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As costas curvas que carregam a cura para todas as tragédias (a crónica do Benfica-Estoril)

Este artigo tem mais de 6 meses

Enzo lesionou-se no treino, António Silva lesionou-se no aquecimento mas Benfica conseguiu superar todos os seus males frente a um irreverente Estoril com mais um hat-trick de Pavlidis na Luz (3-1).

Pavlidis inaugurou o marcador de penálti, bisou num grande chapéu a Joel Robles e fechou o triunfo do Benfica frente ao Estoril com um hat-trick na pequena área
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▲Pavlidis inaugurou o marcador de penálti, bisou num grande chapéu a Joel Robles e fechou o triunfo do Benfica frente ao Estoril com um hat-trick na pequena área

Gualter Fatia

▲Pavlidis inaugurou o marcador de penálti, bisou num grande chapéu a Joel Robles e fechou o triunfo do Benfica frente ao Estoril com um hat-trick na pequena área

Gualter Fatia

Não há excesso de azares que não traga sempre aquele sentimento de desconfiança a uma equipa. Depois da lesão de Lukebakio, curiosamente quando estava ao serviço da seleção da Bélgica, o Benfica não foi tendo propriamente muitos problemas com lesões. Um traumatismo aqui ou ali, uma queixa muscular num ou noutro jogador, nada de muito grave. Na antecâmara da receção ao irreverente Estoril, o filme foi outro com Enzo a lesionar-se no ombro no treino e António Silva a cair da lista após um problema no aquecimento. Mais uma vez, a equipa foi sabendo encontrar soluções: Manu Silva voltou a ser titular, Tomás Araújo foi de novo opção, as movimentações de Sudakov e Prestianni tentaram “disfarçar” a poupança de Aursnes por questões físicas. No entanto, as respostas vieram do suspeito do costume. Pavlidis é aquele avançado que “engana”. Que às vezes parece cansado quando não passa de uma ilusão de ótica, que corre de costas meio curvadas a disfarçar uma capacidade técnica que só quem vê o jogo no estádio consegue perceber na sua plenitude. Em quatro remates, fez um hat-trick e decidiu mais uma vitória complicada para a Liga.

Benfica-Estoril. Trubin volta a evitar o golo dos canarinhos (0-0, 18′)

Antes do encontro, José Mourinho passava ao lado do que se tinha passado em Braga e assumia talvez mais do que é normal as dificuldades que equipas como o Estoril podiam provocar neste tipo de jogos por razões variadas. “A importância deste jogo é a de sempre, o objetivo é ganhar todos os jogos e quando isso não acontece é negativo. O Estoril é uma boa equipa, uma equipa difícil. Joga um futebol muito interessante, para não elogiar ainda mais, mas podia fazê-lo. Dentro das equipas que não joga na Europa, o que significa uma semana de trabalho e de evolução com um bom treinador como é o Ian Cathro. É uma equipa que está tranquila na tabela e que quererá fazer um bom resultado”, destacara o técnico sobre uma formação que vinha de duas vitórias consecutivas para o Campeonato na Amoreira, frente ao Sp. Braga e ao Alverca.

“As equipas que jogam contra nós têm vantagem porque têm semanas completas para trabalhar e não acumulam tanta fadiga. Das equipas que estão na Europa também somos a que está em situação mais difícil com o maravilhoso calendário que nos calhou, depois de Newcastle, agora vem Real Madrid e Juventus. No nosso caso, muitas alterações significam um decréscimo no nosso jogo. Se perguntarem se vou fazer um pré-Sp. Braga frente ao Estoril, não, não o posso fazer, tenho de ir na máxima força frente ao Estoril e pensar jogo a jogo”, assumira o treinador dos encarnados, deixando para já de lado a Final Four da Taça da Liga a meio da próxima semana, com um reencontro com os minhotos em Leiria nas meias-finais da prova.

