“Epítome da elegância parisiense” terá sido a mais prosaica das descrições. Ao longo de décadas, o círculo próximo esbanjou rótulos superiormente interessantes. Truman Capote equiparou-a ao estatuto de cisne. Valentino Garavani corou-a como a “última rainha de Paris”. E na hora do adeus, François Dumas despediu-se “da última grande dama”, com quem desaparece agora parte dessa capital proustiana que elevava o savoir vivre a outro nível.
De França para o mundo, Jacqueline de Ribes acumulou o título de condessa com o de socialite, empresária, designer de Moda, filantropa, produtora artística ou pioneira na conversação da natureza, mas também – antes de mais e sempre – ícone de estilo de uma era em vias de extinção. Morreu no passado dia 30 de dezembro, na Suíça, aos 96 anos, eternizando o allure, o guarda-roupa distintivo, e o penteado característico que captaram a atenção de Driana Vreeland, a lente de Richard Avedon, a lista das mais bem vestidas elencada por Eleanor Lambert, e os salões que souberam detetar a dimensão cultural da estética. Chegou a comentar que jamais escreveria uma biografia — porque ninguém acreditaria em boa parte das histórias.
Em sua casa, em Paris, numa produção para a revista Vogue, em 1984. Nos últimos anos, dividia-se entre a capital francesa e Lausanne, na Suíça.
Destemida nas escolhas de moda, e no uso da cor e da forma, de Ribes sempre rejeitou que seguir o lema “dress to impress” fosse sinónimo de frivolidade. Era não só próxima dos principais criadores como sua cliente assídua — e desconstrutora por excelência dos códigos da alta-costura, pavimentando uma imagem muito pessoal. Ao longo dos anos foi reunindo um acervo composto por peças de Saint Laurent, Pierre Balmain, Bill Blass, Marc Bohan para a Dior, Madame Grès, ou Jean Paul Gaultier, que se inspirou em Jacqueline para a sua coleção de primavera de 1999. Não quis ficar de braços cruzados, no papel de manequim de luxo, mesmo que chegasse e sobrasse para impressionar e garantir um lugar na posteridade.
Na década anterior, em 1983, estreou-se ela mesma como criadora, lançando a primeira coleção dirigida ao mercado norte-americano, uma cápsula resort composta por 12 coordenados. Até 1995, quando deu por encerrado este capítulo, Ribes foi criando coleções, chegando a armazéns como o Saks Fifth Avenue, e atraindo clientes internacionais como Joan Collins, Olympia de Rothschild, Baronesa Von Thyssen, ou Marie Hélène de Rothschild.
A olhar para uma das suas criações, numa loja em Beverly Hills, Los Angeles, em 1983
Com Valentino a relação foi ainda mais estreita, já que o italiano desenhou por várias vezes para de Ribes antes de se estabelecer em nome próprio, e já sem apelido, na sua maison em Roma.
Em 2015, o Costume Institute do Museu Metropolitan dedicou-lhe mesmo a exposição “Jacqueline de Ribes: The Art of Style,” reconhecendo o impacto artístico, uma mostra que exibiu cerca de seis dezenas de peças e que atraiu quase 200 mil visitantes, segundo a WWD. “A sua abordagem de vestir-se como uma afirmação de individualidade pode ser vista como uma espécie de arte performática. Quando ela estabeleceu a sua própria casa de moda, o seu amigo Yves Saint Laurent deu a sua bênção para o empreendimento como uma projeção bem-vinda de sua elegância.”, enquadrou então a instituição quando a mostra abriu portas. A aristocrata haveria de doar o seu espólio ao Palais Galliera.
Em 1959, a WWD retratava na perfeição o seu estilo muito pessoal. “Ela não irá vestir o que toda a gente veste”, notavam, salientando ainda a sua aversão a tudo o que era considerado “glamouroso” ou “sexy”. O melhor adjetivo, sentenciavam, era “dramático” e com efeito o arquivo de imagens enche-se de ótimas referências nesta matéria, com madame de Ribes a surgir em momentos que ficam para a posteridade, a começar pelos eventos que marcaram a famosa “Batalha de Versalhes”, em 1973, que opôs duas correntes. A representar a alta costura francesa estavam Yves Saint Laurent, Pierra Cardin, Emanuel Hungaro, Marc Bohan e Hubert de Givenchy.
