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"Pecadores" e os Óscares: estes vampiros ganharão tudo ou ficarão com nada?

Este artigo tem mais de 6 meses

É o filme mais nomeado da História dos Óscares, mas a concorrência ameaça em todas as categorias. Ryan Coogler, autor e realizador, já ganhou, mas será que haverá surpresas com política à mistura?

O filme começa por ser a história de dois irmãos gémeos (interpretados por Michael B Jordan) que abrem um clube de blues na terra onde nasceram, fustigada pela segregação. Mas o enredo é muito mais do que isso
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▲O filme começa por ser a história de dois irmãos gémeos (interpretados por Michael B Jordan) que abrem um clube de blues na terra onde nasceram, fustigada pela segregação. Mas o enredo é muito mais do que isso

▲O filme começa por ser a história de dois irmãos gémeos (interpretados por Michael B Jordan) que abrem um clube de blues na terra onde nasceram, fustigada pela segregação. Mas o enredo é muito mais do que isso

16 nomeações para os Óscares. Um recorde absoluto — o mais próximo foram os filmes com 14 hipóteses de levar para casa uma estátua careca: All About Eve (1950), Titanic (1997) e mais recentemente La La Land (2016). A cerca de seis semanas da cerimónia de 2026, Pecadores (Sinners, no original) já pode considerar que fez História. Mas há quem garanta que vai ser muita parra para pouca (ou mesmo) nenhuma uva. Afinal, poderá este ser o grande perdedor da noite? Que chances reais tem? E que filme é este, atualmente disponível na HBO, que recolhe fascínio e estranheza em doses semelhantes?

Obra escrita e realizada por Ryan Coogler, o mesmo da saga Marvel de Black Panther, Pecadores é um filme de terror musical. Descrito assim seria meio caminho para afastar espectadores com particular antipatia por ambos os géneros, e por isso Pecadores fez o caminho ao contrário. Apresentou-se com o drama de dois irmãos gémeos (ambos interpretados por Michael B. Jordan, aqui a tentar com sucesso ser mais do que um palminho de abdominais), que enriqueceram em Chicago ao ajudarem a máfia e que agora regressam à sua terra, num ambiente mais rural, para tentarem vingar com um clube de blues em plena América de Jim Crow, pautada pela segregação racial. Só que lá para meio do filme percebemos que, não só há vampiros, como a música interpreta um papel fulcral no modo de contar esta história (apesar de considerar a etiqueta de “musical” exagerada — e, se ainda não viu e está com algum receio, não se preocupe, está a anos-luz da cantoria desenfreada de um Mamma Mia).

A parte do terror, essa sim, é impossível de escapar. Pecadores coloca-se no pós-Twilight para trazer os vampiros de volta aos seus trâmites habituais: uma metáfora para o mal que se esconde e que pode transformar qualquer um a qualquer momento. E se os vampiros no cinema existem pelo menos desde 1922, com Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens de Murnau, talvez esta simbologia seja neste momento mais relevante do que nunca, numa América em que a raça e o ICE estão a mostrar uma face nova (mas não tanto surpreendente) dos Estados Unidos. Pecadores recupera o cânone do que é um vampiro, sem corpos a brilhar de glitter (sim, o Twilight fez o que quis a troco de suspiros adolescentes): uma criatura que não envelhece, só vive de noite, suga sangue para se alimentar e criar novos vampiros, que pode ser morta com alho e estacas e que — e esta parte é muito importante no filme de Coogler — só pode entrar num recinto se for convidada para tal.

E pode um filme de terror ganhar os Óscares? Bom, os cinco prémios de Silêncio dos Inocentes (que em 1991 ganhou os Big Five: Filme, Ator, Atriz, Argumento e Realizador) dizem que é possível, mas não comum. Já em 2017, Get Out teve nomeações com uma longa-metragem que também mistura o tema da raça com os paradigmas dos filmes assustadores (viria a ganhar o de Argumento Original). Pecadores estreou-se em sala em março do ano passado, de modo mais ou menos discreto, e talvez poucos achassem que viria parar aos envelopes de nomeados, mas o passa-a-palavra acabou por torná-lo num dos filmes mais importantes do ano. Agora, está em streaming na HBO no tempo certo.

