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"Ideias Feitas" com Alberto Gonçalves na Rádio Observador. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo. Obrigado e boa tarde.
E não resististe à entrevista de Salvador Sobral.
Nunca resisto. Começo por confessar que sou um razoável seguidor da carreira pública do senhor Salvador Sobral. Acho que é a terceira ou quarta vez que falo dele aqui no "Ideias Feitas". Eu não sigo a carreira de cancionista do senhor Sobral. Acho que só ouvi vagamente aquela canção da Eurovisão e se calhar não inteira, mas sigo a carreira de legado ativista e sigo-a com bastante empenho. Cada vez que ele faz declarações públicas, é certo e sabido que vai sair dali comédia da boa, e eu gosto de comédia da boa. E entre as rábulas cômicas do senhor Sobral, só para recordar às pessoas, isto feito nos últimos meses, houve os apelos falhados ao boicote de Israel na Eurovisão, houve o anúncio épico da saída do Spotify e a própria saída, em protesto contra já não sei o quê. E houve, claro, depois o anúncio menos épico do regresso do senhor Sobral ao Spotify. E há dias, como disseste, o senhor Sobral concedeu uma entrevista ao Observador e inevitavelmente lá vieram mais disparates com elevado potencial humorístico. E como não tenho aqui tempo ilimitado, vou só enumerar alguns. O primeiro é o seguinte, e passo a citar: "Fico feliz que o público sionista boicote o meu trabalho." Cada um fica feliz com o que pode. Eu só não sei é se o senhor Sobral faz ideia do significado da palavra sionista. Sionista é qualquer pessoa que apoia a existência e a soberania do Estado de Israel. Apenas isto. Se o senhor Sobral, de facto, não conhece o significado da palavra, é apenas ignorante e tem a atenuância da ignorância, embora talvez não devesse falar do assunto. Faria melhor em não falar do assunto. Mas se o senhor Sobral sabe o que sionista quer dizer, então o senhor Sobral é contra a própria existência de Israel e aí mostra ser outra coisa um bocadinho mais sinistra e que me vou escusar de referir aqui. Outro delicioso disparate proferido pelo homem na referida entrevista foi o seguinte, em resposta à pergunta sobre se os artistas devem usar a sua influência para fins ativistas. E respondeu o senhor Sobral isto: "Em 2026, sim. Não é só um dever cívico. Os artistas têm um dever político porque os valores humanos estão em crise e estão em perigo. Alguém que tenha uma plataforma tem a obrigação política, cívica, social e humana de defender os direitos básicos e os direitos humanos." Esqueci-me de dizer, senão ainda pensam que é o senhor Sobral que continua a falar. Não, agora sou eu. E acho que podemos concluir destes desabafos profundíssimos, destas reflexões filosóficas com alta densidade, que especificamente em 2026, e de certeza por culpa exclusiva de Israel, isso não falha, os valores humanos estão em crise e em perigo. Nos anos, nas décadas, nos séculos e nos milênios anteriores, os valores humanos estiveram quase sempre num estado impecável. E em consequência disso, do perigo que correm atualmente, cabe aos artistas, incluindo cancionistas, iluminar as massas com a sua sabedoria, ou seja, com o tipo de pensamentos que passam pela cabeça do senhor Sobral e de pessoas abençoadas com a sensatez, a bondade e a pertinência do senhor Sobral. Por fim, eis o último pensamento do senhor Sobral que queria partilhar aqui. É o seguinte: "Agora no Brasil, todos os artistas que conheço usam a sua voz para apelar ao voto em Lula. É o que se pode fazer e isso mobiliza as pessoas. Está à vista." Ora, sendo um artista de gabarito, o senhor Sobral, pelos vistos, habita uma realidade alternativa, é próprio dos gênios, dos grandes artistas, ou então, mais uma vez, ele está a incorrer naquela tal comédia e aqui é humor finíssimo, porque o que realmente está à vista é que a opinião de nenhum artista da canção, do cinema, do teatro, das variedades em geral, influenciou o voto em ninguém. Aliás, o que se tem discutido muito nos últimos anos em diversos países, incluindo agora também no Brasil, tem havido também uma discussão sobre este assunto, é até que ponto as declarações políticas de figuras de espetáculo chegam a prejudicar o candidato que apoiam. E o que se tem constatado é que muito provavelmente prejudicam. E se há coisa que irrita o cidadão comum e, em princípio, dono da sua vontade, é ver autodesignados artistas convencidos que têm a obrigação de o ensinar a pensar. E, por outro lado, também, só mesmo para terminar, Ricardo, se há coisa que irrita os autodesignados artistas é constatar que há cidadãos livres. E já agora, um abraço e bom fim de semana.
Bom fim de semana, Alberto.