No jantar privado no Maxim’s oferecido pelo empresário David Mahoney por ocasião da Batalha de Versalhes, em 1973. Na imagem, a conversar com Gloria Guinness
Sob a direção de Jean-Louis Barrault, os designers franceses apresentaram uma espécie de espectáculo de variedades com cerca de 90 minutos, em que misturaram orquestra e cenários grandiosos às performances do celebrado bailarino Rudolf Nureyev, da famosa cantora Josephine Baker e de dançarinas burlescas do Crazy Horse (que terão aceitado participar sem cachê). Depois de um breve intervalo foi a vez dos criadores norte-americanos. Eleanor Lambert, a idealizadora do evento e considerada “a inventora das relações públicas na moda”, trouxe dos EUA Oscar de la Renta, Stephen Burrows, Halston, Bill Blass e Anne Klein. O desfile durou um terço do tempo dos rivais, no que os críticos consideraram “curto e impactante”. O trunfo foi Liza Minelli, que subiu “ao palco” vestida pelo amigo Halston, e num clima Broadway cantou “Bonjour, Paris”. Entre a assistência estava a nata da época, como Grace Kelly, princesa do Mónaco, ou Andy Warhol. E madame Jacqueline, claro.
“Ela encanta os costureiros trabalhando em estreita colaboração com eles em tecidos e cores, e depois mergulha-os no desespero ao dar-lhes apenas dez minutos para um ajuste”, observou a Vogue num perfil nesse mesmo ano de 1959. Perenemente melhor vestida, a condessa nunca se contentou em ser meramente decorativa: esquiadora ávida, ela também escreveu uma coluna mensal na revista “Marie-Claire”, onde ensinou a ser chique de uma penada, situava a publicação na hora da despedida. Aparentemente, sem grandes esforços, como descreveu em entrevista à revista Point de Vue, certa de que o maravilhamento constante opera verdadeiros milagres de beleza e bem estar. “Não sou uma mulher de ir a um spa, ou de correr para institutos de beleza. Não pensem que sou assim tão cega, obcecada pelo meu físico. Maquilho-me, cuido do meu cabelo e só vou ao cabeleireiro para grandes ocasiões. Gosto de rir, gosto de me divertir, gosto da vida. Tudo me encanta.”,
Carolina Herrera usando um vestido preto Tan Giudicelli com mangas brancas e Jacqueline de Ribes usando um vestido Dior branco de um ombro no Metropolitan Museum of Art Gala, em Nova Iorque.
Nascida a 14 de julho de 1929, em Paris, Jacqueline Bonnin de La Bonninière de Beaumont descendia de Jean Bonnin de La Bonninière, Conde de Beaumont (1904-2002) e da sua mulher, Paule de Rivaud de La Raffinière (1908-1999), ambos pertencentes à aristocracia francesa, um meio privilegiado que seria testado num contexto especialmente turbulento na história do continente.
Em 1939, na Segunda Guerra Mundial, quando tinha 10 anos, os pais enviaram-na junto com os irmãos para Hendaye ao cuidado de uma ama, instalando-se na casa dos porteiros enquanto a Gestapo requisitava a casa principal. Receosos dos desenvolvimentos do conflito, a família mudar-se-ia de novo, agora para o castelo do Conde e Condessa Solages no centro da França, onde dividiram o edifício com soldados alemães do exército ocupante. Após a guerra, Jacqueline voltou à escola no convento de Les Oiseaux em Verneuil, e em 30 de janeiro de 1948 casou-se com o visconde Édouard de Ribes, um banqueiro de sucesso que posteriormente se tornou Conde de Ribes e Oficial da Legião de Honra, Croix de Guerre 1939-1945.
