem quando pronunciada oralmente. Tudo tem um propósito, tudo tem um enquadramento lógico.

“Fiz o álbum ao contrário: primeiro a tracklist, depois as músicas”

Não é fácil depararmo-nos com o estúdio em que, entre final de agosto e início de setembro do ano passado, Papillon entrou para começar a “fazer coisas” para este disco, para fazer “alguns beats” e “desenvolver algumas ideias”, até ter um álbum já mais estruturado que viria a gravar no estúdio de Charlie Beats, um dos mais conhecidos produtores musicais e engenheiros de som do hip-hop português.

A sala que Papillon usou para começar a trabalhar no disco Jony Driver fica dentro de uma edifício de dimensões amplas em Algueirão-Mem Martins, que não se denuncia logo pela fachada. Aparentemente, por uma inscrição que vemos à entrada, o edifício serve sobretudo para aluguer e venda de garagens interiores. Só lá dentro, quando uma das portas interiores se abre, vemos revelar-se uma pequena sala que integra estes tais estúdios — que contam ainda com outras salas de captação de maior dimensão, também elas escondidas pelo cenário de garagens envolvente.

Papillon fotografado no edifício em que, entre muitas garagens, fica o seu estúdio e sala de captação de som

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Naquela que era a primeira entrevista sobre o novo álbum a solo, Papillon começava por detalhar as diferenças entre o antecessor Deepak Looper e este Jony Driver: “O primeiro disco é uma expressão de toda a energia que tinha cá dentro. O Deepak Looper é um álbum extremamente pessoal, existiam ali coisas que não se enquadrariam em música de grupo, em GROGNation. Tinha anos de coisas acumuladas que queria dizer e aproveitei para descarregar energia para tudo o que era lado, nem via para onde estava a apontar, era só disparar”. Agora, foi diferente: “Aqui, depois de entender que existia essa energia e que de alguma maneira funcionava, quis tentar dominá-la. Quis que fosse mais calculada a forma como ela é passada para os temas”.

O rapper, cantor e escritor de canções garante que nunca imaginou “que ia acontecer o que aconteceu” depois de revelar Deepak Looper, álbum que teve produção executiva de Slow J (que à época fez questão que Papillon se arriscasse a fazer música a solo e editasse um disco próprio). “Nunca ia conseguir antecipar o quão bem recebido ia ser o álbum”, acrescentava, vincando que a vontade agora é “confirmar aquilo que as pessoas dizem que eu tenho”.

De então para cá, passaram-se perto de quatro anos e meio. Logo no ano em que editou Deepak Looper, Papillon deu concertos em palcos de relevo e andou pelo país a celebrar as suas canções com o público português do hip-hop. Continuaria a fazê-lo em 2019, antes da pandemia da Covid-19 ter parado os concertos e lhe ter retirado esse capital de crescimento que os artistas também conseguem ao vivo.

Durante os meses de confinamento, Papillon não foi a pessoa mais produtiva, admitia-nos: “Não havia vibe para criar, sentia que ou ia falar sobre aquilo — e estava toda a gente a falar sobre aquilo — ou não havia nada mais importante para falar, nada parecia mais importante do que o que estava a acontecer”.

"Fiz o álbum ao contrário, fiz primeiro a tracklist e depois é que fui fazendo as músicas — já sabia mais ou menos os temas, as ideias, o conceito geral. Depois foi tentar encontrar os sons perfeitos e pensar como se transitava de uns para os outros no alinhamento"
Papillon

Ainda assim, fez algumas canções soltas: “A ‘ In’ ‘, a ‘ Chillin’ ’, mais tarde a ‘Fala Bonito’ ”. Era importante, dizia-nos, “ir fazendo música e não ficar muito tempo sem criar”, até porque a estrutura artística e criativa em que se insere (e de que Slow J também faz parte), a Sente Isto, “precisa de ser alimentada de alguma maneira” e “todos percebiam que era preciso continuar a trabalhar para as coisas avançarem”. Mas a pandemia teve outras utilidades: “Ter ficado em casa e poder pensar foi bom para poder desenvolver ideias e conceitos, que tinha vindo a acumular ao longo do tempo”, para depois poder fazer um disco novo.

Para ficarmos com uma ideia da utilidade da paragem e dos confinamentos na sua criação mental, Papillon explicava: o álbum estava “80% estruturado” antes sequer de começar a ser feito. “Fiz o álbum ao contrário, fiz primeiro a tracklist e depois é que fui fazendo as músicas — já sabia mais ou menos os temas, as ideias, o conceito geral. Já tinha o título das músicas, o conceito, os temas pilares. Depois foi tentar encontrar os sons [beats] perfeitos e pensar como se transitava de uns para os outros no alinhamento”.

