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António Chainho (1938-2026): o mestre que glorificou a guitarra portuguesa

Este artigo tem mais de 6 meses

Foi um dos mais virtuosos intérpretes do instrumento que endeusou a partir das tascas e que levou aos palcos mundiais. Morreu na casa onde vivia esta terça-feira, no dia em que completou 88 anos.

“A minha música reflete as muitas viagens que fiz, os músicos com quem contactei e com quem trabalhei. Procura o respirar as músicas do mundo”, disse
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▲“A minha música reflete as muitas viagens que fiz, os músicos com quem contactei e com quem trabalhei. Procura o respirar as músicas do mundo”, disse

MIGUEL A. LOPES/LUSA

▲“A minha música reflete as muitas viagens que fiz, os músicos com quem contactei e com quem trabalhei. Procura o respirar as músicas do mundo”, disse

MIGUEL A. LOPES/LUSA

O músico e compositor António Chainho morreu esta terça-feira na casa onde vivia, em Alfragide, nos arredores de Lisboa, no dia do seu 88.º aniversário, confirmou à Lusa o seu agente artístico. O “mestre da guitarra portuguesa” encerrou a carreira de 60 anos em setembro de 2024, tendo nesse ano editado o último álbum, O Abraço da Guitarra, no qual homenageou os que através da rádio foram os seus mestres.

Em entrevista à agência Lusa, na altura, o guitarrista disse: “Homenageio aqueles que foram os meus professores através da rádio, nomeadamente os grandes guitarristas Armandinho, José Nunes, Raul Nery, Francisco Carvalhinho, Domingos Camarinha”. “Olhando para trás, acho que tive a sorte de chegar aos 85 anos e gravar este disco”, afirmou, realçando que “nenhum guitarrista” de fado “gravou um disco depois dos 60 anos”, em nome próprio. “Foi difícil, mas eu consegui aos 85”.

António Dâmaso Chainho nasceu em S. Francisco da Serra, em Santiago do Cacém, no distrito de Setúbal, a 27 de janeiro de 1938, e começou a tocar no meio fadista na década de 1960, depois de terminar o serviço militar obrigatório, durante o qual deu a conhecer os seus dotes musicais numa digressão por Moçambique. “Vim da minha aldeia, S. Francisco da Serra, para Lisboa, em finais do ano de 1965, para tocar no restaurante típico A Severa, no Bairro Alto [em Lisboa]”, recordou à Lusa o músico, que assinalava esta data como o início da sua carreira artística.

Anteriormente, tinha tocado no café do seu pai, datando de 1960 o seu primeiro contacto com o meio fadista, numa taberna na praça do Chile, em Lisboa, quando se apresentou ao serviço militar na capital, para o qual entrou em 1961. Nesse dia, recordou à Lusa, tocou o Fado Lopes, de Mário José Lopes, e saiu de lá em ombros, tal foi o sucesso.

Ao abandonar os palcos e estúdios de gravação, em finais de 2024, o guitarrista e compositor garantiu que estava “em paz” consigo mesmo e “contente” com o percurso artístico que teve a “sorte” de fazer. “Dei a volta ao mundo, toquei em todos os continentes, e acho que me sinto feliz”.

Do seu percurso discográfico, Chainho realçou à Lusa o álbum Guitarra e Outras Mulheres (1998), que gravou com Teresa Salgueiro, Adriana Calcanhotto, Ana Sofia Varela e Elba Ramalho, entre outras intérpretes, e o que gravou, em 1996, com a Orquestra Filarmónica de Londres, sob a direção do maestro José Calvário (1951-2009), que lhe “abriu caminhos por todo o mundo”.

Chainho dividiu a sua carreira em três fases: “A primeira foi aquela em que acompanhei todos os fadistas, profissionais ou amadores, a segunda quando me liguei a dois intérpretes, durante cerca de 30 anos, Carlos do Carmo (1939-2021) e Frei Hermano da Câmara, e, finalmente, a carreira como solista”.

