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Alguns nomes foram alterados para proteger as identidades dos entrevistados. Nesses casos, as vozes foram modificadas com recurso a inteligência artificial. Os minutos vão passando, um a seguir ao outro. Nada acontece. Ninguém aparece para a vir buscar. Está completamente sozinha. A mais de 1700 km de casa, num país que não conhece e onde também não conhece ninguém. Não sabe a morada do sítio para onde vai, não tem nenhum número de telefone para onde ligar. Está apenas a cumprir instruções.
"Depois do avião, apanhas o autocarro do aeroporto e vais sair na saída X".
Já sabia há algum tempo que ia ter de passar uma semana inteira fora.
"Tens que arranjar uma justificação para a tua família para estares uma semana incontactável. É só isso. Diz o que tu quiseres, mas vai estar uma semana em que não vais poder utilizar o telemóvel, nem vais poder dizer onde é que estás".
Mas ela própria só soube para onde iria voar há pouco mais de 24 horas, quando finalmente lhe entregaram o bilhete de avião e leu aquelas cinco letras: Paris. Está numa espécie de jardim, junto a uma estrada movimentada. Começa a entrar em pânico. Será que saiu no local errado? Será que se enganou no horário do autocarro?
Eu não posso ligar a ninguém, não posso dizer a ninguém que aqui estou e eu não sei do que é que lá espera. Não sei mesmo do que é que lá espera.
De repente, há um carro que para. Lá de dentro, sai uma mulher jovem, aproxima-se e pergunta-lhe o nome: "Vera?"
E eu: "Sim, anda." E eu entrei no carro.
A primeira coisa que a mulher lhe pede, ainda antes do motorista arrancar, é que lhe entregue o telemóvel e o passaporte. Ao longo dos próximos sete dias, não vai voltar a vê-los. São as regras. Depois, passam à fase seguinte.
Tive que prometer que ia estar de olhos fechados. E depois tínhamos uns óculos escuros que estavam pintados por dentro e não podia estar a olhar para as janelas, portanto, eu tinha que estar de cabeça baixa, que era para não ver o caminho.
Ao fim de algum tempo, o carro entra finalmente numa garagem. Sobem até um apartamento onde está uma outra rapariga, nova como ela, 20 e poucos anos, que não diz uma palavra em português. Vera não faz ideia de onde está, nem de como vai passar a próxima semana. Só vai ter conhecimento dos passos seguintes quando tiver mesmo de os dar. Até lá, vai ficar fechada num quarto, incontactável e sem autorização para sair à rua. Aceita as condições e a vigilância. Acredita que se justificam. Afinal, não está ali em Paris de férias. Está ali para se encontrar com dos homens mais procurados do mundo. Gregorian Bivolaru. Assim se chama o homem que a polícia procura há anos e que Vera há de conhecer em Paris. Como ela, neste e noutros apartamentos nos arredores da capital francesa, há naquele momento muitas outras raparigas jovens, trancadas, incontactáveis e em fila de espera para se encontrarem com ele. Bivolaru é o guia espiritual delas, uma espécie de guru. Tem mais de 60 anos, é romeno e fundou um movimento internacional com dezenas de escolas de ioga em vários países. Apesar de ser procurado pela polícia e de estar em fuga há anos, nunca deixou de promover estes encontros com alunas. Dizem a Vera que as histórias que se contam lá fora sobre o guru não passam de boatos infundados e mal-intencionados. E ela acredita. Afinal, foi o próprio Bivolaru quem a escolheu para o conhecer pessoalmente e receber dele uma iniciação secreta. É um privilégio que só está ao alcance de algumas eleitas e que a vai fazer ascender espiritualmente de forma muito mais rápida e eficaz Foi há seis anos que Vera entrou pela primeira vez numa destas escolas de ioga. A Natha ficava numa avenida bem no centro de Lisboa. Tudo lhe pareceu normal. À primeira vista, aquela era uma escola de ioga igual a qualquer outra. "Os segredos da seita do yoga" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos podcast plus do Observador. É narrada por mim, Daniela Rua, com banda sonora original de Benjamim. Episódio um: é proibido fazer sexo.
