De Zadar para o mundo. Há 40 anos, mais precisamente a 9 de setembro de 1985, aquela cidade da Croácia, que se localiza na costa leste do mar Adriático, trouxe ao mundo do futebol Luka Modric. Como filho pródigo da terra, aquele que viria a ser um dos melhores médios da história começou no NK Zadar, chegando depois ao Dinamo Zagreb, onde despontou após ter passado por empréstimos a Zrinjski Mostar e Inter Zapresic. Em 2008 foi contratado pelo Tottenham e, quatro depois, ingressou no Real Madrid para escrever a sua história e fazer parte da lendária história blanca. Ao cabo de 13 temporadas, Modric despediu-se dos espanhóis para rumar ao AC Milan.

Esta semana, Luka Modric esteve presente no programa “O (Des)Êxito dos Campeões”, no qual deu uma entrevista especial a Slaven Bilic, antigo jogador e seu treinador na seleção da Croácia, na qual assumiu ter “dificuldades em confiar nas pessoas e ainda mais” em se “abrir”. “Apesar da guerra e das dificuldades naquela época, lembro-me da minha infância como tendo sido feliz, porque estava rodeado de muitos amigos. Lembro-me de poucas coisas. Por exemplo, quando mataram o meu avô. Situações como essa marcam-nos para sempre e não conseguimos esquecê-las. Sempre apostei no futebol, mas também sou bom no basquetebol e no ténis. Apesar de o meu pai ter dito ‘Não tive oportunidade, mas o Luka terá, custe o que custar’, nunca senti pressão. Não me impuseram nada. Isso foi o meu guia”, começou por dizer o Bola de Ouro.

“Será sempre a minha casa. Para toda a vida.” 13 anos depois, Luka Modric deixa o Real Madrid

“O falecido Tomislav Basic, o meu pai futebolístico, disse ao meu pai que durante três meses eu não poderia treinar com o Hajduk Split, que deveria fazer exercícios especiais, como pendurar-me em barras para me alongar e crescer. Após dois ou três meses, eles sentaram-se, resolveram tudo e voltei a treinar em Zadar. Depois disso, fui para o Dínamo [Zagreb]. Essa é a razão pela qual não fui para o Hajduk: eles decidiram que era muito cedo para mim. Isso não me desanimou nem me fez duvidar de mim mesmo. Sempre tive muita fé em mim. Isso não me acompanhou apenas nas camadas jovens, mas também quando cheguei ao Dinamo, quando fui para Inglaterra, quando cheguei ao Real Madrid… durante toda a minha carreira. Acompanhou-me até ganhar a Bola de Ouro”, acrescentou.

Questionado sobre os momentos mais difíceis da sua carreira, Luka Modric recuou até aos primeiros anos. “A eliminação contra a Turquia no Europeu de 2008. Não se está preparado para algo assim. Foi realmente difícil processar tudo: era jovem, a forma como aconteceu, o porquê, o que podíamos ter feito melhor. Naquela altura, dizias-me que eu estava ao nível do Iniesta, que estava a começar a jogar no Barcelona. Mesmo quando fui para Inglaterra, no início ainda pensava nisso… Depois disso, não queria saber nada de futebol. O trauma continuava lá. Tottenham? Fiquei chateado por Corluka e Eduardo, os meus melhores amigos, terem saído do Dínamo. Mesmo assim queria ficar, gostava do Dínamo e estava realmente feliz. Chegou o mercado de inverno, venderam o Vukojevic, depois outro… e pensei: ‘O que estou aqui a fazer? Também quero sair’. Fiquei um pouco irritado, houve um pequeno conflito, nada de grave, mas estava chateado”, lembrou.

