Chimamanda Ngozi Adichie é hoje uma das mais amplas autoras do mundo. Entre ficção e não-ficção, o seu trabalho estende-se entre vários temas e identidades, cruzando-os. Na sua literatura, não há caminhos a direito: através de uma prosa escorreita, a autora cria personagens que são cenários, e cenas que mostram países e a história dos países. Em cada página, há densidade; em cada pequeno elemento, há um contexto veiculado.
O seu papel na literatura é singular e este Inventário dos Sonhos, publicado doze anos após Americanah, é disso exemplo, pela amplitude que traz ao espaço do romance. No livro, cuja edição portuguesa conta com quase 600 páginas, Adichie conta a história de quatro mulheres, sempre de forma abrangente, quase caleidoscópica, situando-as emocional e socialmente. Em cada pormenor, estão questões de classe e de raça.
Começamos com Chiamaka, personagem que traz uma clareza surpreendente, partindo do seu pequeno núcleo para dizer tanto sobre o mundo – e sempre sem parecer que há um intuito de mostrar, de explicar, de ensinar. Parece só que a prosa flui e, à medida que o faz, expõe e concatena o mundo não só tal como é, mas também como foi antes. Volvido o tempo, e pela voz narrativa da personagem, conta-se um romance vivido com um homem branco americano. A história inclui sempre cogitações, com a personagem sempre a reflectir sobre isso, ao invés de apenas dar a acção. Ali, havia a carga da dinâmica de sexo e de raça, mas sobretudo de classe, e ainda a da distância emocional entre ambos, que é o que dá sumo à narrativa.
Há ainda um capítulo escrito pela voz de Zikora, advogada que cria um filho a sós, após o abandono do pai, negro de classe alta, que virara as costas perante o cenário da paternidade. Por sua vez, Omelogor, banqueira nigeriana, ida de Lagos para os Estados Unidos, depara-se com outra vida. Habituada aos dias da elite nigeriana e tendo sido transferida para um banco norte-americano, vê-se enfim como imigrante. Finalmente, temos Kidiatou, personagem inspirada na mulher que acusou Strauss-Kahn, ex-director do FMI, de violação sexual.
Tudo isto parece dar quatro vidas diferentes, mas dá muito mais do que isso: cada personagem é um eixo capaz de dar uma facção da vida. Com Chiamaka, por exemplo, à medida que a acção se expande para o núcleo de Darnell, o tal namorado, aparecem outras personagens que definem um estilo de vida, ou um estado do mundo. Com elas, a autora traz a coetaneidade para o centro da história, com os seus temas habituais, esses que hoje criam debates e sub-grupos urbanos. Ao mesmo tempo, explora-se um certo extremismo maniqueísta ligado às identidades.
Os amigos de Darnell eram o tipo de pessoa que acreditava saber muito. As suas conversas eram sempre besuntadas de queixas: era tudo ‘problemático’, até as coisas que aprovavam. Eram tribais, mas de forma ansiosa, rondando-se uns aos outros, vigiando-se uns aos outros, à cata de um defeito, uma falha, uma sabotagem incipiente. Eram irónicos a respeito de gostarem do que gostavam, por medo de gostarem daquilo que não era suposto que gostassem, e eram incapazes de sentir admiração, e como tal criticavam as pessoas que podiam simplesmente ter admirado.” (p. 40/41).
– Nem acredito que cedi e arranjei um iPhone. A Apple é tão problemática – disse Shannon, com o telefone na palma da mão como uma oferenda relutante.
– O projeto da Apple pretende homogeneizar os nossos pensamentos e ações. Não tem nada que ver com libertar a criatividade ou resolver problemas, é um plano para alcançar a conformidade de massas e a banalidade de massas. De certa forma, segue em paralelo à heteronormatividade” (p. 44)
O olhar, que é o de Chiamaka, não deixa de ser irónico, e a ironia atinge o leitor, que se depara com uma visão que parece estereotipada, uma criação das personagens que parece levar ao texto um ar jocoso. A questão é que, como as personagens vêm calibradas, sabem a gente que engoliu a cartilha de um estereótipo. Isso implica mestria da parte da autora, que, através da narradora, mostrando os diálogos, deixando as personagens em cena, mostra vidas e cogitações que são criadas em relação a um “como deve ser” em vez de a um “como é”. Tudo isto, além de pôr em cena várias situações económicas, mostra ainda uma batalha pela linguagem e ainda uma vontade de trazer para qualquer cenário quotidiano um substrato histórico. Exemplo disso é um táxi que Chiamaka apanha no México, e cujo valor leva a que uma das amigas de Darnell lhe diga que serviria para alimentar durante um ano as crianças das montanhas. Tudo isto tem a sua imprecisão – quantas crianças, quais montanhas –, mas tudo isto tem ainda a graça que traz o medo permanente de algum desvio ideológico, de alguma acção que não cogite todas as injustiças ou desigualdades. Além disso, o poder económico de Chiamaka está sempre na linha da frente, com o namorado a sentir-se ameaçado, e até a reagir mal aos presentes ou a alguma dose de luxo, ainda que não deixe de os aceitar.