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Kia. Movement that inspires. Finalmente acabou a licenciatura. Passou os últimos anos a estudar e a trabalhar para pagar as propinas e o quarto arrendado em Lisboa. Devia sentir-se feliz. Mas em vez disso, Vera está de rastos. E não é só por causa do diagnóstico de esgotamento que recebeu há uns dias. Tem problemas bem mais profundos e mais antigos que não consegue resolver.
Eu estava à procura de como matar um vazio. Vinha de um background muito difícil a nível psicológico, de uma família desestruturada.
O fórum da espiritualidade em que se inscreve na internet começa por ser só mais uma tentativa. Lê sobre outras experiências, conversa com pessoas e faz um amigo. As primeiras mensagens são através do fórum. Depois, ele escreve-lhe em privado. É professor de ioga, dá aulas numa escola em Lisboa e em pouco tempo estão a combinar um encontro. E depois outro. O principal tema de conversa é sempre o mesmo: a prática de ioga e a escola onde ele dá aulas, na zona das Avenidas Novas, perto da Gulbenkian. É uma escola pequena, aberta há pouco tempo por um Swami, um mestre dinamarquês. O Swami vive lá e alguns praticantes também, em comunidade. O amigo quer muito que Vera vá experimentar, mas ela está relutante.
Ele falava muitíssimo sobre a Natha, sobre o ioga, sobre tantra. E eu não conseguia convencê-lo a ir. Até que ele decidiu falar: "Olha, temos lá uma professora romena que licenciou-se em medicina com 20 e tudo, licenciou-se também em medicina tradicional chinesa. Ela é um exemplo de liderança feminina extraordinário, ela é mesmo muito querida. Não queres vir conhecê-la?" E eu acenti, finalmente, a ir.
São 20h, a hora marcada para a palestra do Swami Mahalayananda. A sala é pequena e está absolutamente lotada. Ao todo, naquele rés-do-chão da Avenida Poeta Mistral, em Lisboa, devem estar umas 30 pessoas. Estão reunidas para ouvir o mestre divagar em inglês sobre como a prática do ioga pode ajudar a produtividade no trabalho ou nas relações amorosas. Como Vera, a grande maioria destes homens e mulheres, sobretudo jovens, que assistem à palestra mensal gratuita da Natha de Lisboa, não são alunos da escola. Ainda.
Uma vez por mês, os amigos dos amigos ou os curiosos ou colegas podiam ir lá e ver por si o que era, e o ambiente. Assim que nós entrávamos, sentíamos muita paz, todo o ambiente era de muita paz e de muita organização e tal como eu, muitas pessoas diziam: "Estava à espera de tudo, menos disto". E efetivamente, respira-se paz aqui dentro e organização. Ainda fui a mais uma ou duas palestras gratuitas e depois inscrevi-me para as aulas de ioga, que era uma aula semanal.
Lara também não é de Lisboa, mas ficou a viver na capital depois de acabar a universidade. Tem 26 anos, um emprego estável e resolveu ser vegetariana há uns meses. Há de chegar à escola em 2012, tal como Vera, por intermédio de um amigo acabado de conhecer, também na internet, mas pelo Facebook.
E ele também era vegetariano como eu. Eu não conhecia muitas pessoas vegetarianas. Então nós começamos a falar e eu lembro-me de lhe dizer que gostava de começar a fazer ioga, porque
Porque sentia que era uma pessoa muito ansiosa, que precisava de alguma forma de aprender a lidar e a meditar. E então ele disse-me: "Olha, mas eu estou numa escola de ioga, podia te levar lá". E foi assim, foi uma coisa muito natural.
Começa a ir às aulas com esse amigo, que entretanto se há de tornar namorado. Depois, inscreve-se como aluna.
