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A meia volta de Samu virou o colete de forças do avesso (a crónica do FC Porto-AVS)

Este artigo tem mais de 6 meses

Não dava em ataque organizado, não dava por cima, não dava por fora. Muralha do AVS resistiu a quase tudo o que o FC Porto apresentava até que um lance de génio de Samu mudou a história do jogo (2-0).

Samu desbloqueou o encontro no início da segunda parte com uma grande jogada individual, bisou de grande penalidade e foi a chave do triunfo do FC Porto frente ao AVS
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▲Samu desbloqueou o encontro no início da segunda parte com uma grande jogada individual, bisou de grande penalidade e foi a chave do triunfo do FC Porto frente ao AVS

▲Samu desbloqueou o encontro no início da segunda parte com uma grande jogada individual, bisou de grande penalidade e foi a chave do triunfo do FC Porto frente ao AVS

O jogo estava ganho, o ritmo tinha caído, havia um jogador que continuava a correr como se o nulo ainda se mantivesse. Vinha atrás, procurava o espaço, tentava encontrar a melhor posição quando o jogo fluía pelos corredores laterais e havia possibilidade de cruzamento. No final, entre tanta vontade, até pode ter chegado ao balneário com um galo na cabeça após um choque em período de descontos mas mentalidade não faltou a Samu. Marcou o primeiro, quis ir ao segundo. Marcou o segundo, nunca desistiu do terceiro. A noite foi tudo menos de David e Golias como todos pintavam mas, depois de uma primeira parte sem golos e também sem grandes oportunidades (com uma mera exceção, de Froholdt), bastou um lance de génio do avançado espanhol para desbloquear uma vitória bem mais complicada na prática do que a teoria fazia prever. Se tanto se fala do ADN FC Porto, Samu, naquele jeito às vezes meio atabalhoado que engana, mostrou de novo que tem uma vontade e uma técnica acima do normal para, quando o coletivo falha, consegue resolver.

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Antes do jogo, à boleia dos paraquedistas caídos há pouco tempo no futebol português que foram abordados por Frederico Varandas e dos despiques com analogias à Fórmula 1 dos treinadores rivais, José Mourinho e Rui Borges, Francesco Farioli mantinha os pés no chão e fintava qualquer pista que não fosse a do FC Porto com o AVS. “O único paraquedista é o nosso fotógrafo, que está a tentar aprender. Não jogo padel, sou uma pessoa muito aborrecida, não faço atividades radicais. O resto é ruído, poluição… Apesar de estar há pouco tempo em Portugal, acho que já vi o suficiente em seis meses”, referira. “Gosto de ver Fórmula 1 mas há muitas coisas… O ruído, os comentários, as metáforas… Precisa de estar longe da nossa mente”, apontara.

Com uma série de sete vitórias consecutivas no Campeonato, e a caminho da maior sequência da temporada na prova, o italiano não quis agora entrar em grandes conversas sobre tudo o que não dissesse respeito ao último encontro no Dragão de 2025, apontando sobretudo à importância de não cair em facilitismo tal como aconteceu na última ronda em Alverca. “Se olharmos para a tabela é a equipa que vai em primeiro e a que vai em último. Mudaram de treinador recentemente para um que tem experiência em Portugal. Analisámos o jogo que fizeram para tentar encontrar padrões e coisas em comum. Não há jogos que nos permitam relaxar e este é outro exemplo. Teremos de estar atentos e de ser competitivos, até porque vimos de uma semana sem jogos, que é um cenário pouco habitual para nós”, destacara, antes de recusar uma ideia com que foi confrontado de que o FC Porto parece ser mais consistente quando defronta equipas mais fortes.

“O futebol moderno traz sempre cenários complicados, situações difíceis dentro de campo. As equipas estão mais organizadas a cada dia, os treinadores estão a melhorar a todos os níveis, o conhecimento dos jogadores também está a crescer. Taticamente, precisamos de encontrar a chave para desbloquear jogos. Se defrontamos uma equipa que defende muito… Mesmo quando dominamos, quando temos posse de bola, isso nem sempre é suficiente. É preciso organização, capacidade para ganhar duelos. Um bom exemplo foi o jogo frente ao Tondela. Na primeira parte tivemos dificuldades, não porque jogámos mal mas porque não tivemos a capacidade de acelerar como deveríamos. Fomos fracos na capacidade de desbloquear o jogo em termos individuais, tivemos uma percentagem muito baixa de dribles bem sucedidos. Nesses jogos, isso é essencial. Acho que se trata mais de equipas que pressionam mais ou que baixam mais, não de serem mais fortes ou fracas. Temos de perceber rapidamente o jogo e de encontrar a melhor solução”, justificara o transalpino.