Título: “Inventário de sonhos”
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Tradução: Elsa T. S. Vieira
Editora: D. Quixote
Páginas: 592
Tudo isto são camadas a que Adichie dá corpo e valor. E nada disto tem, em momento nenhum, um intento de catequizar ou politizar em demasiado. Pelo contrário, há elementos sociais que são não apenas elementos internos da construção da narrativa, mas também elementos internos da construção da psique e dos estados emocionais das personagens, e tudo flui sem solavancos. O ponto mais político, embora a política sirva mais de contexto, que se funde com o texto, é o da história de Kidiatou. Com ela, não saímos do núcleo íntimo, uma vez que o olhar que a autora leva ao romance é sempre o da exploração da intimidade, mas a autora permite-se usar outro tipo de exploração: com um pendor mais abrangente, em que se metem as estruturas de poder e as hierarquias de valores, mostra de que forma as trabalhadoras domésticas são não só exploradas mas também objectificadas. Com isto, a autora mostra um sistema hierárquico que define um papel no mundo, mas nunca larga a posição de Kidiatou, o que significa que nunca faz com que o panorama ganhe à imagem micro, com que a análise sistémica ganhe à criação da intimidade da personagem. Com isto, nunca o romance cede perante a ideia de um panfleto. Em vez disso, vive da vida real, e dos seus desequilíbrios, para criar densidade emocional e psicológica, ganhando uma relação empática com os leitores.
Inventário de Sonhos é, por isso, um olhar sobre a própria vida – os amores mal amanhados vistos à distância, a clareza que o tempo traz, as escolhas feitas e os motivos e as consequências, o desfasamento de expectativas, a necessidade de vida interior e a prova de que o que tem de ser tem muita força. O romance não se afunila num tema ou num aspecto, nem sequer em quatro. Em vez disso, explora vidas, e tudo ali dentro é amplo, tudo tem tentáculos. Os diálogos são compostos por gente a falar, a voz narrativa adapta-se à boca, às circunstâncias, e a mão que tece cenários leva-os para fora da página. Por isso, o novo romance de Adichie é grandioso – não pelo tamanho, que não é coisa pouca, mas pela forma como, traçando cenários, a autora se mete nos temas que são importantes à humanidade, como o amor, a esperança, a rejeição, a expectativa, o poder, as crenças.
Além disso, com os tais tentáculos, a autora continua a explorar temas que já provou que lhe eram caros. Por exemplo, em Americanah (2013) tínhamos uma jovem nigeriana que se mudara para os Estados Unidos a servir de eixo de cruzamento de questões de identidade racial e cultural. Ali chegada, Ifemelu depara-se com situações de racismo com que nunca se deparara no seu país-natal, assumindo essa forma de discriminação um papel central na sociedade. Com isto, a autora explorou a vida da diáspora africana, e aqui voltou ao seu papel de dar espaço central à intimidade, uma vez que o fez partindo da sensação de se ser estrangeiro, ao mesmo tempo que levou um olhar irónico à fantasia do sonho americano, no livro desmontado. O novo romance está uns furos acima deste penúltimo, uma vez que é mais amplo e que tem um sarcasmo mais fino e apurado.
Já no seu primeiro romance, Purple Hibiscus, publicado em 2003 pela Algonquin Books, e em Portugal em 2019 pela D. Quixote (A Cor do Hibisco), a autora mostrara a sua tendência para criar personagens que veiculassem mais do que situações meramente pessoais, fechadas no espaço doméstico sem situação com a vida extra-paredes. Assim, criou Kambili, uma adolescente que vive sob o jugo de um pai repressivo, religioso, violento. Estamos na Nigéria pós-colonial, e a opressão familiar dá o braço ao fundamentalismo e a um ambiente em que a repressão política sonega tudo o que há à volta. Para mais, o ambiente de privilégio (vida de luxo, residência num casarão) parece contrastar com a vida de reclusão, de horários rígidos que incluem muito tempo a rezar, o que faz com que o dia-a-dia seja tenso. Para mais, o pai tem expectativas para a família que não só são exigentes como são irreais, e pune-os quando não são atingidas. Aquando de um golpe militar que põe a segurança da Nigéria em risco, Kambili, com o irmão, acaba por passar um tempo com Ifeoma, sua tia, e aí entra em contacto com uma vida nova: as regras não são estanques, os livros não são proibidos, o silêncio não é imposto e o pensamento é mais progressista, desligado da rigidez do conservadorismo fundamentalista do pai. Contrapondo dois mundos, de repente em luta pelo entendimento de uma adolescente, Chimamanda criou um cenário em que o controlo mental molda uma família, não deixando de perspectivar uma alternativa política, social e individual. Usando a personagem principal como um eixo catalisador da acção, a autora põe em cena o impacto do colonialismo na Nigéria, tanto na esfera pública – política – como privada – doméstica.
Em Meio Sol Amarelo, publicado em 2006, a autora continuou neste caminho, desta vez focando-se na Guerra do Biafra (1967-1970), catapultando para os palcos da literatura mundial a transformação da Nigéria. Através de três personagens, a autora explorou não só a desumanidade da guerra – com o que tem de humano, de poder, de atroz –, mas também a intimidade das personagens perante o caos, fosse a jovem que escolheu o amor, o menino que trabalha como criado ou o escritor britânico interessado na cultura igbo. Pegando num evento histórico potente, a autora criou o romance partindo de vozes, mostrando a forma como os grandes eventos históricos têm impacto dentro de casa, dentro da singularidade de cada vida.
Enfim, com tudo isto se mostra que a obra de Chimamanda Ngozi Adichie não se confina numa vida, numa perspectiva, numa personagem, num país. Em vez disso, os seus livros sabem ao movimento em que os fios do mundo parecem tecer-se e concatenar-se enfim. A prosa serve sempre a história: é funcional, dinâmica, permite cogitações sobre as personagens e vê-las em acção, e permite ainda, com frequência, uma primeira pessoa que dá, em simultâneo, um olhar para dentro e para fora.
A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico.