Morreu o realizador João Canijo aos 68 anos, avançou esta quinta-feira a CNN Portugal. A notícia foi entretanto confirmada pelo Observador junto da produtora Midas Filmes. O corpo foi encontrado pela empregada de limpeza a meio da tarde, na casa do cineasta em Vila Viçosa, avançou o Público. A causa da morte está por confirmar.

No Facebook, a Medeia Filmes fez uma homenagem ao realizador com uma citação de João Canijo: A “verdade é a interpretação que cada um faz da realidade. E é uma escolha que cada um faz da realidade”.

João Manuel Altavilla Canijo nasceu em 1957 no Porto, onde frequentou o curso de História na Faculdade de Letras entre 1978 e 1980. A partir de então, dedicou-se ao cinema. Nos anos 1980 trabalhou sobretudo como assistente de realização, com realizadores como Manoel de Oliveira, Paulo Rocha e Wim Wenders, assinou em 1990 a primeira longa-metragem, Filha da Mãe, e a série televisiva Alentejo Sem Lei.

Desde então, trabalhou ainda em direção de produção em cinema, encenou para teatro e fez uma série de longas-metragens impregnadas de temas da sociedade portuguesa dos últimos 40 anos, observados a partir do interior de contextos familiares e com personagens femininas marcantes. Exemplos são filmes como Sapatos Pretos (1998), Ganhar a Vida (2001), Mal Nascida (2007), Sangue do Meu Sangue (2011) ou o díptico Mal Viver e Viver Mal (2023).

Premiado no festival dos Ursos de Prata no Festival de Berlim, Mal Viver é um dos filmes mais recentes de João Canijo e conta a história de uma família de mulheres de diferentes gerações, que gerem um hotel e arrastam uma vida dilacerada pelo ressentimento e rancor, abalada pela chegada inesperada de uma neta, como se lê na sua sinopse.

O filme, candidato de Portugal a uma nomeação para os Óscares, interliga-se com a longa-metragem Viver Mal, que segue em paralelo aquela história, centrando-se nos hóspedes que passam pelo hotel.

Em 2024, João Canijo estreou na RTP a série Hotel do Rio, que constitui a “visão total” do enredo destes dois filmes. Tanto os dois filmes como a série contam com interpretação de Anabela Moreira, Rita Blanco, Madalena Almeida, Cleia Almeida, Vera Barreto, Nuno Lopes e Filipa Areosa, Leonor Silveira, Rafael Morais e Lia Carvalho, Beatriz Batarda, Carolina Amaral e Leonor Vasconcelos.

Em fase de pós-produção deixou Encenação, que acompanha o processo de uma companhia de teatro durante a criação de um último espectáculo, com Miguel Guilherme e, mais uma vez, Rita Blanco, Anabela Moreira e Beatriz Batarda. Ao mesmo tempo, terminou a filmagem, há cerca de duas semanas, de uma peça de teatro relacionada com este mesmo filme.

“Dos que a obra os imortaliza e eleva a um outro Olimpo”

Através das redes sociais surgiram as primeiras reações à morte de João Canijo. “Tempestuoso e lúcido, foi um excelente artista e viveu a sério”, apontou o dramaturgo e encenador Tiago Rodrigues, também diretor do festival de Avignon: “Travou um combate poético com o país que somos. Mostrou-nos um espelho que reflectia doses iguais de violência e ternura. Que perda colossal”.

“Dos que a obra os imortaliza e eleva a um outro Olimpo”, escreveu o realizador e argumentista Manuel Pureza.

A conta oficial da Galeria Monumental no Facebook lamentou a “morte inesperada e a perda irreparável” do cineasta João Canijo”. “Foi na Monumental que João Canijo se estreou na encenação teatral, em parceria com Diogo Dória, nos inesquecíveis ‘Jogos de Praia’, espectáculo estreado em 1987 e que ficou na memória de todos os muitos espectadores que o viram.Com Rita Blanco, Suzana Borges, Vítor Norte e Diogo Dória, a quem enviamos um sentido abraço”, lê-se.

“Raras vezes o cinema português atinge aquele lugar de rasgo, onde todas as realidades se encontram: a vida, o sonho, a morte e o pesadelo. O teatro, a literatura, a música ou a ópera. E se são poucos os filmes portugueses que o conseguem, ‘Noite Escura’, de João Canijo é um desses filmes”, escreveu o realizador Vicente Alves do Ó. “Agregava mundos e oposições, andava à volta com uma procura incessante para chegar onde queria levar o seu cinema e aos 68 anos, o caminho ainda ía a meio.”

Numa nota de pesar, a ministra da Cultura descreveu João Canijo como “figura maior do cinema português contemporâneo com uma obra que tem tanto rigor formal como intensidade emocional”. “Nas quase três dezenas de filmes que assinou como realizador e argumentista, foi especialmente sensível a captar dinâmicas familiares e personagens femininas.” Para Margarida Balseiro Lopes, “a morte inesperada de João Canijo representa uma perda irreparável para a cultura portuguesa. A sua obra — intensa, realista, exigente e profundamente humanista — deixa um legado que nos merece todo o respeito e admiração.”

Marcelo lamenta “morte precoce” de “voz forte e singular”

O Presidente da República lamentou esta sexta-feira a “morte precoce” do realizador João Canijo, que classificou como “uma voz forte e singular” e um “destemido cronista” da realidade do país.

“À família de João Canijo, e à família alargada, os seus atores, apresento sentidas condolências, prestando homenagem ao meticuloso e destemido cronista de um país que nem sempre queremos ver”, refere a nota divulgada na página da Presidência da República.

Marcelo Rebelo de Sousa considera que a sua “morte precoce” privará o país de “uma voz forte e singular no momento da sua maior afirmação, incluindo a projeção internacional”.

[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]