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Apontado como “um dos virtuosos da guitarra portuguesa” pela Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, António Chainho acompanhou nomes como José Afonso, Rão Kyao, Gal Costa, Maria Bethânia, Saky Kubota, Hideco Tchokyba, José Carreras, Maria Dolores Pradera, Paco de Lucía, Kepa Junkera, Sara Tavares, Pedro Abrunhosa, Ana Bacalhau, Rui Veloso, Paulo Flores e John Williams.

Da sua discografia, que se iniciou em 1975 com Guitarradas, fazem ainda parte os álbuns Guitarra Portuguesa (1977), Ao vivo no CCB (2003), com Marta Dias, LisGoa (2010), que contou com a participação de Natasha Lewis, Sonia Shirsat e Remo Fernandes, Entre Amigos (2012), com intérpretes como Camané, Ney Matogrosso e Fernando Alvim, e Cumplicidades (2015), álbum que assinalou os 50 anos de carreira e conta com as participações de Paulo de Carvalho, Fernando Ribeiro, Hélder Moutinho, Pedro Abrunhosa, Paulo Flores, Filipa Pais, Ana Vieira e Vanessa da Mata.

Em 2015, atuou no seu concelho natal, na igreja matriz, no âmbito do Festival Terras Sem Sombra, com o guitarrista alemão Jürgen Ruck, apresentando o programa “O Tempo e o Modo: Diálogos entre Guitarras”. Em 2023, foi publicada a sua biografia, O Abraço da Guitarra, de autoria da jornalista Moema Silva, que definiu a obra à Lusa como “o diário de uma viagem pela [sua] vida e pela música”.

Em relação à sua criação musical, o também compositor disse à Lusa que traduz “mestiçagens, fruto dos contactos com as músicas do mundo”. Por isso também, procurou “traçar novos caminhos para guitarra portuguesa”. “A minha música reflete as muitas viagens que fiz, os músicos com quem contactei e com quem trabalhei. Procura o respirar as músicas do mundo”, disse à Lusa.

▲ António Chainho começou a tocar guitarra portuguesa com 6 anos, por influência do pai.

No princípio, as tascas e as guitarradas

Apesar de ter crescido num meio rural no litoral alentejano, a vocação musical de Chainho foi estimulada desde tenra idade, pela mãe que cantava acompanhada pelos “magníficos dedos” do pai na guitarra, disse em entrevista à Lusa.

O estabelecimento da família, a Tasca do Faúlha, juntava muitos amantes de fado provenientes das redondezas, e foi nesse ambiente que, com 6 anos, António começou a dedilhar as cordas do instrumento que se tornou o seu companheiro de vida. “O meu pai ouvia e depois pegava na guitarra e aprendia… ele tocava bem, dentro do género antigo, os fados corridos, mouraria… e depois ensinou-me os primeiros passos… ”, afirmou Chainho, em entrevista ao Museu do Fado. Com 13 anos, estreou-se diante do público.

Foi na mesma altura que um jovem alentejano chamado António Parreira se começou a interessar pelas guitarradas da tasca dos Chainhos, tendo-se tornado cliente habitual do estabelecimento onde forjou uma relação de grande proximidade com António, com quem passou a partilhar o palco. Parreira na guitarra clássica, Chainho na portuguesa, o duo tocou por três anos, até à inevitável separação por obrigação imposta pelo serviço militar.

Chainho apresentou-se ao serviço em Beja, sendo depois destacado para Moçambique, onde a fama que tinha como guitarrista o poupou aos maiores horrores do conflito colonial. Começou a ser solicitado para acompanhar artistas que atuavam no ultramar, onde viveu um período de intensa atividade musical, área em que se profissionalizou em 1961.

De regresso à capital da metrópole em 1966, começou a fazer o circuito das casas de fado, com atuações n’O Faia, n’O Folclore, n’A Severa — onde acabou por integrar a equipa de instrumentistas — e no Picadeiro, de que foi proprietário e onde fundou um conjunto de guitarras. Constituído por ele e José Luís Nobre Costa na guitarra e pelos tocadores de viola Raúl Silva e José Maria Nóbrega, foram convidados pela Emissora Nacional para atuar no programa de rádio Fados e Guitarradas, em 1969. Mas foi ao lado de fadistas como Carlos do Carmo, filho da proprietária d’O Faia, com quem Chainho colaborou inúmeras vezes, que projetou a sua carreira no fado — juntos foram em digressão pela Europa, Brasil e Estados Unidos da América.