▲ "Pecadores" é um filme de terror musical. Descrito assim seria meio caminho para afastar espectadores com particular antipatia por ambos os géneros, mas o caminho é feito ao contrário

Surpresa para os Velhos do Restelo: muitos em Hollywood achavam que o filme nunca iria dar lucro e que era uma aposta demasiado arriscada numa fase em que os grandes estúdios já andam fragilizados. A Warner Bros não só deu um orçamento de quase 100 milhões de dólares, como aceitou termos de autoria excecionalmente favoráveis, que dão ao realizador controlo sobre o corte final do filme e a plena titularidade dos direitos após 25 anos. Curioso pensar que o outro grande favorito do ano, Uma Batalha Após a Outra, também foi encarado como um barco ao fundo na grande Batalha Naval dos estúdios (terá perdido 100 milhões), apenas para ser o filme que mais rivaliza com Pecadores para levar o Óscar de Melhor Filme.

O argumento de Pecadores demorou apenas dois meses a ser escrito (um fósforo em tempo de Hollywood, um luxo para quem escreve em Portugal), mas o TPC de Coogler estava a ser feito há muito tempo. Foram anos de investigação sobre o folclore do Delta do Mississippi e a história dos blues, assim como a Grande Migração, a maior migração interna da história dos Estados Unidos à época. Milhões de afroamericanos a abandonaram o Sul rural em direção ao Rust Belt e ao Sun Belt, à medida que a segregação se intensificava no início do século XX. Entre 1910 e 1940, cerca de dois milhões de pessoas terão deixado o Sul dos EUA. De fora do guião também não ficou a imigração chinesa, raramente retratada. E em tempos de convulsão nos Estados Unidos, ninguém sabe por onde andará a política nas decisões da Academia.

▲ A parte do terror, essa sim, é impossível de escapar. Pecadores coloca-se no pós-Twilight para trazer os vampiros de volta aos seus trâmites habituais: uma metáfora para o mal que se esconde e que pode transformar qualquer um a qualquer momento

Então, porquê o discurso recorrente entre críticos e cinéfilos de que Pecadores pode ser o perdedor da noite? À cabeça, três linhas de raciocínio. Primeiro: a Academia não tem tido tendência para premiar de caras os grandes favoritos, com surpresas recentes como CODA, Parasitas ou mesmo Anora a conquistarem Melhor Filme. Segundo: muitos ainda se lembra do desaire de A Cor Púrpura, o filme de 1985 que detém o recorde de mais nomeações aos Óscares sem uma única vitória, 0 em 11 na 58.ª cerimónia da Academia — são filmes muito diferentes, mas com temas e reputações semelhantes. Terceiro: numa altura em que nunca houve tão pouca gente a ir ao cinema em Portugal, Pecadores aparece num ano de forte concorrência em todas as frentes. Melhor Ator tem Wagner Moura e Ethan Hawke como favoritos; Uma Batalha Após a Outra já ganhou Melhor Filme noutras cerimónias; Melhor Canção conta com o sucesso estrondoso de K Pop Demon Hunters (curiosamente, um filme muito diferente, mas que também junta música e figuras demoníacas escondidas entre os mortais).

Óscares: “Pecadores” lidera com 16 nomeações. Ator brasileiro Wagner Moura e filme “Agente Secreto” também estão nomeados

Mas e se Pecadores perder, é assim tão importante? Provavelmente, não. Já conseguiu o seu lugar como obra que mostra como Ryan Coogler é alguém a ter debaixo de olho, capaz de vir a ser um dos grandes realizadores dos próximos anos pela sua visão artística tanto como pela sua capacidade de arriscar e de se juntar a boas equipas. E, suspeito, olharemos para trás para perceber que poucos filmes explicaram melhor o que foram estes anos. O Óscar é só um laçarote bonito num presente cinematográfico. Só é preocupante se perder para essa bombinha de mau cheiro que é o F1.

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