Robert Moreno é uma das figuras mais controversas dos últimos anos do futebol espanhol. Adjunto de Luis Enrique na Roma, no Celta Vigo e no Barcelona, foi com ele para a seleção de Espanha e serviu como substituto durante os cinco meses de ausência do treinador devido à doença e morte da filha. Quando regressou, Luis Enrique disse que Robert Moreno era “desleal” e “excessivamente ambicioso”. Agora, bem longe de Espanha, volta a estar no olho do furacão.
Atualmente com 48 anos, Robert Moreno treinou o Mónaco e o Granada depois de ser selecionador interino de Espanha, ambos por curtos períodos e sem grande sucesso. Em dezembro de 2023, aceitou o convite do Sochi e mudou-se para a Rússia — não evitou a despromoção ao segundo escalão russo nessa temporada, subiu na época seguinte e acabou despedido no passado mês de setembro e com apenas um ponto conquistado nas primeiras sete jornadas do Campeonato.
Quase três meses depois da morte da filha, Luis Enrique regressa ao comando da seleção espanhola
Agora, vários meses depois de Robert Moreno ter deixado o clube russo, os responsáveis do Sochi revelaram que a saída do treinador espanhol não esteve unicamente relacionada com os maus resultados. Na verdade, segundo o agora também antigo diretor desportivo, Moreno ficou sem emprego por ser totalmente dependente da inteligência artificial e de ferramentas como o ChatGPT, que utilizaria para desenhar sessões de treino, planificar as viagens da equipa, recomendar contratações ou preparar os aspetos técnicos e táticos de cada jogo.
“Se fosse apenas mais uma ferramenta, por que não? Mas para o Moreno o ChatGPT chegou a ser uma das ferramentas principais”, explicou Andrei Orlov numa entrevista recente ao portal Sports Russia. Na mesma conversa, o antigo diretor desportivo do Sochi recordou também um episódio de uma deslocação a Khabarovsk, bem perto da fronteira com a China, em que a inteligência artificial terá recomendado que os jogadores treinassem às 7h da manhã, dois dias antes do jogo, e permanecessem acordados durante as 28 horas seguintes.
Segundo o antigo diretor desportivo do Sochi, Artur Shushenachev foi contratado com base na escolha da inteligência artificial
“Quando estávamos a preparar a viagem, o Robert disse: ‘”Já tenho tudo planeado, inseri todos os parâmetros da viagem no ChatGPT’. Olhei para a apresentação e vi que os jogadores não podiam dormir durante 28 horas. Perguntei: ‘Robert, isto é tudo muito bonito, mas quando é que os rapazes vão dormir?'”, lembrou, acrescentando que a decisão causou incompreensão e mau estar dentro do balneário.
No que toca à política de contratações e ao próprio scouting de jogadores, o caso mais paradigmático aconteceu quando o Sochi queria contratar um novo avançado. Vladimir Pisarsky, Pavel Meleshin e Artur Shushenachev eram os três jogadores na shortlist dos russos e Robert Moreno recorreu novamente à inteligência artificial para escolher um deles, colocando todos os dados dos três atletas no ChatGPT — que acabou por decidir que Shushenachev era a melhor opção. O avançado cazaque de 27 anos, que vinha do Hapoel Be’er Sheva de Israel, não marcou qualquer golo pelo clube.
“No final, o núcleo russo do plantel estava muito descontente com o treinador e os estrangeiros também já não confiavam nas ideias dele. Não demonstrava qualquer empatia pelos adjuntos ou pelos jogadores e as pessoas sentiam isso”, indicou Andrei Orlov. Confrontado com as acusações do antigo clube, Robert Moreno deu uma entrevista ao jornal espanhol La Razón onde rejeita ser dependente da ajuda da inteligência artificial.
⚽️ In Russia, a football coach relied heavily on ChatGPT to prepare his team — and the club got relegated to a lower division
According to statements from the club's former deputy general direct, FC Sochi head coach Robert Moreno actively used AI in his work with the players.… pic.twitter.com/BCC0F7QRf5
— NEXTA (@nexta_tv) January 23, 2026
“Nunca utilizei o ChatGPT ou qualquer inteligência artificial para preparar jogos, decidir onzes ou escolher jogadores. Como qualquer equipa técnica profissional, utilizamos ferramentas de análise (vídeos, dados, ‘scouting’) para organizar informação, mas as decisões desportivas e humanas são do treinador e do staff. Não é um ‘chat’ que prepara os meus jogos ou escolhe os meus jogadores”, começou por referir o treinador, que ainda não voltou a treinar desde que deixou a Rússia.
“Sobre o suposto avançado mencionado, apresentá-lo como uma ‘escolha do algoritmo’ não é rigoroso. A sua contratação foi um processo do clube, liderado pela direção desportiva e validado desportivamente pelo treinador. Teve um período de lesão que condicionou a continuidade, como acontece em qualquer equipa”, justificou.