Em paralelo, José Mourinho fez também uma reflexão sobre a campanha até agora na Luz com duas ideias chave que, quando se cruzam, podem trazer realidades diferentes do que na verdade existem. “Agarro-me à matemática porque ainda estão muitos pontos em disputa e agarro-me ao facto de sermos a única equipa que ainda não perdeu em competições portuguesas. Não somos uma equipa do outro mundo mas somos uma equipa difícil de bater, com as nossas forças e debilidades. Só perdemos um jogo em 14, com o Bayer, num jogo em que massacrámos o adversário. Não podemos esquecer que o sucesso também depende dos outros. O FC Porto está a fazer uma primeira volta extraordinária que não dá hipóteses quem está a fazer bem. Se este FC Porto fosse o do ano passado teríamos outras possibilidades”, começou por frisar.

“Se o FC Porto tivesse empatado dois jogos era normal, mas o que está a fazer é anormal. Se o Sporting não tivesse a sorte de se enganarem ocasionalmente na marcação de um canto que dava um empate, também estaria mais perto de nós. O Benfica em condições normais também teria ganho ao Sp. Braga e teria ganho com o Casa Pia. Autoavaliação? Acho que é positiva, perdemos pontos com o Casa Pia e com o Sp. Braga da maneira que foi e empatámos com o Sporting, o que é normal, por isso estamos bem”, acrescentara. Todavia, e reflexões à parte, havia uma realidade a que não se podia fugir: 1) nunca uma equipa conseguiu até hoje recuperar dez pontos de desvantagem para a liderança; 2) o terceiro lugar tem um impacto direto forte nos orçamentos dos candidatos ao título; 3) a profundidade das opções no plantel do Benfica ainda não permitia grandes gestões e mudanças tendo em vista as outras provas. E, após o empate do Sporting em Barcelos, o que podia permitir uma aproximação ao segundo lugar, os encarnados tinham ainda mais de ganhar.

Ficha de jogo

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Benfica-Estoril, 3-1

17.ª jornada da Primeira Liga

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Anzhony Rodrigues (AF Madeira)

Benfica: Trubin; Dedic, Tomás Araújo, Otamendi, Dahl; Manu Silva, Richard Ríos, Leandro Barreiro (João Rêgo, 90+1′); Sudakov (Aursnes, 77′), Prestianni (Sidny Cabral, 77′) e Pavlidis (Ivanovic, 87′)

Suplentes não utilizados: Diogo Ferreira, José Neto, Diogo Prioste e Schjelderup

Treinador: José Mourinho

Estoril: Joel Robles; Ricard Sánchez (Tsoungui, 59′), Bacher, Kevin Boma, Pedro Amaral (Tiago Parente, 77′); Holsgrove, Jandro Orellana (Pizzi, 77′); João Carvalho; Rafik Guitane, Begraoui e Alejandro Marqués (Fabrício, 66′)

Suplentes não utilizados: Martin Turk, Ferro, Nodari Lominadze, Pedro Carvalho e Peixinho

Treinador: Ian Cathro

Golos: Pavlidis (34′, g.p., 45+1′ e 80′) e João Carvalho (45+3′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Bacher (69′) e Tiago Parente (87′)

No entanto, as primeiras notícias não foram propriamente as melhores. Além da lesão de Enzo Barrenechea no ombro, que fez mesmo com que o argentino caísse dos convocados, Mourinho procurou descansar Tomás Araújo e Aursnes tendo em vista a Final Four da Taça da Liga mas teve de resgatar o central ainda antes do apito inicial depois da lesão de António Silva no período de aquecimento que fez com que saísse da lista do jogo. Não ficou por aí: logo no segundo minuto, quase como se aquele momento com o jovem central tirasse referências à equipa, o Estoril teve duas oportunidades flagrantes para marcar após uma grande jogada de Rafik, com Trubin a defender a uma mão um remate de Begraoui antes da recarga de Pedro Amaral às malhas laterais. Estava dado o aviso antes de chegar um período de maior serenidade e “intensidade”.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Benfica-Estoril em vídeo]

Com mais posse, outra dinâmica em termos de movimentações na frente e maior velocidade de execução, o Benfica foi tentando mostrar outra versão nos minutos que se seguiram. Teve apenas um remate que não foi prensado nos adversários por Sudakov que saiu por cima, num lance que nasceu num lançamento lateral longo de Dahl na esquerda (9′), parecia estar a crescer no jogo mesmo sendo evidente a falta de Aursnes na equipa com e sem bola mas acabava por voltar aos tremeliques quando surgiam erros individuais nas transições defensivas ou nas saídas a partir de trás. Foi assim que, em minutos quase seguidos, Alejandro Marqués teve uma primeira jogada de 3×2 onde passou Otamendi mas não rematou e um segundo lance em que apareceu na cara de Trubin após roubo de bola a Sudakov com defesa do guardião para canto (18′). Os encarnados tentavam colocar os canarinhos na ordem sobretudo quando os ataques eram feitos pela direita com Prestianni e Dedic, houve mais um remate na área de Tomás Araújo prensado, mas o nulo mantinha-se.

Seria preciso dobrar a primeira meia hora de jogo para chegar o primeiro golo, numa fase em que o Benfica ia crescendo mas de novo de grande penalidade: Anzhony Rodrigues foi chamado num lance de VAR em que Alejandro Marqués tocou a bola com o braço “numa posição não natural” e Pavlidis inaugurou o marcador a deixar Joel Robles cair para o seu lado esquerdo (34′). A história da primeira parte parecia contada, até pela forma como o ritmo da partida foi baixando nos minutos seguintes, mas haveria muito mais para contar no período de descontos: Pavlidis bisou na sequência de um grande chapéu a Robles depois de ganhar a luta ombro a ombro com Bacher após assistência de Leandro Barreiro (45+1′), João Carvalho conseguiu reduzir a desvantagem para 2-1 num remate em jeito na área após cruzamento de Rafik Guitane (45+3′).

Prestianni, numa saída rápida conduzida pelo corredor central, teve um remate forte de longe ao lado mas o início do segundo tempo teve pouco ou nada a ver com o que se passara na primeira parte. O Estoril nunca deixou de olhar para o último terço na tentativa de esticar a equipa para colocar mais homens em zonas de finalização para o empate, o Benfica nunca perdeu o sentido nas transições mesmo tendo linhas mais baixas nas zonas de pressão. No entanto, e numa fase em que o encontro caía ainda mais de ritmo, os visitantes voltaram a deixar dois avisos à baliza de Trubin que colocaram o Benfica em sentido e fizeram com que se ouvissem pela primeira vez assobios na Luz: Begraoui rematou às malhas laterais com perigo na sequência de uma segunda bola na área (66′), João Carvalho tentou a meia distância em jeito que saiu por cima (68′). Ainda houve aplausos a um livre direto de Sudakov ao lado mas o resultado estava longe de “fechar” o jogo.

Era preciso algo mais, com outro tipo de créditos vindos do banco para capitalizar as intenções. Ian Cathro arriscou com Pizzi no meio-campo (além de Tiago Parente na lateral esquerda, por troca com o esgotado Pedro Amaral), José Mourinho apostou na fiabilidade de Aursnes e na velocidade do estreante Sidny Cabral abdicando de Prestianni e Sudakov. Menos de três minutos depois, o 3-1 estava feito: numa equipa do Benfica que recuperou o controlo das incidências no corredor central, Sidny Cabral deu largura no ataque com uma arrancada pela esquerda, cruzou tenso e rasteiro e Pavlidis, ao segundo poste na pequena área, só teve de encostar para o hat-trick (80′). A partida estava de vez resolvida, mas ainda haveria tempo para uma ovação de pé ao avançado grego quando foi substituído por Ivanovic e para muitos aplausos para Sidny Cabral, que assumiu a marcação de um livre direto perto da área para atirar muito perto da trave (88′).

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