“Um novo capítulo na minha carreira”: a dois meses de fazer 40 anos, Luka Modric é reforço do AC Milan

“Apareceu o Chelsea, o clube não me quis deixar ir, e chegou o Tottenham em junho… Talvez não devesse ter dito tão publicamente que queria sair… Mesmo assim, no Tottenham correu-me muito bem. Foram muito duros comigo e o presidente [do Tottenham] Daniel Levy, na primeira reunião, deixou bem claro: não havia qualquer possibilidade de me deixarem sair. Depois disso, continuei como se nada tivesse acontecido. Sabia que seria complicado, os dois clubes são de Londres e existe uma rivalidade. No final não aconteceu e continuei a jogar. Talvez tenha sido uma das minhas melhores temporadas… Terminámos em quarto lugar e o Chelsea ganhou a Champions. A temporada foi fenomenal e, um ano depois, surgiu uma oportunidade melhor. Provavelmente, se tivesse ido para o Chelsea, não teria ido para o Real Madrid”, revelou Modric sobre o interesse dos blues, que continuou durante algum tempo, dado que o croata continuou a insistir que “queria sair”.

Nessa altura, Daniel Levy, então presidente dos spurs, tentou renovar o contrato do médio. “A certa altura, ele disse-me, não sei porquê: ‘O único clube para o qual te deixaria sair é o Real Madrid’. Por mais que acredites em ti mesmo, quando alguém te diz ‘Real Madrid’, parece algo inatingível, distante… É um clube especial. Estive lá 13 anos, sei do que estou a falar. Perguntei-lhe: ‘E se o Real não aparecer?’. Ele respondeu: ‘É o único clube para o qual te deixo ir’. E eu concordei. Chegou o Euro [de 2012] e a concentração em Rovinj e, antes de viajar, ligaram-me para dizer que o Real me queria. Fiquei paralisado. Os contactos começaram em maio, no final da temporada. Sabia do interesse do Real, falei com o treinador, mas ir para lá foi tudo menos fácil. As negociações foram muito difíceis e demoradas e já se sabe como me comportei naquela época, que me custou muito dar esse passo… mas eu tinha uma promessa. Ele deu-me a sua palavra e eu esperava que a cumprisse. Eu já estava decidido. Estava preparado até para não jogar mais”, assumiu sobre a sua ida para os merengues, que pagaram 35 milhões de euros pelo seu passe e eram comandados por José Mourinho.

Luka Modric: o refugiado que virou melhor do mundo

Volvidos 13 anos, Luka Modric tornou-se um símbolo do Real Madrid, clube pelo qual conquistou 16 troféus internacionais (seis Ligas dos Campeões, quatro Mundiais de Clubes, uma Taça Intercontinental e cinco Supertaças Europeias), bem como quatro Campeonatos espanhóis, duas Taças do Rei e cinco Supertaças de Espanha. A despedida “não foi fácil”. “Passei quase metade da minha vida num só clube, numa só cidade, e foi uma das épocas mais bonitas da minha vida. Diria que cheguei um pouco tarde a Madrid, com 27 anos, mas no momento certo. Foi algo incrível. Não me refiro apenas aos troféus ou às vitórias, mas a permanecer durante 13 anos num clube como este… cheguei com 27 anos e saí com quase 40. Todos sabem o que é o Real Madrid, onde a mediocridade não é tolerada, e só o facto de ter mantido este nível num clube como este durante tantos anos é o mais incrível de todos os sucessos que vivi. Quando cheguei pensava que, se ficasse cinco ou seis anos, seria ótimo. Pensava ter uma carreira profissional até aos 33 ou 34 anos, e também considerava um grande sucesso chegar aos 35 anos. Ultrapassei esse limite e, até agora, continuo a manter-me a este nível”, analisou.

Depois de assumir que cogitou acabar a carreira no Real, mas que “tudo tem um início e um fim”, seguiu-se o AC Milan. “Depois do Real é sempre um passo atrás. É algo indiscutível e todos os jogadores podem confirmar isso. Acho que vim para um clube que, com a sua história e renome, está muito próximo do Real. Cresci ao lado do futebol italiano e o AC Milan era o meu clube favorito. Zvone [Boban] teve uma grande carreira no Milan e era o capitão da seleção croata. A Liga italiana é uma das mais competitivas da Europa, com muitos clubes num nível semelhante. Quando pensava que um dia podia não estar no Real, embora não acreditasse que isso fosse acontecer, o AC Milan estava sempre em primeiro lugar, logo a seguir ao Real”, completou Luka Modric, que foi internacional pela Croácia em 194 ocasiões, tendo somado 28 golos.