As aulas tinham sempre uma parte teórica e uma parte prática. A parte prática era para fazer mesmo posturas de ioga, tinha um aquecimento, depois posturas de ioga, depois um relaxamento. E na parte teórica explicava-se o que aquela asana, aquela postura nos fazia, ou quais eram os chakras que despertava ou que harmonizava e quais eram os efeitos a longo prazo, as melhorias que podiam proporcionar-nos. E depois, para além disso, vinham outro tipo de conteúdos, de alimentação, de técnicas de purificação, coisas assim do gênero.
A escola vai crescendo em número de alunos e em instalações. Quando Lara chega, a Natha já ocupa dois apartamentos T8 num edifício residencial na Avenida António Augusto Aguiar, em pleno centro de Lisboa. Já não é apenas uma escola de ioga, é também um ashram, onde dezenas de alunos vivem em comunidade. Os homens e as mulheres dormem separados, o ambiente é familiar e convidativo. Não há um único sinal de alerta.
Aquilo se fosse só pelo aspecto das aulas, ou seja, vai lá, tem as práticas de ioga, tem as asanas, tem as posturas, tem a teoria. Se fosse só isso, era perfeito. É interessante. O problema é as coisas que se começa a descobrir por trás e que nem toda a gente sabe, porque nem toda a gente está nos mesmos núcleos.
Luís foi dos primeiros a juntar-se à Natha. Passou 10 anos em aulas e a viver no ashram e demorou até perceber que não estava tudo bem e que nem tudo era o que parecia. Aliás, diz que é muito provável que os alunos que frequentam apenas as práticas de ioga nunca se apercebam de que há alguma coisa de errado com a escola. Todos os problemas começam no curso de tantra. A palavra está no próprio nome da escola. Natha, escola espiritual de yoga e tantra. E pelo menos desde os anos 90, está também no imaginário coletivo, associada a um dos maiores nomes da música internacional e a maratonas sexuais com a duração de um dia de trabalho.
Comecei a estudar ioga em 1990 e cheguei a um ponto em que percebi que o ioga é tudo.
Foi em 1993, numa reportagem publicada no Reino Unido, que Sting falou pela primeira vez em sexo tântrico. A técnica descrita por Sting tem um nome. Aliás, tem pelo menos dois: continência sexual ou continência erótica amorosa. E é uma das regras basilares do tantra.
A ideia por trás é que quando um homem ou uma mulher perdem energia no ato sexual, estariam a perder energia vital. Energia vital essa, que eles em vez de perderem, em vez de ejacularem, poderiam canalizar para melhorar outros aspectos da sua vida, serem mais sociáveis, terem mais capacidade de liderança, terem mais capacidade de dar amor ou de receber amor, ter mais capacidade de foco, ter mais capacidade de aprendizagem, ter mais capacidade de nos conectarmos com o divino.
Vera tem pouco mais de 20 anos. O sexo ainda é um enorme tabu. Se pensar nisso, já é desconfortável. Muito menos se imagina a receber lições sobre o assunto. Ainda assim, depois de uns quantos meses de aulas de ioga, cede à pressão e finalmente inscreve-se no curso de tantra. Para quem quer mesmo evoluir espiritualmente, dizem-lhe os professores, é o melhor caminho a seguir.
Eu não queria ir. Estava cheia de medo daquilo. E depois o curso não teve nada de impróprio, não teve nada de desconfortável. Absolutamente nada. Não havia nudez, não havia nada desconfortável. Não se falava de posições sexuais, não havia nada disso. Falava-se de tantra Como caminho espiritual, como prática associada ao ioga, de como é que nós podíamos direcionar a energia sexual para outras coisas na nossa vida, que é o mesmo que se faz em outras tradições.
Nas aulas de tantra, os alunos aprendem mais posturas de ioga, muitos ensinamentos teóricos, mas também técnicas que mais tarde deverão pôr em prática em privado com os respectivos parceiros. Há exercícios para ativar cada um dos sete chakras, os centros energéticos que interligam corpo, mente e espírito. Os princípios básicos são transmitidos logo no início do curso. Primeira regra: é absolutamente proibido ter sexo. Só se pode fazer amor, ou seja, ter relações sexuais com alguém por quem se sente uma ligação. Segunda regra: homens e mulheres devem praticar a contenção sexual e evitar os chamados orgasmos explosivos, para não desperdiçarem energia.
