Desde 1980 que Portugal submete anualmente um candidato à categoria dos Óscares que agora tem o nome de Melhor Filme Internacional. Em 45 tentativas, nunca nenhuma resultou sequer numa nomeação, tornando-nos num caso raro de falhanço no rácio tentativa-concretização. Já Taiwan, que nem sequer tem reconhecimento internacional generalizado como nação, dada a pressão da China, pode chegar à sua quarta nomeação com A Rapariga Canhota (Zuopiezi Nuhai no original). O filme foi exibido em algumas salas nos Estados Unidos (condição obrigatória para ser considerado pela Academia) e chega agora ao gigante de streaming Netflix, no qual provavelmente só começará a dar nas vistas depois da muito provável nomeação para prémios debaixo do radar dos cinéfilos.

Estreia na realização de Shih-Ching Tsou, braço direito de Sean Baker (vencedor dos Óscares de 2025 com Anora, e que aqui também contribui como argumentista), A Rapariga Canhota foi totalmente filmado com iPhone durante o verão de 2022. A ação passa-se na capital, Taipei, à qual regressa uma mãe em dificuldades, com uma filha adolescente e outra de 5 anos. O objetivo da mãe é abrir um stand de rua para vender ramen num dos mercados noturnos da cidade. Enquanto a filha mais velha e rebelde se envolve com um homem casado, a criança vê-se com um problema que considera gravíssimo: o seu avô, ao reparar aquando do reencontro com a neta que esta é canhota, apressou-se a explicar-lhe que essa era a mão do diabo e que era imperativo mudar esse comportamento.

[o trailer de “A Rapariga Canhota”:]

Por um lado, o peso da tradição e da superstição; por outro, uma certa libertação daquela criança, que depois de uma grande angústia inicial decide que usará a mão esquerda sempre que quiser fazer um disparate, já que a culpa não lhe pode ser imputada. Uma metáfora, nem sempre subtil mas mesmo assim eficaz, sobre a dualidade entre o bem e o mal que impera dentro de cada um de nós – e dos mecanismos que usamos para as justificar.

O pano de fundo do mercado noturno traz ao filme uma cor e uma algazarra que muitas vezes contrastam com um certo negrume das personagens. Não é por acaso que os planos iniciais da chegada de mãe e filhas a Taipei são entrecortados com imagens de caleidoscópios. São particularmente interessantes e eficazes os planos do ponto de vista da criança (os 5 anos da atriz Nina Ye enchem o ecrã com uma facilidade notável), que corre livre pelo mercado, imune à dureza que aquele trabalho acarreta para uma mãe exausta e endividada pelo ex-marido.

Apesar das dificuldades das personagens, todas elas são retratadas com dignidade e sem miserabilidade. Tirando a cena, perto do final, da grande revelação (um plot twist que, na verdade, é fácil de descortinar desde o início), o filme escapa a um certo tom telenovelesco que o arruinaria. E mesmo no caso da dita cena, impera o bom gosto e o não deixar a câmara tomar partido — até porque, ao contrário do que sucederia no horário nobre da TVI, a grande bomba explode, mas muita coisa continua na mesma, entre o fumo e a confusão. A Rapariga Canhota é um cartão de visita à realidade taiwanesa, mas sem deixar de ser uma história de apelo universal. E no nosso universo, os finais felizes demoram e não se compadecem com o timing de entrada da ficha técnica.