O governo estadual de Lagos, na Nigéria, ordenou a abertura de uma investigação às circunstâncias da morte do filho de Chimamanda Ngozi Adichie, após a escritora acusar o hospital privado em que a criança foi assistida de negligência.

Nkanu, um dos gémeos de 21 meses de Chimamanda Ngozi Adichie (que tem ainda uma outra filha de nove anos), faleceu na semana passada, na sequência de uma infeção não especificada. Numa nota pública, o executivo da capital nigeriana expressou o seu pesar pela “perda dolorosa e irreparável” da premiada escritora e descreveu a morte de uma criança como “uma profunda tragédia”, apontando de seguida para um “compromisso” com a justiça.

“O Governo do Estado de Lagos valoriza ao máximo a vida humana e mantém tolerância zero para negligência médica ou conduta antiética em qualquer instituição de saúde que opere no Estado. Em linha com este compromisso, o Governador do Estado de Lagos, Babajide Sanwo-Olu, instruiu a Agência de Monitorização e Acreditação de Instituições de Saúde a iniciar imediatamente uma investigação completa, independente e transparente sobre as circunstâncias que envolveram o incidente”, lê-se no comunicado.

A morte de Nkanu ocorreu na véspera da sua transferência para o hospital Johns Hopkins, em Baltimore, nos Estados Unidos para tratamento adicional. Em algumas mensagens de Whatsapp trocadas num grupo pessoal — que entretanto se tornaram públicas e cuja autenticidade foi confirmada por representantes da família —, a escritora atribuiu a morte do filho a uma sobredosagem na administração de um sedativo por um anestesista do hospital privado Euracare.

“De repente, o nosso lindo menino foi-se para sempre”, escreveu Chimamanda Ngozi Adichie, acrescentando: “É como viver o seu pior pesadelo. Nunca vou sobreviver à perda do meu filho“. Em causa estará a administração de um sedativo para a realização de uma ressonância magnética, com a escritora a suspeitar de uma “dose excessiva de Propofol” pelo anestesista. Após essa circunstância, a situação clínica agravou-se rapidamente, derivando em convulsões e uma paragem cardíaca.

Todavia, a Euracare (entidade gestora do hospital privado) já reagiu às suspeitas e alegou que o menino tinha chegado em estado crítico e que “a sugestão de que esse trágico desfecho foi resultado de negligência médica é errónea”, sublinhando estar em curso uma investigação interna sobre este caso.

Apesar dessa investigação interna, o governo estadual de Lagos adiantou também que as autoridades já visitaram as instalações médicas para recolher informações sobre a morte da criança. “A Agência trabalhará em estreita colaboração com o Conselho Médico e Dentário da Nigéria (MDCN) e outros órgãos reguladores relevantes no decorrer da investigação, a fim de garantir um processo de revisão holístico, credível e profissional”, referiu o comunicado.

“A investigação analisará as alegações apresentadas, incluindo o cumprimento dos protocolos clínicos estabelecidos, a conduta profissional, as normas de segurança dos pacientes e as funções e responsabilidades de todas as partes envolvidas. As conclusões da investigação serão tornadas públicas assim que o processo for concluído, no interesse da transparência e da responsabilidade pública”, concluiu o governo estadual de Lagos, assegurando que os eventuais responsáveis serão levados à justiça.

Entretanto, também a Sociedade Nigeriana de Anestesistas (NSA) manifestou vontade de se constituir assistente no inquérito em curso. “A alegada negligência médica parece ter-se centrado no médico anestesista que fez parte da equipa que realizou o procedimento para facilitar a ressonância magnética. Nesse sentido, a NSA recomenda veementemente que um médico anestesista sénior e experiente seja cooptado para o painel de investigação”, resumiu o presidente do organismo, Alhassan Mohammed.

Conhecida pelas obras Americanah, Meio Sol Amarelo ou A Cor do Hibisco, além de outros títulos de não ficção, Chimamanda Ngozi Adichie voltou em 2025 à ficção com o lançamento do romance Inventário de Sonhos, considerado em vários meios de comunicação um dos melhores livros do ano passado.

“Inventário de Sonhos”: a arte grandiosa de Chimamanda