Todas as vezes que dois tântricos, um casal tântrico fazia amor, estaria a canalizar aquela energia para algo que eles tinham combinado previamente, para um chakra. "Hoje vamos fazer amor de Vikarua, primeiro chakra, segundo chakra, terceiro chakra", "Para termos mais foco, tenho tido dificuldades na minha capacidade de liderança, vamos fazer amor para isso".
E só para as alunas, há ainda mais uma lição essencial. As mulheres devem despertar nelas próprias o chamado estado de Shakti e ser cada vez mais femininas, sensuais, desinibidas, descontraídas e felizes. E devem também reconhecer como uma dádiva de Deus o interesse dos homens por elas. Isto é o que acontece nas aulas de tantra. Fora delas, os ensinamentos são ainda menos convencionais, mas esses estão reservados apenas a algumas eleitas. Podem consistir em conjuntos de posições eróticas para ativar os vários chakras ou em técnicas ritualísticas para fazer amor de forma tântrica. Estes ensinamentos são transmitidos nas chamadas iniciações. E essas iniciações são sempre precedidas por um juramento formal de sigilo, feito sobre a Bíblia. Acontecem em segredo e têm de se manter em segredo. Lara também se inscreve nas aulas de tantra para poder melhorar a relação com o novo namorado, que já frequenta a escola há uns anos.
Essa iniciação específica nas posturas amorosas entre casais era uma iniciação à parte das aulas de tantra, em que só determinadas pessoas é que podiam ir, porque tinham que fazer o tal juramento. Ou seja, havia certas coisas que não eram dadas nas aulas de tantra. Isto é mera especulação, mas não sei se é propositado para não se exporem demasiado, para não ensinarem coisas que possam ser controversas nas aulas de tantra, não faço ideia, ou se é para tornarem aquilo numa coisa muito especial a que só alguns é que podem aceder.
Invariavelmente, explica Luís, só as mulheres é que são chamadas para receber estas iniciações teóricas por parte dos professores da escola. Os homens também são iniciados e também têm de jurar manter os ensinamentos em segredo, mas recebem as novas técnicas diretamente das respectivas parceiras.
Basicamente, a mulher é vista dentro daquela escola como a iniciadora.
Muitas vezes, para terem acesso a algumas iniciações, as alunas não precisam apenas de jurar silêncio sobre a Bíblia, pela própria saúde, pela saúde da família ou pelo futuro espiritual. Têm também de provar que o privilégio é merecido. E isso, dependendo da iniciação, pode levar meses. Vera revela que a forma de atuar é sempre a mesma. A aluna é chamada à parte e informada de que pode vir a ter uma iniciação muito especial. Ninguém explica que técnica vai aprender, só o que tem de fazer para poder ter acesso a ela. E ela obedece, sem questionar.
Fazíamos um tapas, que é uma prática espiritual intensiva. Portanto, durante seis meses eu tinha que fazer mais três horas de prática de ioga, mais uma hora, mais duas, três horas de prática, o que fosse que aquele tapas envolvesse, a acrescer às duas horas que já tinha que fazer todos os dias. E se eu fizesse essa prática toda direitinha, então depois no final, eu assinava um juramento em como tinha feito a prática em condições, que ia manter secreto tudo o que nos tinha sido ensinado, que jurava por tudo e mais alguma coisa. E então ensinavam-nos em teoria.
Todos os alunos da escola sabem quem ele é. Mas o mais certo é que nunca tenham estado com ele pessoalmente, nem venham a ter a oportunidade de o conhecer. Nas salas de ioga, junto a pequenos altares improvisados, com flores frescas e velas acesas, há geralmente imagens de deuses do hinduísmo. Não são necessariamente as mesmas em todas as salas. Numa pode estar uma estatueta de Shiva, que é também considerado o pai criador do yoga. Noutra, pode estar Ganesha, o deus hindu com cabeça de elefante, que também é conhecido como removedor de obstáculos. O que não muda, e está em todos os altares, em todas as salas, são as molduras com fotografias daquele homem grisalho, de óculos e olhar penetrante e sério. É o romeno Grigorian Bivolaru, o guia espiritual da escola, autor de todas as lições ali ensinadas e guru de todos os alunos. Carinhosamente, chamam-lhe Grig.
