Os jogadores de poker têm várias táticas para ganhar jogos, o que, em parte, implica um abraço fraterno entre matemática e estatística: as cartas que saíram, a probabilidade de um full house estar ali nas mãos daquele zé caladinho no canto esquerdo. Porém, enquanto uma parte do cérebro faz contas mais complexas do que as de um merceeiro, toda uma outra zona — mais reptiliana — da massa encefálica entra em ação e procura o “tell” do adversário, o sinal padronizado que um jogador emite quando está a fazer “bluff” (tocar nos óculos, coçar a orelha, etc).

Sinais têm significado num processo – sinais desvendam o significado de um processo, e a revelação de um sinal pode significar que o contexto em que esse sinal surge é, afinal, diferente do aquele que assumiríamos. Em Secret Love, o disco mais recente dos Dry Cleaning, tudo fica mais claro logo em Hit My Head All Day, a faixa de abertura: Florence Shaw começa por cantarolar, muito semi-oticamente, que Life é uma série de “memorials and signals” e, até aqui, isto é exatamente o que esperamos deles: a banda monta calmamente um groove insistente, quase mecânico, Shaw praticamente fala, não canta, até que diz “I don’t know you / I want to explode / Hit my head all day”.

A tensão acumula-se lentamente, e ela repete uma frase. “I simply must have experiences”, enquanto enumera pequenas coloquialidades, que a maior parte de nós não se lembraria de comunicar: “I’m using make up”, “When I was a kid I wanted to be a horse”. Algo mudou, talvez a própria voz, que costumava ser absolutamente distante (atenção ao advérbio de modo): há algo em Hit My Head All Day em que Shaw deixa claro que o mundo a perturba, que a altera; o que significa que ela não é mais a observadora irónica de discos anteriores e está implicada no que está a ser cantado – como se tomasse consciência de que um discurso (qualquer discurso) é uma cerca que limita a nossa apreciação emocional da relação que estabelecemos com o mundo, e quisesse quebrar a cerca, quisesse (gulp) sinceridade.

Sinceridade não é uma palavra que tivéssemos associado aos Dry Cleaning até aqui – o modus operandi implicava que bateria e baixo funcionassem de forma quase robótica, como uma reminiscência quase exótica da motorika dos Can; as guitarras não eram propriamente serras, antes x-atos a percorrer lentamente a pele; e Shaw não cantava, falava, enquanto observava à distância o mundo. Em “My soul / half pint” ela tenta cantar; as palavras que canta são: “I feel resentment / in my soul”. Isto é uma mudança fundamental: os Dry Cleaning já não estão só a descrever o mundo moderno com distância clínica, estão a admitir que o mundo os afeta, que entra pelas canções. (Se é me é permitido: ajuda que aquela linha de guitarra entre em processo de disfunção, no fim da canção.)

A bem da honestidade, isto são meias verdades: o tom de distanciamento emocional, observacional, em que os objetos da observação são analisados à distância e não há um compromisso emocional com o observado, mantém-se, sobremaneira; mas a distância falha, há rachas na retina – e a porta de entrada para essa mudança está escancarada em Let me grow and you’ll see the fruit, em que a dada altura Shaw canta “I’m afraid about my privacy” e depois “People move away from me” para acabar em duas frases que não esperaríamos ouvir vindas daquela boca: “I dearly want to make friends” e “Why does the past hurt me so?”. E quando digo que nunca esperaríamos é mesmo nunca.

Para quem acompanhou a banda desde New Long Leg (2021), isto é uma mudança quase-radical. Nesse disco de estreia, era difícil não ver os Dry Cleaning como uma das bandas mais singulares do pós-punk britânico recente: guitarras angulares, baixo e bateria em comunhão seca e funcional, enquanto Shaw se recusava a cantar, antes debitava textos como quem lê notas encontradas num bolso: frases sobre consumo, linguagem corporativa, relações estranhas, pequenas violências sociais. Stumpwork (de 2022) expandiu essa fórmula para algo mais dinâmico, com maior ambição estrutural e alguma melodia a espreitar. Secret Love vai mais longe porque altera o papel emocional da voz – é como se Shaw já não cantasse encerrada numa campânula de vidro.

É possível que esta micro/macro-transformação se deva à produção de Cate Le Bon, cuja sensibilidade art-pop e psicadélica força a banda a sair do seu conforto minimalista. Há mais cores e menor rigidez: Shaw ainda canta com arreios na boca, mas mais lassos. Há espaço, reverberação, instrumentos adicionais (como o saxofone, em “Let me grow and you’ll see the fruit”), e sobretudo uma atenção maior à emocionalidade das canções. Não é um disco mais suave, mas é um disco menos defensivo.

Musicalmente, ainda estamos em territórios do pós-punk, embora menos hermético do que antes – ouvimos ali os Wire, ou os Fad Gadget, mas há pequenos momentos de iluminação em que nos recordamos dos Sundays (não na voz, a voz não chega a libertar-se tanto). Os XTC do início, algumas faixas dos Art of Noise e, no aspeto intelectual, certas canções dos Momus, parecem fazer parte dos ingredientes dos Dry Cleaning desde os inícios.

O trajeto ajuda a perceber esta maturação. Formados em em 2017 no sul de Londres, os Dry Cleaning (Tom Dowse, guitarra, Lewis Maynard, baixo, e Nick Buxton, bateria) já tocavam juntos de forma informal, com vidas paralelas fora da música: trabalho social, ensino, design. Neste baralho, Florence Shaw entrou como amiga de Dowse, sem formação clássica de cantora, mas com uma relação forte com escrita e artes visuais. Não era uma banda que apresentasse credenciais a estrelas rock stars: nunca houve preocupação com branding, redes sociais, criar uma falsa empatia – antes um pé na vida adulta real, nas frustrações quotidianas, no trabalho, na linguagem burocrática.

Mas em Secret Love há uma mudança de temperatura. Canções como Cruise Ship Designer usam personagens e situações para satirizar o privilégio, mas já não soam exclusivamente a observação distante. “My Soul / Half Pint” pega em cenas domésticas – limpeza, expectativas, relações de poder subtis, e transforma-as em algo inquietante precisamente porque a música é relativamente luminosa.

O tema central do disco é a exposição. Secret Love fala de trabalho emocional, de linguagem vazia, de consumo como identidade, mas também de desejo de ligação, de reconhecimento, de crescimento, mesmo quando isso parece ingénuo ou impossível. A já mencionada Let Me Grow and You’ll See the Fruit é exemplar: pela primeira vez, Shaw aproxima-se do canto de forma clara, e a canção soa quase esperançosa, sem deixar de ser estranha. Não é uma redenção; é uma tentativa relutante de.

O final do disco, com Joy, deixa pendurada uma pergunta aberta. A palavra “alegria” surge não como resposta fácil, mas como provocação: o que significa alegria num mundo saturado de estímulos, cinismo e desgaste? Os Dry Cleaning não oferecem soluções. O que fazem é mais interessante: mostram o momento em que a ironia deixa de ser suficiente enquanto escudo contra o mundo.