▲ António Chainho na guitarra portuguesa, ao lado do cantor Manuel Fernandes (1921-1994) numa casa de fado.

Em 1988, a revista brasileira Rio escrevia sobre o guitarrista: “De Lisboa saltou para o Mundo, atuando na maioria das grandes capitais, em especial junto dos núcleos portugueses espalhados pelo mundo, mas também nas grandes casas de espetáculos como o Olympia de Paris e o Canecão do Rio de Janeiro.”

No fim dos anos 60 lançou o primeiro disco a solo, o LP Solos de Chainho, para a já extinta editora Rapsódia. Na altura, gravava discos “praticamente todas as semanas”, pois tinham muita saída junto das comunidades portuguesas, explicou à agência Lusa. Contudo, só no fim da década de 1980 afirmou a identidade como guitarrista, para além de mero acompanhante, começando a experimentar novos géneros mais arrojados e colaborações ambiciosas, nomeadamente com o guitarrista espanhol Paco de Lucia ou o compositor de cinema John Williams, no Festival de Córdova, e com as cantoras de Música Popular Brasileira Fafá de Belém e Gal Costa.

As homenagens e o reconhecimento

Nos anos 90, foi um colaborador assíduo de Rão Kyao, com quem fez tournée pelo Japão. Já antes estabelecera relação com o país, por via das cantoras Saky Kubota e Hideco Tchokyba, cujas letras japonesas acompanhou com a guitarra. Em 1996, lançou o álbum The London Philarmonic Orchestra – António Chainho, dirigido pelo maestro português José Calvário.

Por ocasião da Expo ‘98, participou na “Homenagem a Amália Rodrigues”, no mesmo ano em que lançou o álbum Guitarra e Outras Mulheres, com as intérpretes Ana Sofia Varela, Filipa Pais, Marta Dias, Teresa Salgueiro (Madredeus), Elba Ramalho e Nina Miranda (Smoke City). O disco, que vendeu vinte mil cópias, afirmou a versatilidade do guitarrista e o seu estatuto de referência na música portuguesa. Por ocasião do lançamento do álbum, o suplemento Sons do jornal Público escreveu: “É fado, mas não é fado convencional, porque toda essa gente que aparece no disco tem outra bagagem e é a partir dela que o abordam.” Em 1998, recebeu o “Prémio de Música Ligeira” atribuído pela Casa da Imprensa.

O fim dos anos 90 e o início do milénio foram palco de variadas colaborações com artistas nacionais e estrangeiros, entre os quais os brasileiros Celso Fonseca e Jacques Morelenbaum (responsável pelos arranjos musicais de Caetano Veloso) — o que resultou no álbum Lisboa-Rio —, e com José Carreras, Adriana Calcanhoto, Maria Bethânia, Ney Matogrosso e a banda de rock portuguesa Blasted Mechanism.

Em 2001, integrou o corpo docente da Escola de Guitarra do Museu do Fado. “Tudo o que sabia fui transmitindo”, disse o músico à Lusa, realçando a importância da transferência de conhecimento entre gerações. “Sempre ajudei, e nessa escola há alunos a tocar temas muito complicados”. Em 2005, fundou a Escola Municipal de Guitarra Portuguesa na terra natal de Santiago do Cacém, que lhe prestou homenagem com a inauguração do Auditório Municipal António Chainho e atribuiu uma medalha de ouro no mesmo ano.

▲ António Chainho no festival Caixa Alfama, em 2015.

Ricardo Castelo

Em 2003, editou o álbum Ao Vivo no CCB, com a voz de Marta Dias e acompanhamento de guitarra de Fernando Alvim, antigo parceiro de Carlos Paredes. Teve um papel ativo na divulgação da guitarra portuguesa junto da comunidade asiática, por intermédio de seminários e workshops organizados pela Fundação do Oriente, experiência que terá influenciado a produção do álbum LisGoa, de 2009, com temas cantados em hindi e concanim (dialeto goês com muitos vocábulos portugueses). Em 2005, celebrou os 40 anos de carreira na Casa da Música do Porto.