A pouco e pouco, ia nos sendo incutido que o Grig era um ser muito especial. Não quero estar a exagerar, mas algumas pessoas acabavam por, de certa forma, o equiparar a Jesus ou pelo menos a um mestre muito evoluído, e que nós tínhamos uma grande graça divina por termos um mestre que estava encarnado, que estava vivo. Era uma graça divina, algo muito especial que nós tínhamos, que era termos a possibilidade de ainda encontrarmos o mestre, ainda vermos o mestre.
Segundo os relatos dos antigos alunos, é-lhes dito que quando têm dúvidas ou dilemas, é a ele que devem recorrer. São incentivados a escrever-lhe cartas, que depois os responsáveis da escola lhe fazem chegar. Bivolaru tem a última palavra sobre tudo o que acontece nesta escola de Lisboa e nas outras espalhadas pelo mundo. Por exemplo, é ele quem decide que alunas estão prontas pra receber determinada iniciação. E é ele o único com poder para lhes passar esse conhecimento secreto de forma prática, em vez de teórica. Há um assunto que começa a ser discutido em grupos pequenos no ashram, mas muito rapidamente chega ao conhecimento de toda a comunidade. É um escândalo. E Lara também está no meio dele. A relação com o namorado não está a correr muito bem. Têm discutido e como vivem todos no mesmo espaço, é muito difícil esconder que há problemas. O Swami, o mestre dinamarquês que coordena a escola, apercebeu-se disso. Chamou-a à parte e ofereceu-se pra a iniciar numa técnica de tantra que ia ajudar o casal a resolver todas as questões. Há um detalhe. Esta seria uma iniciação prática, não teórica. Há um problema. Lara não foi a primeira aluna a quem o mestre fez uma proposta do gênero. E há uma certeza. Lara recusou educadamente, mas nem todas as outras tiveram coragem de lhe dizer não.
Houve pessoas que acabaram por começar a falar sobre isso, porque, por exemplo, os rapazes viviam um bocado à margem de tudo o que se passava com as raparigas, porque como era tudo muito secreto, elas não contavam, não podiam contar. Mas houve certas coisas que começaram a tornar-se mais públicas e eles depois começaram-se também a revoltar contra isso.
Os rumores não ficam em Lisboa. Dias depois, chegam a Portugal Advaita e Adina Stoian, o casal de romenos que coordena a nata dinamarquesa. São conhecidos em todo o movimento como o braço direito e o braço esquerdo do guru Grigorian Bivolaru.
Ele dizer que está a iniciar alguém, isso era tive como chocante, porque a única pessoa que podia iniciar era o mestre. E então ele estava se a pôr no lugar do mestre. E o Advaita veio cá e disse que isto não era aceitável, que ele não podia fazer isto.
O Swami é repreendido. Pede desculpa, promete que não torna a fazê-lo. Mas mais tarde há de sair da escola de Lisboa. Para os alunos, o assunto é dado como resolvido. Nesta escola de ioga, os alunos aprendem que só podem fazer amor, nunca sexo. Mas isso não quer dizer que tenham de ter apenas um parceiro. Muito pelo contrário. Aprendem também que não devem ser monogâmicos.
Dizia-se que uma relação monogâmica é uma relação inferior, porque significa que estás limitado na tua capacidade de amar o outro.
Quando comecei a ouvir esse tipo de explicação da poliamorosidade e do ser capaz de ter relações com várias pessoas, isso para mim chocou-me imenso ao início. Mas depois, eu comecei a ouvir a explicação e que o amor verdadeiro é incondicional e que se efetivamente a pessoa que está conosco se apaixonar por outra pessoa, eu querer prender a pessoa, eu não estou a amá-la, eu estou a ser possessiva. É um bocado por aí. Se nós realmente amamos alguém, queremos que essa pessoa seja feliz
Não é que as relações monogâmicas fossem proibidas na escola, diz Lara, que entrou na Natha de Lisboa justamente pela mão de um amigo que havia de se tornar namorado. Eram só desaconselhadas e vistas como menores. Por isso, sempre que possível, deviam ser evitadas, de forma voluntária ou com uma pequena ajuda de outros alunos e alunas.