“É engraçado, não sou nada de partilhar a minha intimidade. Só nos meus álbuns…”

Percebe-se o trabalho de filigrana a apurar o disco canção em canção — em alguns temas, Papillon alongou-se obsessivamente take após take, até encontrar a versão sonora mais próxima possível do que imaginava e desejava. Isso, diga-se, já era também nítido em Deepak Looper, um disco que agitava as águas de um hip-hop português que nos últimos anos tem sido parco em álbuns disruptivos, imaginativos e afirmativos, liricamente e sobretudo ritmicamente.

Esse trabalho de filigrana é também sónico e melódico: quem ouvir Jony Driver vai notar que a cosedura das canções é coerente e que foi encontrada uma forma de conjugar diferentes ritmos e estados de espírito (mais festivos, mais introspetivos, mais melancólicos) pouco abruptamente.

Notávamos precisamente esta arquitetura sonora apurada em conversa com Papillon, perguntando-lhe se encontrava alguns traços comuns nos ritmos e nas batidas diferentes de que se tende a apropriar para fazer canções. Do outro lado, chegava-nos uma resposta curiosa: “É tudo malucos”, dizia, a propósito dos criadores de batidas que o ajudaram a construir Jony Driver. Acrescentava: “Trazem-me todo o tipo de vibes”. Mas abria uma exceção, particularizando.

A exceção é Holly, jovem DJ e produtor português que tem tido uma carreira de sucesso, nacional e internacional, nos universos da música eletrónica e do hip-hop. Entre pausas e reticências, Papillon explicava: “Há beats do Holly que vão sempre tocar-me em pontos frágeis, que me dão vontade de expressar coisas que raramente expresso, que me dão vontade de abrir o livro de uma maneira completamente diferente. O Holly é uma máquina de fazer beats, faz 50 mil beats em dois minutos. Mas naqueles 50 mil, há um instrumental que é assim. E não sei porquê, sempre que oiço esse tipo de beat, digo: só o Holly é que me consegue levar a explorar este tipo de emoções”.

Aquilo a que Papillon se referia era a uma vontade de se expor nas canções, tocando nos nervos mais delicados da sua história e do seu passado e escrevendo e rimando sobre eles. Nas suas prórpias palavras: “Com o Holly, parece que me apetece ir mais deep [a planos mais profundos]. Não sou nada essa pessoa, é engraçado. Não sou nada de partilhar a minha identidade. Só os meus álbuns é que têm esta coisa”.

O músico atua no festival Super Bock em Stock este sábado em formato trio: "Serei eu, uma bateria e umas cordas — baixo ou guitarra"

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

A exposição das suas vivências e da sua biografia em temas com batidas instrumentais de Holly é de tal grau que Papillon tem vindo a procurar proteger-se. E explica como: “Quando estou a falar de mim, não estou só a falar de mim. A minha vida é composta pelas pessoas que estão nela. E nesses temas falo muito das pessoas da minha família. Por mais tranquilo e em paz que esteja com aquilo que estou a dizer, pode haver pessoas da minha família que não estão em paz com essas coisas. Portanto, tenho vindo a tentar fazer isto cada vez mais de uma forma que não me leve a arrepender-me depois. E isso passa por, em vez de apenas desabafar, tentar partilhar alguma coisa que aprendi”.

Este tipo de temas feitos com Holly, em que recorda a história de familiares próximos e em que salga com palavras as feridas do passado, teve o seu primeiro resultado em “Imagina”, história com os seus pais em pano de fundo. Um tema que optou por não incluir nos seus concertos: “Não canto o ‘Imagina’ ao vivo. Não é fácil. Na altura não pensei em nada, foi: toma, vai assim. Escrevi e pronto. Mas ao vivo, para mim é pesadíssimo. Percebi que era muito difícil estar sempre a revisitar aquilo, era uma tortura”.

Agora, esta viagem ao passado a bordo da nave instrumental de Holly acontece num tema cujo título não esconde ao que vem: “Dor”, uma espécie de irmã gémea na vulnerabilidade de “Imagina”. No alinhamento, é o 11º tema e vem depois de “Corpo Mente”, em que Papillon conta a história de vida do seu pai. Mas “Dor” vai bem mais longe — e o músico ainda não sabe aliás se será capaz de a cantar ao vivo, embora não queira deixar os fãs “na mão” outra vez. Por ser um tema-charneira do disco, citamos longamente os seus versos:

O meu pai também sonhava, ele acreditava
que com a força do trabalho um dia a gente triunfaria
O que queria era provar-lhe que também era capaz
de ter o meu próprio sonho e do meu sonho ir atrás
mostrar que esta estrada que eu escolhi também dá
para chegar à prosperidade, amor e paz
Mais que provar, era poder sentar com ele à mesa
para poder celebrar a proeza de sair da pobreza
depois de pagar as despesas, baixar as defesas
e com franqueza resolver as nossas desavenças
Dizer que no fundo ele foi a razão para eu meter prego a fundo
razão para eu não me ter tornado mais um vagabundo
razão para eu ter valores para me guiar por este mundo
(…)
Espero que um dia tenhas orgulho em mim
que estas palavras possam chegar até aí
Jony Driver, não conseguiste chegar até ao fim
mas ainda és a razão pela qual consegui chegar até aqui
RIP my king
(…)
Tinhas razão quando dizias que não ias viver para sempre
que eu iria ter de lidar com a vida mais tarde ou mais cedo
(…)
Mas já não tens de te preocupar
o teu filho está crescido
Já aprendi a viver com a dor
agora é a dor que vai ter de aprender a viver comigo

Ainda no plano mais introspetivo e vulnerável, em que se expõem dúvidas e falhas, encontramos canções como “Desperta”, que arranca espreguiçada antes de um twist final, antes de guinadas no ritmo sonoro e na velocidade com que as palavras são ditas e cantadas (traço da maioria dos temas), com Papillon a pedir ‘deixa-me ‘tar na minha miséria’, a confessar que que não sabe ‘se estou em baixo porque esta vida não presta / ou se a vida não presta porque estou em baixo’ e em que narra: “A vida deu limões e eu não sei fazer limonada / a cena ficou preta e eu não sei fazer caviar”.

Sobre esta diferenciação face ao discurso da maioria dos rappers mais populares destes tempos, que concentram grande parte do seu tempo a celebrar-se e em auto-elogios, Papillon lembra que também se celebra em alguns versos e em algumas canções. Mas complementa: “Não sou perfeito em aspeto nenhum da minha vida. Acho que faz sentido ser mais honesto a esse meu lado do que pintar só uma imagem de invencibilidade”.

Os feitos, os sucessos, as conquistas e as virtudes também têm o seu espaço, defende. “Mas deve haver mais, não é? Todos sabemos que há mais. Ou queres dizer ou não queres dizer. Eu respeito quem não o faz. Isto é como a roupa que tu vestes: deve ser o que te deixa mais confortável e o que faz mais sentido para ti. A mim, faz-me sentido fazer as coisas assim”. Puxa da “melhor escola” que poderia ter tido, de Valete, Sam the Kid, Regula ou Boss AC, para lembrar que estas suas referências “se calhar não tinham tanta abertura para poderem fazer isso, se calhar pelas referências que tinham”. Nessa linha de continuidade, esses mestres já lhe deram a ele, Papillon, “essa abertura, sendo filho deles já posso mostrar que não está tudo certo, que às vezes não estou bem”.

Jony Driver é, no entanto, tão diversos nos estados de espírito e nas palavras quanto o é nas batidas e nos ritmos — que por vezes, em alguns momentos de temas como “Sais Minerais”, “Transforma” ou “Cria”, vão mesmo para paragens mais eletrónicas e festivas, notívagas. Notamos isso, sugerindo que alguns desses trechos poderiam enquadrar-se na música de dança se retirássemos a voz. O rapper confessava: “Sempre que ouvires um instrumental meu mais festivo, sou eu a tentar fazer as pazes com isso. No Deepak Looper, a música em que isso acontece é a ‘Iminente’. Sempre me senti um bocado à parte das festas, por várias razões. Quando entro nesse universo, sou eu a fazer as pazes com as festas, a fazer parte das festas, sou eu a criar a festa também e a fazê-o à minha maneira”.

Acresce que sendo este “um álbum muito de fazer as pazes com o passado, com as coisas por que passei, com a dor e tudo o mais”, Papillon considerou que “era importante” ter ritmos aqui e ali mais festivos. “Tendo em conta que para mim isto é também um álbum de homenagem ao meu pai, queria ter esse lado quente, essa temperatura das batidas, das coisas que se dançam — mas à minha maneira, que não é bem óbvia”.

Os fãs da tradição de storytelling do hip-hop também vão encontrar ouro em 'Jony Driver'. Em "Corre da Morte", Papillon narra uma história verídica e pessoal: uma ocasião em que quase foi detido pela polícia, sendo inocente. 'Tiro no escuro não é só força de expressão', atira.

Os fãs da tradição de storytelling do hip-hop, isto é, de temas que contam histórias quase cena a cena, verso a verso, também vão encontrar ouro em Jony Driver. A sexta faixa do disco, “Con”, enquadra-se nessa tradição narrativa do hip-hop. Mas também o quarto tema, “Corre da Morte”, que o consegue com ainda mais brilhantismo, ainda por cima recorrendo a uma história inteiramente biográfica e verídica que chega numa altura em que o país debate o que fazer com o racismo policial.

