A laureada ainda está “a caminho”, mas o Nobel da Paz chegou às mãos de uma Corina Machado. A filha da opositora venezuelana, Ana, subiu ao palco montado na Câmara Municipal de Oslo, na Noruega, para receber o prémio que foi atribuído à sua mãe “enquanto líder do movimento pela democracia na Venezuela”.
“Quero expressar a minha gratidão infinita, de toda a minha família e do meu país ao Comité Norueguês. Estou aqui em nome da minha mãe”, afirmou Ana Corina Machado, após uma longa ovação em que todos os membros da plateia se levantaram em apoio à causa liderada por María Corina Machado, que escreveu o discurso agora lido pela filha.
“Enquanto imagino o momento em que vou poder abraçar a minha mãe, penso em todos os filhos que não vão ter a mesma oportunidade”, continuou. Porém, Ana garantiu que María Corina Machado — que estará em Oslo “dentro de algumas horas” — vai estar de volta a solo venezuelano “dentro de pouco tempo”.
O jornal norte-americano Wall Street Journal, citando oficiais dos EUA, avançou que a líder da oposição terá fugido da Venezuela de barco na terça-feira em direção à ilha de Curaçao, nas Caraíbas. A viagem foi feita de forma secreta com ajuda dos aliados da política, de modo a superar a proibição de viajar imposta pelo governo venezuelano em 2015. No seu site, o comité Nobel indica que a vencedora do prémio estará presente numa visita ao parlamento norueguês na quinta-feira de manhã, chegando por volta das 8h20 na hora local (7h20 em Lisboa). Às 10h15 (9h15 em Lisboa), está prevista uma conferência de imprensa com María Corina Machado e o primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre.
O discurso, escrito pela Nobel da Paz, recordou a história e diversidade da Venezuela e como “todos nasceram para ser livres”. “Construímos a maior democracia da América Latina. Mas até a maior democracia fica mais fraca”, continuou Ana Corina Machado, referindo que os venezuelanos “valorizaram os seus direitos, mas esqueceram os seus deveres”. “Achavam que o carisma podia substituir o Estado de Direito”, acrescentou a filha de María Corina Machado, referindo que “o regime de 1999” destruiu a “frágil democracia” do país, após a eleição de “um militar que havia liderado uma tentativa de golpe de Estado para derrubar a democracia”.
Evocando a “corrupção obscena” que tem vindo a marcar o regime autoritário venezuelano, Ana Corina Machado recordou os nove milhões de venezuelanos que tiveram de abandonar o país desde então, referindo que “não são estatísticas, mas sim feridas expostas”. Com essa ideia em mente, Ana Corina Machado fez a ponte para a última campanha eleitoral que María Corina Machado liderou, na qual foram “proibidas de fazer publicidade e de aparecer na imprensa”. Foi através do diálogo direto com a população, continuou a filha da opositora do regime de Maduro, que conseguiram transmitir a mensagem.
“Regime respondeu com terror” a resultados da oposição
Desta campanha, Ana Corina Machado partilhou ainda duas histórias que retratam momentos em que o “amor ultrapassou o medo” e a “coragem derrotou a opressão”. “O filho que se foi embora votou ao lado da mãe que ficou”, continuou, fazendo referência às eleições que estavas marcadas para 2023, que mobilizaram a população às urnas de uma forma histórica. Contudo, Ana relembrou que Corina Machado foi impedida de avançar nas eleições, pelo que foi aí que começou a procura por um novo candidato: Edmundo González Urrutia, “que ninguém conhecia três meses antes das eleições”.
A filha de Corina Machado contou ainda como conseguiram utilizar a tecnologia — “escondida dentro de frutas nos lugares mais recônditos da Venezuela” — para propagar a sua mensagem antes das eleições no verão de 2024. Recordando os soldados que resistiram às ordens do regime para expulsar os voluntários do movimento liderado por Corina Machado dos locais de voto, Ana Corina Machado — acompanhada por aplausos de toda a Câmara Municipal de Oslo — lembrou que González Urrutia venceu as eleições “em todos os estados, cidades e vilas”.