Chegaram a existir casais, às vezes até pessoas casadas, que frequentavam as aulas, e ia haver sempre, por exemplo, mulheres a tentar seduzir aquele homem e homens a tentar seduzir aquela mulher. No fundo, para tentar tirá-los da monogamia. Não sei se era propositado, mas a forma como era vista a monogamia era que era uma coisa demasiado fechada. E então, pra mulher poder ser mais desinibida e pra o homem também poder ser mais viril, também seria bom eles poderem ser mais livres.
Além disso, as relações entre mulheres são altamente incentivadas.
Existe uma grande aceitação e promoção de as mulheres terem relações com outras mulheres naquela escola. Veem como aquilo é uma forma delas se renderem e fazendo isso, tornam-se melhores parceiras para os homens também, porque aprender a render-se, a relação do homem da mulher, ela tem que aprender a render-se e estar lá nesse campo de submissão.
Já as relações entre homens estão absolutamente proibidas.
Era demonizado. Isso não é homem. É aquele double standard.
Vera já está na escola há alguns anos. Sabe que há segredos, que há coisas que não se partilham e que a bem da evolução espiritual de cada um, é bom que seja mesmo assim. A quebra de um juramento traz consequências terríveis. Todos os monstros e demônios saem em perseguição dos que faltam à própria palavra e libertam sobre eles os males do mundo. Por isso, não faz perguntas. De tempos a tempos, há raparigas que desaparecem do ashram. Num dia estão lá, no outro já não. É como se fossem fantasmas. Ninguém fala sobre a ausência delas, quando de repente as camas que ocupavam ficam vazias. E também ninguém lhes faz uma festa quando as vê voltar, uma semana ou até alguns meses depois. Nem mesmo as pessoas mais próximas. É um não assunto. Ninguém fala disso.
Nós não sabíamos onde é que elas tinham estado ou o que é que tinham estado a fazer. Eles não podiam falar sobre isso. E depois vinham diferentes, vinham mais pensativas, vinham diferentes, vinham estranhas, vinham esquisitas.
A única coisa que Vera pode fazer é imaginar. Talvez tenham ido para um retiro de silêncio. Talvez estejam no estrangeiro a fazer trabalho voluntário. Mas, na verdade, não era nada disso.
As piores coisas que acontecem neste mundo começam com um segredo e com um juramento. As piores.
Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.
Vejo três fotos e cai-me tudo. E penso: "Ela sempre me disse que estava lá fora em retiros". E penso: "Ela não tem estado em retiros, ela sequer tem tado sempre a fazer isto".
Ele teve sempre essas pancadas sexuais dele, mas também não é nada burro, inteligente. Então criou um grupo e através deste grupo, que até hoje ainda estão com ele, conseguiu crescer.
É um site pornô, que não tem nada a ver com tantra, não tem nada a ver com evolução espiritual, nada. Aquilo é só ganhar dinheiro pra escola.