Já sobre a paragem de alguns dias, voltaram a sobrar elogios ao comportamento do grupo de trabalho, numa fase do ano que convida sempre a descurar um pouco mais na preparação. “Alguns jogadores chegaram com dois quilos a menos, acho que andaram de bicicleta na sauna. Chegaram numa ótima forma. E as últimas sessões de treino tiveram muita energia positiva. Infelizmente isso não vence jogos mas pode ajudar-nos a estar mais perto disso. A pausa foi bem merecida para nós. Os jogadores estiveram muito bem nos três dias, passaram tempo com a família, recebemos também boas notícias do Gabri Veiga, que foi pai no dia 25, e tem sido positivo para todos. Recarregámos baterias, agora está na altura de voltar a dar tudo”, salientara, sem abrir muito o jogo sobre as opções iniciais onde já entrava Bednarek mas deixava de estar Borja Sainz, espanhol que tinha sido a grande figura do último triunfo dos azuis e brancos em Alverca com dois golos.

“Temos muita coisa que nos motiva e essa é a nossa prioridade. Claro que a longo prazo, numa temporada longa, mais do que a motivação é importante estarmos disciplinados. A nossa equipa já provou a capacidade de ser constante e resiliente nos momentos certos. E é isso que espero. Faz parte do ADN do FC Porto, entrar com o espírito certo, com agressividade e mostrar o melhor aos nossos adeptos”, comentara, sem dar sinais sobre a hipótese de William Gomes assumir a titularidade com Pepê mais descaído sobre a esquerda. Foi mesmo isso que aconteceu, entre o regresso de Francisco Moura à titularidade com Martim Fernandes a ficar no onze e Alberto Costa a ficar no banco e com a passagem de Pablo Rosario para a posição 6 em vez de Alan Varela (que até marcou em Alverca) depois de Jan Bednarek ter voltado ao eixo central recuado. No entanto, entre essas mexidas, o MVP da partida foi o do costume e logo com um bis: Samu.

Ficha de jogo

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FC Porto-AVS, 2-0

16.ª jornada da Primeira Liga

Estádio do Dragão, no Porto

Árbitro: Bruno Costa (AF Viana do Castelo)

FC Porto: Diogo Costa (Cláudio Ramos, 46′); Martim Fernandes (Alberto Costa, 84′), Bednarek, Kiwior, Francisco Moura (Alan Varela, 74′); Pablo Rosario, Froholdt, Rodrigo Mora (Gabri Veiga, 59′); William Gomes (Angel Alarcón, 59′), Pepê e Samu

Suplentes não utilizados: Cláudio Ramos, Eustáquio, Prpic e Yann Karamoh

Treinador: Francesco Farioli

AVS: Simão Bertelli; Ponck, Aderllan Santos, Devenish; Diogo Spencer (Rafael Barbosa, 82′), Pedro Lima (Gustavo Mendonça, 71′), Jaume Grau (Gustavo Assunção, 56′), Rivas; Tunde, Óscar Perea (Guilherme Neiva, 56′) e Tomané (Nenê, 82′)

Suplentes não utilizados: João Gonçalves, Paulo Lima, Bruno Lourenço e Kiki Afonso

Treinador: João Henriques

Golos: Samu (47′ e 64′, g.p.)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Jaume Grau (50′) e William Gomes (52′)

O encontro começou conforme tinha sido desenhado na teoria mas com o FC Porto a ter ainda de confirmar na prática o total favoritismo na partida: zonas de pressão altas, tentativa de “asfixiar” a saída do AVS ainda no primeiro terço, grande capacidade de reação à perda de bola, posicionamento de todos os elementos de campo no meio-campo contrário em posse e ataque organizado, saídas rápidas sempre que o adversário se tentava esticar mais no terreno. Faltava superar aquele que seria o principal desafio do jogo e que passava por encontrar a melhor forma de superar um bloco baixo com linhas juntas para fechar espaços e tentava também controlar a profundidade para não dar ao passe longo a possibilidade de desequilibrar. Assim, e ao contrário do que aconteceu em Alverca, os 15 minutos iniciais não tiveram oportunidades, com Rodrigo Mora, Samu e William Gomes a tentarem a meia distância mas só por uma vez enquadrada (12′).