“A estes resultados, o regime respondeu com terror”, acrescentou Ana Corina Machado, relembrando as “2.500 pessoas que foram detidas, torturadas e raptadas” na sequência das manifestações e protestos que marcaram o país no rescaldo das eleições.
“Este prémio carrega um significado profundo: recorda o mundo que a democracia é essencial para a paz”, continuou Ana Corina Machado. “Chegamos à liberdade quando nos recusarmos a virar as costas a nós mesmos”.
“A Venezuela vai voltar a respirar. Voltaremos a abraçar, voltaremos a amar, voltaremos a ouvir as nossas ruas repletas de risos e música”, referiu ainda a filha da Nobel da Paz. Na reta final do discurso escrito por María Corina Machado, a opositora do regime de Maduro disse que “o mundo maravilhou-se com aquilo que alcançámos e, em breve, testemunhará uma das coisas mais emocionantes do nosso tempo: os nossos entes queridos a regressar a casa”.
“Aceite os resultados da eleição e renuncie ao poder”, diz diretor do Comité Nobel a Maduro
A cerimónia começou com uma atuação musical de Danny Ocean, um artista venezuelano baseado nos Estados Unidos da América, com a família real norueguesa e os responsáveis pelo Instituto Nobel norueguês sentados na primeira fila da longa plateia. Quando cessou a ovação, o diretor do Comité Nobel na Noruega começou o seu discurso por contar a história de Samantha Hernandéz, uma jovem venezuelana de 16 anos que foi “raptada” no mês passado por “autoridades do regime”. A história desta jovem, que terá sido castigada após o irmão, um soldado, ter desafiado ordens, “não é única”, como recorda Jørgen Watne Frydnes, é a realidade num “regime autoritário” como o de Nicolás Maduro.
“Não são extremistas, são venezuelanos normais a sonhar com a liberdade, democracia e direitos. E, por isso, a sua vida foi-lhes roubada”, referiu. Lembra, ainda, aqueles que “não podem ouvir os discursos de hoje, só os gritos daqueles que estão a ser torturados”. “Cada vez mais vemos países a aproximar-se para regimes autocráticos”, acrescentou o norueguês, mencionando o apoio que outros regimes como “Cuba, Rússia, Irão, China e Hezbollah”, que têm vindo a fornecer “armas, vigilância e ajudas económicas” para “fortalecer o regime de Maduro.
“Nisto, encontramos venezuelanos que se recusam a desistir”. Jørgen Watne Frydnes aproveitou a oportunidade para nomear os vários opositores venezuelanos presentes na cerimónia em Oslo, para além de familiares da laureada, incluindo Edmundo González Urrutia, que disputou as últimas eleições presidenciais venezuelanas e recebeu uma ovação dos convidados. Sobre María Corina Machado, o político norueguês diz que “nunca rejeitou o princípio do conceito de diálogo com o outro lado”. “O futuro pode assumir várias formas, mas o presente é horrível”, acrescenta.
“O apoio por um desenvolvimento democrático é um apoio pela paz”, continuou o responsável pela seleção dos laureados do Nobel da Paz. “Coloca-se, muitas vezes, a questão: será que a democracia leva à paz? Os resultados são claros. A resposta é sim”, afirmou. “A paz e a democracia não podem ser separados sem retirar o significado a ambas”, continuou Watne Frydnes, referindo que Corina Machado priorizou os “boletins às balas”, antes de recordar as eleições venezuelanas de 2024 e o caminho que levou a opositora de Maduro a ser evocada em Oslo, “um dos exemplos mais extraordinários de coragem civil na história recente da América Latina”.
Numa afirmação dirigida diretamente ao Presidente da Venezuela, Jørgen Watne Frydnes pede que Maduro “aceite os resultados da eleição e renuncie ao poder” — o “verdadeiro desejo do povo venezuelano”.
Atualizada às 17h21 com informações sobre a viagem de María Corina Machado e a conferência de quinta-feira.