Estamos perante um confronto com o impacto semelhante ao de um combate de boxe entre titãs. Um duelo íntimo e feroz entre duas pessoas colocadas em lados opostos da barricada, num debate que faz eco em cada espectador. Quem tem razão nesta encruzilhada? Possivelmente nenhum deles, pelo menos na sua totalidade. Mais de três décadas após a estreia, Oleanna (1992), a célebre peça do dramaturgo e realizador norte-americano David Mamet, sobe ao palco do Teatro São Luiz, em Lisboa, de 6 a 21 de dezembro, numa oportunidade para revisitar este intenso diálogo entre professor e aluna, marcado por acusações de assédio e abusos de poder. E hoje, tal como num passado recente, a peça continua a ressoar de forma desconcertante.
Ao longo de três encontros consecutivos, correspondentes aos três atos da peça, Oleanna desenrola-se inteiramente no gabinete do professor universitário John, interpretado por João Pedro Vaz. É lá que recebe Carol, a jovem aluna interpretada, por Bárbara Branco, que procura aconselhamento. John surge como um docente autocentrado, presunçoso e, por vezes, agressivo. Carol, por sua vez, revela-se insatisfeita, perdida e, desde o início, carregada de um ressentimento profundo, tanto contra o sistema de ensino e a autoridade, como contra si própria.
Entre a conversa existencial sobre aprendizagem, privilégio e a violência subtil do sistema académico, sublinha-se tanto o poder exercido por John enquanto professor, como a insegurança estrutural de Carol enquanto aluna. É nesta fricção que se instala a faísca e as consequências. Assédio? Tentativa de violação? Nenhuma das anteriores? À medida que o diálogo avança, rápido e atropelado entre os dois interlocutores, Oleanna assenta num terreno híbrido onde uma palavra em falso pode mudar o rumo dos acontecimentos. A linguagem, ora subtil ora irónica, torna-se arma, mas também escudo perante a ambiguidade crescente das duas posições.
Da tensão verbal emerge uma luta pelo lugar de fala, onde se expõem conflitos de género, estatuto e comunicação. Expõem-se tensões de género, estatuto e comunicação. E, tal como no momento da sua estreia, Oleanna dá forma a uma armadilha clássica, na qual os espectadores são compelidos a tomar partido por uma das personagens. Mamet estava ciente disso. Não só procurou exacerbar o seu carácter divisório na peça como no filme, realizado pelo próprio de 1994, cujo cartaz lançava o aviso: “Ele disse que foi uma aula. Ela disse que foi assédio sexual. Seja qual for a sua posição, está enganado.” Um aviso que permanece atual num tempo de julgamentos rápidos e certezas frágeis.
Numa arena moral de combate
Para Carlos Pimenta, o encenador que regressa a Oleanna 16 anos depois de a ter montado com o Ensemble – Sociedade de Actores, a dimensão polémica da peça não só se manteve como se intensificou. “À época, a peça antecipava questões de cancelamento e do movimento Me Too, que nos Estados Unidos já existiam, mas sobre as quais aqui ainda se pouco falava em Portugal. Hoje, decididamente, é uma peça que provoca ainda mais comichão.”
Se Oleanna já era controversa nos anos 90, em 2025 ecoa de forma particularmente pungente num país marcado, nos últimos anos, por vários casos mediáticos de assédio e abuso de poder dentro do sistema universitário, desde as denúncias feitas em 2023 contra docentes da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa ao caso das queixas apresentadas contra o sociólogo e antigo professor Boaventura de Sousa Santos. Essas histórias, amplamente discutidas no espaço público, pairam inevitavelmente sobre o gabinete cinzento onde decorre a ação.
A ressonância contemporânea explica também o fascínio do encenador português e a vontade de reencenar Mamet: “Não apenas por esses casos, mas também por eles, volto a pegar neste texto com maior dimensão crítica. O mundo mudou, e creio que todos nós mudámos também.” O dispositivo cénico – austero, cinzento, quase clínico – reforça a dimensão de ambiguidade moral e ética. Nada distrai o espectador do que realmente importa: a oscilação constante entre poder, interpretação e culpa, bem como a reflexão constante sobre os limites estabelecidos na relação entre professor e aluno.
Ao Observador, o encenador explica que mais importante do que o seu contexto original, é importante que os espetadores façam o seu próprio julgamento e tirem conclusões. “Espero que o público rememore essas situações e faça o seu juízo, mas esse juízo só acontece quando se sai do teatro”, explica Carlos Pimenta. No processo de trabalho sobre a peça de Mamet, a reflexão, sublinha, estende-se também ao seu próprio percurso profissional: “Estes casos modificaram comportamentos. Eu próprio, como docente de teatro, passei a racionalizar mais, não no sentido de ter medo do que dizer, mas com a consciência de não invadir o espaço do outro.”
Um “dispositivo de convencimento”
Acima de tudo, a peça de David Mamet arrisca. Se por um lado parece construir uma trama em que as ações de Carol surgem como excessivas, por outro evidencia que John se coloca desde o princípio numa posição de domínio intelectual e de autoridade. Os acontecimentos precipitam-se até a coerência inicial da relação com a aluna ruir por completo, deixando os espectadores num espaço onde já nada parece ajustar-se à normatividade inicial e que seria expectável.
No meio desta turbulência, Carlos Pimenta sublinha a necessidade de prudência e reflexão que ao longo dos anos nem sempre existiram nos casos mais mediáticos: “Houve reações excessivas, houve julgamentos sem escrutínio, e devemos sublinhar a complexidade do momento em que vivemos, mas também da natureza destas situações. Estamos no meio da história e nem sempre é fácil posicionarmo-nos. Os limites éticos flutuam. Houve juízos precipitados que geraram, por sua vez, reações excessivas onde não se chegou a nenhuma real conclusão. Temos de aprender estes novos limites e lidar verdadeiramente com estas situações. Sobretudo quem está em posições de poder que tem essa responsabilidade.”
De volta a peça, Oleanna de Mamet não é, nem se transforma, num tribunal moral. “O texto apresenta as situações, mas não é normativo. O autor nunca diz ao público o que pensar. O espectador é que preenche esse vazio”, afirma o encenador. “O teatro é um dispositivo de convencimento, mas há um limite. Neste texto tanto se podia dizer que se está a impor uma tese como que há uma ausência total de tese. É uma obra aberta. São as pessoas que determinam o que realmente acham.”
Com dois atores em cena “como boxeurs”, como descreve Pimenta recorrendo a uma ideia deixada por David Mamet, Oleanna transforma a linguagem em ringue, o gabinete universitário em arena moral e o espectador em árbitro involuntário. Num tempo em que debates sobre assédio, consentimento, cancelamento e autoridade são quotidianos, Mamet volta a lembrar que não há respostas fáceis, nem posições confortáveis.