Jacqueline de Ribes, Edouard de Ribes e Betty Lagardere no jantar de gala ” Biennale des Antiquaires ” no Grand Palais, em 2006
Foi pouco depois do enlace que começou a pressionar os limites da tradição e conservadorismo, reinventando os preceitos no circuito da alta sociedade. Fundamental foi a amizade com o herdeiro mexicano e patrono de arte Charles de Bestegui e os primeiros contactos com Vreeland, então editora da Harper’s Bazaar. O exotismo do seu estilo garantiam-lhe um lugar ao lado de lendas vivas como Marella Agnelli, Gloria Vanderbilt, Babe Paley, ou Gloria Guinness.
Depois da morte do seu marido, em 2013, com quem teve dois filhos, Jacqueline sucedeu-lhe como presidente honorária dos amigos do Museu d’Orsay, surgindo em imagens dos jantares até há bem poucos anos, irrepreensível como habitual, apesar da idade avançada. Ambos colecionadores apaixonados, Jacqueline e Édouard adicionaram à sua coleção pessoal tesouros que foram encontrando juntos, que incluíam tapeçarias, candelabros, porcelana, caixas de rapé em ouro e referências notáveis de pinturas do século XVIII por artistas como Hubert Robert.
O conde e a condessa de Ribes com o seu traje de fantasia, à chegada do baile oriental do Barão Alexis de Rede, no Hotel Lambert, na Ile St. Louis, Paris.
De Ribes foi presença assídua nos grandes bailes que marcaram o século XX — a começar pelo grande baile de máscaras orquestrado pelo rico e excêntrico colecionador Beistegui. Palco do beau monde e do rigor nos trajes, em 3 de setembro de 1951 o Palazzo Labia voltou a abrir as suas portas à magia com um Baile Oriental, inspirado no fresco de Giovanni Battista Tiepolo O Banquete de Cleópatra. O evento congregou nomes como Orson Wells, Salvador Dali ou Christian Dior, fotografados por Cecil Beaton, na primeira grande festa após a Segunda Guerra Mundial. Jacqueline chegou de gôndola, acompanhada pelas princesas Caetani e Colonna, em vestido branco ao estilo de “Madwoman of Challiot” desenhado a partir de pedaços de vestidos de alta costura de Helene Rochas, máscara preta e joias à altura da ocasião.
Seria apenas uma das muitas entradas deslumbrantes. Um impacto que repetiria em 1956, no Bal des Têtes do Barão Alexis de Redés, surgindo como ave rara emplumada. Figura vital na alta sociedade da época, de Redés procurava um artista para desenhar o cenário e os figurinos para esse momento especial no Hôtel Lambert na Île Saint-Louis. Lilia Ralli, um nome influente no mundo da moda, recomendou o novo assistente de Christian Dior, Yves Saint Laurent, que deixou a sua imaginação correr, criando roupas extravagantes para o Bal des Têtes e posteriormente para o Baile Oriental de 1969, e ainda para o Bal Proust de 1971.
Já na década de 60, De Ribes não falhou o baile Preto e Branco do escritor Truman Capote, para mais um momento exuberante, nem a lendária festa na Quinta Patiño, cenário de um encontro com 1500 convidados recebidos pelo magnata boliviano Antenor Patiño, que em 6 de setembro de 1968 trouxe a Alcabideche estrelas como Audrey Hepburn, Zsa Zsa Gabor, “a bomba de Budapeste” que tentou sair do Hotel Palácio sem pagar a conta, e a italiana Gina Lollobrigida.
Em 2010, o Presidente francês Nicolas Sarkozy condecorou-a com a Légion d’Honneur pela sua contribuição solidária e cultural para a França. O prémio foi celebrado com um jantar em sua casa, cercada por seu marido de 62 anos e amigos, incluindo Maria Berenson, Arielle Dombasle, Bernadette Chirac e Valentino.
Impecável a esquiar em St Moritz ou nos 75 anos do parisiense restaurante Maxim’s, recorde alguns dos seus looks na fotogaleria.