O álbum Entre Amigos, de 2012, reforçou a ligação com o Brasil, que já cultivava desde o início da carreira. O disco conta com temas interpretados por Adriana Calcanhotto e Camané. Na sequência do seu lançamento, Chainho foi de novo distinguido, com a Medalha de Mérito Municipal atribuída pela Câmara de Lisboa, no âmbito das celebrações do aniversário da proclamação do fado como Património da Humanidade, e o Prémio Prestígio dos Prémios Amália 2012. Em 2015, lançou Cumplicidades, disco onde se cruzaram nomes da música como Rui Veloso, Pedro Abrunhosa, Paulo de Carvalho, Ana Bacalhau, Fernando Ribeiro, Sara Tavares, Paulo Flores ou Vanessa da Mata, em celebração dos 50 anos de carreira.

O “abraço da guitarra” de um intérprete notável

A despedida dos palcos, dia 13 de setembro de 2024, aconteceu na Praça do Município, no concerto “Lisboa Saudade” com os convidados Carminho e António Zambujo, a discípula Marta Pereira da Costa, o quarteto de cordas Naked Lunch e os músicos que habitualmente acompanhavam o guitarrista, Ciro Bertini, no baixo e acordeão, e Tiago Oliveira, na viola.

A biografia da autoria de Moema Silva e com prefácio da escritora Lídia Jorge, foi lançada em simultâneo com o álbum homónimo, O Abraço da Guitarra (2023), cujo nome também foi reivindicado por Tiago Rodrigues, para o documentário que produziu sobre o guitarrista em 2024.

Já em 2017, o jornalista Luís Godinho realizara um documentário em celebração dos 50 anos de carreira de António Chainho, o qual será emitido pelas 19 horas desta terça-feira na RTP Memória. “Com ele, a guitarra portuguesa deixou de ser um instrumento que acompanha outros músicos” referiu Godinho na altura da estreia, “o músico passou a ser o António Chainho, o instrumento é a guitarra portuguesa e os outros músicos, os cantores, passaram a acompanhar a guitarra”.

Apesar de abandonar os palcos, Chainho nunca parou de tocar guitarra, não obstante as dificuldades impostas pela idade avançada. Nos últimos anos de vida, começou a apresentar problemas no dedo indicador da mão direita, que, disse à Lusa, “é a base para tocar”. “Comecei a sentir que estava na hora de deixar a guitarrinha”. Mas nunca chegou a deixar: “Quem começa a brincar com este instrumento aos 6 anos é impossível largá-lo.”

Várias personalidades já lamentaram a morte do guitarrista de 88 anos, declarado “um dos 50 músicos mais influentes da World Music” pela revista britânica Songlines. O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro apresentou as condolências à família e amigos do músico, que “deixa uma marca indelével” e cuja “obra merece continuar a ser ouvida pelas gerações futuras”. A ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes escreveu na rede social X que o “legado artístico [de Chainho] continuará vivo em Portugal e no mundo”. Já a Câmara Municipal de Santiago do Cacém declarou três dias de luto municipal pelo guitarrista que “levou o nome da sua terra natal além-fronteiras, afirmando-se como uma figura maior da música nacional e como um dos mais notáveis intérpretes da guitarra portuguesa”.

Marcelo Rebelo de Sousa apresentou “amigos e saudosos pêsames à família, companheiros de vida artística e admiradores” do músico, que admite ter sido “um símbolo inspirador para gerações de instrumentistas.”

As exéquias de António Chainho começaram às 18h00 desta terça-feira, sendo que o velório decorre no seminário de Alfragide. O funeral está agendado para quarta-feira, 27 de janeiro, às 10h00 e segue em direção ao Complexo Fúnebre de Setúbal para a cremação ao meio-dia, afirma o agente artístico do falecido em declarações à agência Lusa.

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