Nesta quarta faixa do álbum, que tem o mantra “nigga corre da morte / todo o dia todo o dia todo o dia” repetido várias vezes, Papillon recua até uma noite em que a polícia interrompeu uma festa em que estava.

Entre tiradas como “tiro no escuro não é só força de expressão / livro de história não conta a nossa versão”, Papillon conta que quase foi detido, lembrando os antecedentes: o “mister Bolota”, que era treinador de guarda-redes, ligou-lhe uma noite “a perguntar onde é que eu ‘tive na sexta-feira”, disse “que durante a festa houve um assalto”, um telemóvel foi roubado, “um puto foi esfaqueado” e “o suspeito número um era o Papillon da Liga Knockout”. O rapper e cantor foi então com este conhecido “à esquadra” para provar a “inocência”. O resto é relatado na música:

“Graças ao mister Bolota correu tudo bem
Então antes dos bófias me algemarem contra o chão
contei-lhes essa história, eles pararam a detenção
porque atenção, mister Bolota é treinador de guarda-redes
mas também é PSP lá na esquadra do Algueirão
E eu safei-me da situação

e a polícia deixou seguir
(…)
Hoje dei por mim a pensar na sorte que me tinha ocorrido
e como a história seria outra se eu tivesse corrido

Ao Observador, Papillon explicou que neste álbum em que fala muito de “referências, paternidade e educação” sentiu que fazia sentido partilhar esta história e incluí-la no disco. E detalhou porquê: “Vou ser sempre hip-hop, é a minha escola, é a minha bandeira. Mas eu sei que existe essa coisa do ‘fuck the police’. E eu sei a razão pela qual existe. Mas também já cresci e sei que o mundo não é só a preto e branco, sei que existem nuances, sei que somos todos filhos de alguém. Quando começamos a escrutinar as coisas com humanidades, começamos a dissipar essas barreiras, essas divisões”.

Na canção, o músico que “deixar as pessoas a perguntarem-se o porquê da história ter ido para este lado e o que teria acontecido se eu tivesse feito as coisas de maneira diferente, o que aconteceria se não conhecesse uma pessoa que trabalha na PSP, se não tivesse sido educado pelo meu pai”. Em suma: “O que quis foi deixar uma porta aberta para as possibilidades de para onde esta história poderia ir se não me tivesse acontecido a mim e se eu não conhecesse as pessoas que conheço. Seria extremamente fácil acabar mal. E muitas vezes acaba mal e não se olha para estes pequenos pormenores”.

Casos destes “acontecem” regularmente, defende o músico. E é preciso “ir à verdade da questão e perceber que existe aqui um padrão”. Um padrão, entende, que existe “dos dois lados”. E remata: “Quero contribuir para este padrão não se repetir”.

O novo álbum, 'Jony Driver', sucede ao anterior 'Deepak Looper'

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Essa procura da verdade, nota Papillon, ainda não é muito prevalente. “Basta ver a maneira como muitos países lidaram com as questões de racismo, discriminação e escravatura. Portugal lidou de maneira diferente. Vais a uma escola básica e ainda existe uma glorificação dos Descobrimentos, de coisas que acabam por estar na génese do que estamos a falar hoje em dia”, diz, garantindo “não ter nada contra os Descobrimentos e contra a História”, que “está feita e não podemos alterar”, mas que é preciso contar com verdade: “Há um lado glorioso dos Descobrimentos mas também há um lado que não é glorioso. Há coisas que se aprendem na escola, que se replicam sem maldade e que têm impacto na formação das pessoas. Às tantas, servem para dar continuidade a um padrão”.

Papillon está interessado em fazer “um exercício” que é “um bocado um jogo das cadeiras”: tentar perceber “como são as pessoas que não são como eu, começar a desconstruir o porquê das coisas aconteceem”. Não é algo que veja ser feito regularmente, acrescenta: “Vivemos em bolhas de realidades e ninguém consegue pôr-se no papel de: ok, o que se passa do teu lado? Porque é que estás a sentir-te assim? Se formos à raiz das coisas, se calhar vamos percebê-las e mudá-las”.

O que o músico não está especialmente interessado em fazer é falar do que levou ao fim recém-anunciado do grupo de que fazia parte, os GROGNation. Pelo menos sozinho: “Poderia dizer certas coisas que poderiam ser mal interpretadas. Prefiro só falar se estiver com eles. O tempo que estivemos juntos foi fantástico. Eles são meus irmãos, crescemos juntos, fizemos muitas coisas juntos”. O máximo que comenta é o seguinte: “Uma coisa vou dizer: se ouvires a minha música, tenho sempre problemas com a minha família [risos]. A minha dificuldade é essa. Mas são rapazes espectaculares e o grupo foi das melhores coisas que me aconteceu. Não estou feliz com o desfecho, mas é a vida”.

 
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