É preciso renovar a mensagem / é preciso / remodelar a paisagem”, ouvimos Papillon rimar afirmativamente logo no primeiro tema, “Metamorfose Fase 1”, que aguça a curiosidade e eleva a fasquia para o que se há-de seguir, uma voz a ouvir-se a diferentes velocidades e a batida luxuriante, apurada, a situar este hip-hop em 2022. “Agora é a minha vez / agora é comigo / a partir de agora eu ‘tou a criar o meu próprio caminho”, ouvimos-lhe no último tema, que por sinal dá título a um álbum (Jony Driver) que chegou às plataformas digitais de streaming esta terça-feira, 22 de novembro, ainda a tempo de entrar nas discussões sobre os discos que mais marcaram este ano de 2022.

A tentação mais instintiva seria, por esta altura, explicar que Papillon, ou Rui Pereira, é um rapper de Algueirão – Mem Martins (Sintra), que até há poucos meses fez parte de um grupo português de hip-hop chamado GROGNation (o grupo terminou) e que em 2018 revelou-se a solo com um primeiro disco em nome próprio chamado Deepak Looper. Mas isso, não sendo mentira, começa a soar cada vez mais redutor, especialmente depois de se escutar Jony Driver: Papillon é um rapper mas já não é só um rapper, é também um cantor, um renovador do hip-hop nacional e da música portuguesa, um imaginador de canções e universos sonoros em que o hip-hop é base inclusiva e aberta a uma palete vasta de ritmos e de sons.

Não é como se isto tivesse acontecido de um dia para o outro. Em março de 2018, quando Deepak Looper saiu, escrevíamos aqui que esse disco era um objeto estranho tanto “ao hip-hop tradicional” como ao “trap mais retilíneo”, um objeto sonoro musicalmente e liricamente rico que se diferenciava de quase tudo o que vínhamos ouvindo no rap, português ou não. Uns meses mais tarde, já depois de o vermos apresentar apoteoticamente o novo álbum nos Estúdios Time Out, em Lisboa, revimo-lo no festival NOS Alive, num “concerto de consagração” em que voltou a mostrar saber contornar com engenho algumas convenções e estereótipos ainda associados ao hip-hop. Em Jony Driver, desfazem-se as dúvidas de vez: Papillon veio mesmo para ficar.

Este novo disco, já disponível, tinha tudo para ser uma espécie de polaroide imensa do passado e da história de Rui Pereira (Papillon), não se desse o caso de a vida aqui parecer filtrada para rimas e canções com um olhar de quem não escreve apenas para se contar, mas também para contar o que aprendeu e como mudou. Há espaço para a festa e para a dor, para a melancolia mais densa e para a energia mais contagiante, para a morte e para a vida, para as perdas e para os sonhos.

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