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do FC Porto-AVS em vídeo]

Aos poucos, era até o AVS que ganhava confiança. Tomané mostrava toda a importância a segurar bola na frente, a velocidade de Diogo Spencer e Tunde pela direita conseguia boas saídas e, apesar de não ter existido qualquer remate à baliza de Diogo Costa, ainda houve um cruzamento tenso do lateral cedido pelo Benfica a criar sensação de perigo. O Dragão entrava também no “jogo”, não perdoando as demoras de Simão Bertelli nas reposições e ficando a protestar em lances entre Froholdt e Pedro Lima e Devenish e Samu na área (21′ e 25′), mas faltava um clique para despertar a melhor versão do líder do Campeonato, refém de ideias que conseguissem fazer uma desconstrução da muralha defensiva avense. O nulo mantinha-se à meia hora, depois da grande perdida da primeira parte, com Froholdt a desviar de cabeça à figura do guarda-redes Simão Bertelli sem oposição ao segundo poste um grande cruzamento de Pepê da esquerda (30′).

Com um mal nunca vem só, também Diogo Costa teve o seu “momento”, com uma saída mal calculada da área traído pela velocidade da bola após bater na relva e as queixas no gémeo da perna esquerda que ainda obrigaram à intervenção da equipa médica portista (32′). Os poucos erros feitos no primeiro terço pelo AVS eram aproveitados de pronto pelo FC Porto para tentar perigo, com Óscar Perea a perder uma bola para Rodrigo Mora voltar a tentar a meia distância ao lado (40′), mas aquilo que se antevia como um duelo entre David e Golias tinha mais equilíbrio do que se poderia imaginar e nem mesmo na bola parada, numa das raras vezes em que os dragões conseguiram ganhar uma bola pelo ar na área dos visitantes, o nulo foi desfeito com Kiwior a desviar de cabeça por cima um livre lateral de Mora (45+1). Entre o mérito defensivo do AVS e o demérito do jogo ofensivo do FC Porto, o descanso chegava com as equipas empatadas sem golos.

A segunda parte começou com uma má notícia para o FC Porto, a segunda parte trouxe também a melhor notícia para o FC Porto: Diogo Costa não recuperou do problema aparentemente muscular contraído durante a primeira parte e deu mesmo lugar a Cláudio Ramos ao intervalo mas, logo na primeira jogada em ataque organizado, Samu conseguiu inaugurar o marcador, recebendo na área um passe de Pepê para desbloquear a partida de forma individual, rodando sobre Aderllan Santos para o lado direito, ganhando espaço para ficar 1×1 contra Simão Bertelli e rematando rasteiro para o 1-0 (47′). Jogo resolvido? Ainda não. Numa fase mais partida do encontro, o AVS quis mostrar argumentos para chegar ainda ao empate e teve dois remates com relativo perigo, primeiro com Óscar Perea a aproveitar uma segunda bola de fora da área para atirar forte mas ao lado (54′) e depois com Devenish a arriscar um tiro em jeito para defesa de Cláudio Ramos (56′). Na resposta, Rodrigo Mora saiu da lâmpada com duas roletas, assistiu com classe para Pepê mas o remate do brasileiro saiu a rasar o poste, com Simão Bertelli a tocar de raspão na bola com a ponta dos dedos (58′).

Esse seria o último momento do internacional Sub-21 em campo, com Farioli a não prescindir dessa mexida habitual por volta da hora de jogo a lançar em campo Gabri Veiga. Podia ser uma mudança estranha, por esse momento de galvanização de Mora e até pela possibilidade de coabitarem na mesma equipa perante aquilo que estava a ser o jogo, acabou por “ganhar” razão pouco depois: num lance que foi revertido após decisão do VAR, o espanhol foi carregado na área por Ponck e Samu não perdoou de grande penalidade, fazendo 2-0 que praticamente fechava o encontro (64′). Nem o AVS voltou a criar perigo na área azul e branca, apesar de uma tentativa de bicicleta de Tomané que saiu ao lado, nem o FC Porto acelerou muito em busca de mais golos apesar da vontade de Samu em chegar ao hat-trick, e o grande momento até ao final acabou por ser mesmo a homenagem dos Super Dragões a Pinto da Costa, que faria 88 anos no passado sábado.

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