O pedido de desafetação e encerramento de várias salas de cinema ao longo de 2025 culminou com o anúncio, pelo Governo, da criação de um grupo de trabalho que está já a “recolher contributos” no setor. A criação do grupo de trabalho foi anunciada em novembro pela ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, tendo em conta “o crescimento, este ano, do pedido de desafetação de salas”.
Esse grupo de trabalho integra elementos da Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC), do gabinete da ministra da Cultura e do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) e está a “recolher contributos junto de diferentes agentes do setor, promovendo uma reflexão alargada e fundamentada que sustente futuras propostas de ação”, disse à Lusa fonte do ICA.
A questão da exibição de cinema e a “correção ou redução de assimetrias regionais” está plasmada no Plano Estratégico para o Cinema e o Audiovisual 2024-2028, homologado há mais de um ano e que, reconheceu o ICA, “enfrentou, no seu arranque, alguns constrangimentos”, nomeadamente por duas eleições legislativas recentes.
À Lusa, fonte oficial do ICA disse que “muito em breve será possível partilhar ações concretas já em fase de aplicação”, referentes àquele plano estratégico.
Em setembro, a agência Lusa noticiou que este ano foram feitos vários pedidos de desafetação de atividade cinematográfica e houve encerramentos de salas de cinema, a maioria a operarem em centros comerciais sob gestão da Sonae Sierra em várias localidades.
A título de exemplo, o Arrábida Shopping, em Vila Nova de Gaia, o maior complexo de cinema do país, explorado pela exibidora UCI, foi autorizado a desafetar a atividade cinematográfica em nove das 20 salas, por questões de “viabilidade económica”.
Também foram feitos pedidos de desafetação das quatro salas do Estação Viana Shopping, em Viana do Castelo, e de seis das 12 salas dos Cinemas Cineplace Braga, estando nos dois casos ainda em funcionamento.
A NOS Cinemas, a maior exibidora do país, encerrou a exploração de cinco salas no MaiaShopping (Porto), cinco salas no Tavira Grand Plaza (Faro) e seis salas no Fórum Viseu.
Em outubro, o jornal Público noticiou que a exibidora Cineplace encerrou salas no Algarve Shopping, na Guia (Faro), no Madeira Shopping, no Funchal, e no Rio Sul Shopping, no Seixal (Setúbal). No Algarve, a imprensa local noticiou, em novembro, o encerramento da exibição de cinema em Portimão, nas salas exploradas pela Cineplace.
De todas estas exibidoras, apenas a NOS Cinemas respondeu ao pedido de esclarecimento da Lusa, com o porta-voz, Nuno Aguiar, a dizer que “o setor da exibição em Portugal é dinâmico” e que por isso “é normal abrirem salas em algumas regiões e encerrarem noutras”.
A Lusa também pediu informações ao grupo Sonae Sierra sobre planos futuros sobre a exibição de cinema nos seus centros comerciais, mas não obteve resposta.
Em Portugal, segundo dados do ICA, três distritos — Beja, Bragança e Portalegre — não têm exibição comercial e diversificada de cinema. A cidade de Viana do Castelo corre o risco de deixar de ter cinema num centro comercial, porque foi autorizada a desafetação de salas.
Há dezenas de concelhos no país, sobretudo fora dos grandes centros urbanos, onde só existe oferta de cinema, por vezes semanal, em auditórios, cineteatros, casas de cultura ou cineclubes em espaços de gestão autárquica.
Em 2025, os dados mais recentes do ICA, contabilizados até novembro, indicam a existência de 565 salas, das quais 169 funcionam na região de Lisboa, 172 na região norte, 123 na região centro e as restantes dispersas pelo Alentejo (41), Algarve (34), Madeira (16) e Açores (10).
Faltando ainda dados do mês de dezembro, a exibição de cinema em 2025 somou 9,6 milhões de espetadores e 61,9 milhões de euros de receita de bilheteira. Em 2024, 11,8 milhões de espetadores viram cinema numa sala, totalizando 73,3 milhões de euros de receita.