“A Cronologia da Água”
A estreia de Kristen Stewart a realizar longas-metragens é uma adaptação do livro autobiográfico homónimo da escritora Lidia Yuknavitch, vítima, na juventude, e juntamente com a irmã, de abuso sexual por parte do pai, perante o alheamento da mãe, e cuja carreira como nadadora olímpica foi truncada pela queda na bebida e nas drogas. Yuknavitch é interpretada por Imogen Poots e Stewart conta a sua caótica e desgraçada história com um comprazimento quase doentio nos detalhes mais íntimos e desagradáveis, recorrendo, até à exaustão, a toda a estenografia visual do destrambelhamento mental e emocional, e do desamparo existencial, bem como a cansativos malabarismos de montagem. Formalmente, do que Kristen Stewart se lembrou em A Cronologia da Água, já antes dela todo um cinema americano indie com tiques de vanguarda se esqueceu. E nem falta o estereótipo piedoso da “salvação pela arte” — no caso vertente, a escrita.
“Primata”
Parece que não passa uma semana sem se estrear um mau filme de terror. O desta semana é Primata, de Johannes Roberts (47 Metros de Terror, The Strangers-Predadores da Noite). É a velha história do macaquinho simpático e inteligente que um acontecimento imprevisto transforma em hostil e letal — e que já foi muito mais bem contada em Link, de Richard Franklin (1986), ou Atracção Diabólica, de George A. Romero (1988). Primata ambienta-se no Havai, onde uma rapariga que regressou a casa para as férias de Verão, aproveita a ida do pai para fora para organizar, com a irmã, uma festa para os amigos. Só que Ben, o afável chimpanzé de estimação da família (um ator dá-lhe vida, com a ajuda de tecnologia de motion capture) é mordido por um animal raivoso e começa a espalhar o medo e a morte pela propriedade. Resultado: hora e meia de lugares-comuns de terror símio. A culpa é muito menos do animal do que dos argumentistas.
“Marty Supreme”
O segundo filme a solo de Josh Safdie, e primeiro desde que rompeu, em 2024, a parceria com o seu irmão Benny, passa-se em 1952, em Nova Iorque, e tem Timothée Chalamet na figura de Marty Mauser, um jovem campeão de ténis de mesa e fura-vidas amoral (a personagem é inspirada numa pessoal real), que quer chegar à fama e à fortuna a todo o custo, sem se importar com quem manipula, pisa ou magoa na sua ascensão. Marty chega mesmo a assaltar à mão armada a sapataria do tio em que trabalha, para que este lhe dê o dinheiro que lhe deve e lhe vai permitir comprar o bilhete de avião para Londres, onde se realiza o Campeonato Mundial de Ténis de Mesa, que pretende ganhar. Mas esta é apenas a primeira peripécia no frenético percurso de Marty, que chegará a levá-lo ao Japão e a envolvê-lo com um mafioso brutal. Marty Supreme foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.