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O fim de "Stranger Things" e o nosso mundo ao contrário sem estes garotos

Este artigo tem mais de 6 meses

Nove anos depois, terminou. Há umas quantas falhas a apontar a este final, mas nunca nenhum final seria livre de mácula. Contas feitas, uma belíssima história de amizade que vai deixar saudades.

Os Duffer Brothers fizeram uma série sobre fraternidade e camaradagem, não sobre o mil-folhas de física quântica que foi complicando a cada ronda, até ao limite do razoável
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▲Os Duffer Brothers fizeram uma série sobre fraternidade e camaradagem, não sobre o mil-folhas de física quântica que foi complicando a cada ronda, até ao limite do razoável

▲Os Duffer Brothers fizeram uma série sobre fraternidade e camaradagem, não sobre o mil-folhas de física quântica que foi complicando a cada ronda, até ao limite do razoável

Não me faltam exemplos de passagens de ano em que já o sol a raiava e eu ainda estava a pedir a abaladiça. Sendo eu uma renomada inimiga do fim, quem diria que de 31 de dezembro para o primeiro dia do ano estaria na cama, pelas duas da manhã, a rever O Padrinho, enquanto punha o despertador para acordar pela fresca e ver o último episódio de uma série protagonizada por canalhada e monstros barrados em expetoração? Fiz desde logo uma promessa a mim mesma que se o derradeiro episódio de Stranger Things não fosse do meu agrado, o próximo réveillon seria a partir chão até a palmilha do pé ficar dormente, garantindo um day after com a boca a saber a papel de música.

Como escrevi por aqui, os primeiros-últimos quatro capítulos encheram-me as medidas e, por consequência, as expectativas para o desfecho desta saga também inflacionaram. Devo dizer que os capítulos 5, 6 e 7 fizeram murchar ligeiramente o balão. São 3 horas e tal de exposição, a explicar o “Quem, Quando, Onde, Como, Porquê” de tudo e mais alguma coisa. Felizmente, são intercalados com momentos bem emocionantes e emocionalões e outros tantos de ação e tensão, com direito a nervos em franja bem escanhoada. Sempre me desconcertou um pouco a forma como estas personagens intercalavam alegremente entre estar muito próximos da morte e muito próximos de sacar o seu interesse amoroso, e investirem a sua energia em igual medida nos dois propósitos. Tudo isto com o romântico pano de fundo que é a destruição da Humanidade como a conhecemos. Mas bem vistas as coisas, há lá coisa mais própria da adolescência? “O Alex disse que prefere louras mamalhudas e eu ainda nem preciso de usar soutien… Mãe, se não me deixas pintar o cabelo, o meu mundo acabou.”

▲ Não fazendo spoiler, há quem diga que faltou coragem aos irmãos para entregar o banho de sangue e o final sem misericórdia que andaram a prometer nas entrevistas

Posto isto, há momentos a destacar. Aquela versão do fim do Titanic protagonizada pelo Jonathan e da Nancy trouxe-me um certo alívio e marejou-me os olhos, que eles já me andavam a irritar desde o início da temporada com um triângulo amoroso estafado, mas no fundo até são bons miúdos. Foi uma eutanásia bonita. A Max entrega-nos o momento “roí as unhas até ao sabugo” desta leva e sempre em linda de morrer. Esta miúda faz-se. O Will, que passou as temporadas com lesmas entaladas na garganta graças ao Vecna, despeja finalmente o que mais precisava e é bonito e é fofo e é como o mundo devia ser, e é mais um lembrete que Stranger Things é e sempre foi sobre amizade e não sobre o mil-folhas de física quântica que foi complicando a cada ronda, até ao limite do razoável. E eu não me considero desprovida de inteligência, acho que até tenho os meus momentos.

Mas, a dada altura da construção desta obra de Santa Engrácia que é este Mundo Invertido que tem sempre mais uma rotunda para contornar, tipo Viseu, deixei de me preocupar com isso. Assim foi com este plano que nos explicam tão explicadinho, que até fazem desenhos. Vou-vos dizer: assumi para mim mesma que não estava a acompanhar a 100% e, eventualmente, poderia não estar a perceber bulhufas. Mas de uma coisa não abdico: divirtam-me no caminho. E foi com esse mindset que me atirei ao episódio final, na manhã do primeiro dia de ano, sem vestígio de ressaca no bucho. Só um galão e um sonho. Para que não haja dúvidas, estou a falar do frito de Natal com açúcar e canela. Não o sonho no sentido de objetivo de futuro idealizado. Este ano nem passas comi, vejam lá. Estou ou não estou a ficar uma boa velha cínica? Talvez não. Tendo em conta o que vou relatar no parágrafo a seguir.

▲ Neste final, Dustin só mostrou como nunca foi um erro escolhê-lo como preferido

Deixem-me então apresentar os seguintes números: 0:55, 1:12, 1:18 e por aí adiante. O que é isto? Um enigma, uma equação para encontrar um easter egg, o código do cofre dos Duffer Brothers, que já deve estar ao nível de dar umas braçadas de mariposa nas notas, como o tio Patinhas? Errado! São os momentos em que chorei ao longo do episódio. Sendo que a partir do hora e dezoito parei de tomar nota, porque acho que este rio de lamechice não chegou a secar. Foi só alternando entre a fungadela discreta e o soluçar descompensado. Portanto, a velha cínica suspendeu atividade durante pouco mais de uma hora e deixou-se levar pelos sentimentos.  Talvez por isso este fim me tenha agradado, sendo tudo menos consensual. Posso até sentir-me um pouco usada, porque percebo que os autores tiraram proveito do vínculo criado com esta miudagem ao longo dos anos. Mas também é mérito deles que esta relação de 9 anos tenha chegado ao fim em 2025 com tão boa saúde.

Há várias coisas a apontar a este final. É ligeiramente manipulativo, como já referi acima. Há muita personagem para dividir o fim e, claramente, umas foram filhas e outras foram enteadas e foram encostadas para canto sem um abraço ou um cafuné, como é o caso da Kali e da Dra. Kay (será alguma coisa contra a letra k? Uma superstição? Será que os Duffer Brothers também não gostam de kiwis. Desculpem, foi desnecessário). É muita gente para despachar, enquanto se garante a sobrevivência do planeta, um final feliz para os casais mais shippados e uma relativa coerência com a história. Não fazendo spoiler, há quem diga que faltou coragem aos irmãos para entregar o banho de sangue e o final sem misericórdia que andaram a prometer nas entrevistas. Parece-me que perderam uma boa oportunidade de ficar caladinhos e eu, como não quero estragar o fim a quem não viu, não vou entrar em mais pormenores.

▲ A série sempre se assumiu como uma homenagem e fazer isso é, também, assumir os clichés e este desfecho é muito isso

No plano mais geral, o final agradou-me, apesar de, no almoço de ano novo, ter exibido uma cara de ressaca emocional que não ficou muito atrás de outras exibidas noutros períodos mais etílicos da minha vida e vou dizer-vos porquê. Stranger Things está pejado de momentos de homenagem a clássicos dos anos 80, mas no desfecho não poupou uma referência que seja e isso aquece-me o coração. Do Star Wars, ao Poltergeist, passando pelo E.T. e o Indy. Já para não falar da Nancy, a sua permanente e a falta de uma distância socialmente aceitável entre ela e o mega-monstro é Sigourney versus Alien cuspido e escarrado. E aquela cena no terraço quase final no terraço, de promessa de amizade eterna entre os jovens mais velhos, com um aroma intenso a The Breakfast Club. Uma delícia. A série sempre se assumiu como uma homenagem e fazer isso é, também, assumir os clichés e este desfecho é muito isso: há sempre um dos amigos que acaba a ser narrador, porque enveredou pela escrita; o outcast que acaba por sacar a miúda popular; o discurso de fim de curso com a moral da história “Quando conhecemos pessoas diferentes de nós, começamos a aprender mais sobre nós. Mudamos. Crescemos. Sou uma pessoa melhor”.

Finalmente, passe o pleonasmo, um final… assim. Mas, noves-fora-nada, chorei, ri, chorei, outra vez, tremi de nervos, lancei aqueles “oooohhhhhh!” e dei por mim com aquele sorriso meio apalermado na cara de pura satisfação. O Derek ganhou o meu coração, a Erica idem idem aspas aspas e o Dustin só mostrou como nunca errei ao escolhê-lo como preferido. Curiosamente, todos têm momentos que envolvem vernáculo e/ou piretes avulsos… Curioso. Tudo isto regado a David Bowie, Pixies and, the one and only, Prince. Está tão certo, que não pode estar errado. Esta frase quis dizer alguma coisa? Não. Mas está cheia de sentimento, que foi o que eu ganhei a esta história, a estes pequenos, a este Mundo e ao Invertido e ao Outro e a mais além. E fazerem isto a esta velha raposa, numa manhã do primeiro de Janeiro tem que ter o seu mérito. E seria cínica se dissesse o contrário. Mais ainda.

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