O Observador contactou a Natha, escola espiritual de yoga e tantra, a Federação Atman, à qual pertencem as escolas de yoga espalhadas pelo mundo, e ainda Gregorian Bivolaru. Foram confrontados com várias questões relacionadas com as alegações feitas ao longo deste podcast. O Observador contactou Gregorian Bivolaru através dos representantes legais. Não responderam. O Observador contactou a Natha, escola espiritual de yoga e tantra. A direção não aceitou ser entrevistada, mas respondeu por e-mail a várias perguntas. Seguem-se as perguntas e respostas relevantes para este episódio. O Observador pergunta: o site da Natha, escola espiritual de yoga e tantra, no separador "Quem Somos?", faz referência a Gregorian Bivolaru como um verdadeiro mestre espiritual vivo. Qual é a ligação de Gregorian Bivolaru à Natha, escola espiritual de yoga e tantra? A Natha responde Como pode ser verificado nos respetivos estatutos, a Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra não tem qualquer ligação a Gregorian Bivolaru, sendo que o mesmo não desempenha, nem nunca desempenhou, qualquer função na Natha. Não é, nem nunca foi sócio ou membro dos respetivos órgãos sociais. Podemos dizer é que, como autoridade publicamente reconhecida na área, com vários livros publicados, nos seus cursos, a Natha segue alguns dos seus ensinamentos, pelo que no nosso site apresentamos Gregorian Bivolaru como o coautor do curso de Yoga Integral Esotérico, do curso de Tantra Yoga Esotérico, oferecido pela Federação de Yoga e Meditação Atman, da qual a Natha é escola membro afiliada, e autor de muitos livros e publicações espirituais. Sendo que o curso de Yoga Integral Esotérico e o curso de Tantra Yoga Esotérico são apenas dois dos variados cursos que disponibilizamos na Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra. O Observador pergunta: e qual é a posição da Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra face à detenção de Gregorian Bivolaru por suspeitas da alegada prática de crimes de violação, tráfico de seres humanos, sequestro e abuso de fraqueza? A Natha responde: a Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra repudia de forma inequívoca qualquer forma de violência, exploração ou abuso, ou qualquer tipo de atividades criminosas. Não compactua com atividades ou comportamentos que possam configurar crimes dessa ou de outra natureza. A Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra pauta-se pelos valores éticos do yoga, do respeito pelo ser humano e da integridade individual. Defende que qualquer suspeita ou acusação deve ser devidamente apurada pelas autoridades competentes, no respeito pelo princípio da justiça e do Estado de Direito. O Observador pergunta: a Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra deixou de lecionar aulas escritas por Gregorian Bivolaru? A Natha responde: a resposta a esta questão está clara no nosso site, aberto a todos os que quiserem ler. Gregorian Bivolaru é o autor do curso de Yoga Integral Esotérico, coautor do curso de Tantra Yoga Esotérico, oferecido pela Federação de Yoga e Meditação Atman, da qual a Natha é escola membro afiliada, e autor de muitos livros e publicações espirituais. O Observador pergunta: por que motivo se mantém a referência a Gregorian Bivolaru como mestre espiritual vivo no site da Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra? A Natha responde: no contexto do yoga, o termo mestre espiritual designa alguém que, através da sua experiência e prática, inspira e orienta outros no caminho de autoconhecimento e do desenvolvimento interior. A referência a mestres espirituais vivos reflete uma tradição milenar presente em várias escolas de sabedoria presentes em todo o mundo, que reconhecem a importância de pessoas experientes que transmitam conhecimento de forma direta e viva. A nossa menção mestre espiritual vivo deve ser entendida nesse enquadramento filosófico e espiritual e não como uma validação pessoal de comportamentos ou acontecimentos externos à prática e aos ensinamentos do yoga. O Observador pergunta: por que motivo se mantém a referência a Gregorian Bivolaru como mestre espiritual vivo no site da Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra? O Observador pergunta: qual é a ligação da Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra ao Natha Yoga Center, na Dinamarca? A Natha responde: a Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra não tem qualquer ligação com a Natha Yoga Center. Conforme referido supra, como associação, somos pessoa jurídica de direito privado, perfeitamente autônoma e independente, com personalidade jurídica própria. O Observador pergunta: as escolas têm uma gestão comum? Que funções desempenham ou desempenharam Mihai e Adina Stoian, professores no Natha Yoga Center na Dinamarca, na Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra? A Natha responde: embora já respondida na anterior questão, voltamos a frisar que obviamente não há qualquer gestão comum com outras escolas, já que a Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra é uma associação com personalidade jurídica própria e naturalmente com órgãos próprios que fazem a sua própria gestão. Não temos qualquer conhecimento das funções que Mihai e Adina Stoian desempenham ou desempenharam na Natha Yoga Center. Os mesmos não desempenharam quaisquer funções na Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra. O Observador pergunta: e qual é a ligação da Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra ao MISA? A Natha responde: a Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra é uma associação com personalidade jurídica própria, com órgãos sociais próprios, que se dedica ao ensino do yoga e do tantra em Portugal, enquanto o MISA, Movement for Spiritual Integration into the Absolute, é uma organização estrangeira que promove atividades também de caráter espiritual a nível internacional, não existindo qualquer relação jurídica, administrativa, orgânica ou outra. Temos conhecimento que, a título individual, no exercício da sua liberdade pessoal e espiritual, alguns alunos e professores sócios da Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra participam em eventos internacionais organizados por essa e outras entidades. O Observador pergunta: duas alunas da Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra queixam-se de terem sido convencidas por professores a viajar para Paris para alegadamente receberem iniciações sexuais por parte de Gregorian Bivolaru. Estas alunas acusam a escola de ter assegurado toda a logística, juntamente com representantes do MISA, na Roménia. E dizem que, uma vez no local, foram privadas de meios de comunicação e dos próprios documentos de identificação e que foram mantidas em apartamentos sem permissão para sair. Essas mesmas alunas queixam-se de terem sido coagidas por meios de manipulação e lavagem cerebral a manterem alegadas relações sexuais com Gregorian Bivolaru em Paris. Como é que a Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra reage a estas acusações? A Natha responde A Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, não tem qualquer conhecimento direto ou indireto relativamente às alegações mencionadas, nem existe qualquer evidência de que essas situações tenham ocorrido no âmbito ou sob a responsabilidade desta associação. A Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, é de forma absoluta contra qualquer prática que envolva coação, manipulação, privação de liberdade, abuso sexual, exploração ou violação dos direitos humanos fundamentais. Tais comportamentos são totalmente inadmissíveis e incompatíveis com os princípios éticos e espirituais de yoga e com os valores desta associação. A Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, reafirma o seu compromisso com o respeito integral pela dignidade humana, pela liberdade individual e pela autodeterminação dos seus alunos e professores e, naturalmente, mantém total disponibilidade para colaborar com as autoridades competentes, se se revelar necessário. A Federação Atman, à qual pertencem as escolas de yoga do movimento criado por Grigorian Bivolaru, não respondeu diretamente às questões enviadas pelo Observador, mas enviou um comunicado. Nesse texto, a Federação Atman garante não ter recebido, até ao momento e por parte da Justiça francesa, qualquer comunicação oficial por possível envolvimento no caso. Refuta todas as acusações levantadas contra membros afiliados, professores e alunos. Recorda que a investigação ainda está em curso e que não há qualquer acusação, muito menos uma condenação. E acusa as autoridades francesas e os meios de comunicação internacionais de perseguição religiosa e de uma campanha mediática que, ao longo de anos, vem projetando a imagem da escola como um culto sexual culpado de lavagem cerebral e abuso sexual. Lê-se no comunicado: "O que aconteceu em França é a continuação de uma longa série de ataques contra membros afiliados da Federação Atman e o professor de yoga Grigorian Bivolaru, por forças que consideram intolerável qualquer combinação de erotismo e espiritualidade". No mesmo texto, a Federação garante ainda que não é responsável pela vida privada dos funcionários, alunos e professores das escolas afiliadas. Diz que as escolas são independentes e assumem total responsabilidade pelas respectivas decisões e atividades. Acrescenta ainda que condena categoricamente todos os tipos de abuso, incluindo o uso abusivo da força policial e detenções injustas. E por fim, assegura que ensinamentos de comportamento sexualizado nunca foram nem serão tolerados na Federação Atman. "Os Segredos da Seita do Yoga" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Daniela Ruah, e tem banda sonora original de Benjamim. O guião e as entrevistas são de Mariana Marques Tiago e Tânia Pereirinha. A sonoplastia e desenho de som são de Pedro Oliveira. O design gráfico é Diana Moreira. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Se tem alguma informação para partilhar sobre este podcast ou se conhece alguma história que acha que deve ser investigada, pode escrever-nos para podcastplus@observador.pt. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.
