Numa carreira que, se contarmos com Os Passos Em Volta, dos quais foi fundador, compositor e vocalista, já vai em 17 anos, “pela primeira vez há”, num disco de Éme, uma “assunção do fracasso”. Mas calma: “Sem que isso [o fracasso] seja muito dramático”, acrescenta o autor do recém-lançado Colegas de Trabalho, enquanto (segundo confessa) passa a roupa da máquina de lavar para a máquina de secar.

Parte-se do princípio de que o fracasso a que Éme (cujo verdadeiro nome é João Marcelo) se refere seja o próprio: seja ter de fazer biscates porque não consegue viver só da sua música, seja não atingir o mesmo estatuto de um B Fachada – seja qualquer for o critério pelo qual Éme estabelece o que é o fracasso, este nunca fica tão explícito quanto em 42, a faixa de abertura: “42 / bebe demais (…) ainda vive com os pais”.

(Há ali um violino maravilhoso no refrão e isto devia passar na rádio, peço imensa desculpas aos senhores e senhoras de péssimo gosto que fazem as playlists horríveis da rádio, mas isto devia passar, fim de história e não há qualquer dúvida, visto ser eu que o estou a dizer.)

Como é que era aquela tirada dos Pavement acerca dos Stone Temple Pilots? “Stone Temple Pilots / they’re eligible bachelors”?  A personagem que percorre as canções de Colegas de Trabalho “não é”, diz Éme, “alguém que seja um eligible bachelor”. Também não é obrigatoriamente ele – é alguém que existe no mundo de hoje em dia: “Mesmo quando [o disco] não é autobiográfico, a ideia do fracasso é vista pela perspetiva dos padrões capitalistas e falsamente meritocráticos – alguém que por esses padrões tenha fracassado”.

A idade também desempenha aqui o seu papel: ao fim e ao cabo, “quando se começa [a fazer música] tem-se uma certa bazófia, aquela ideia de que és o maior da aldeia”, recorda. Mas depois vem o tempo e a sorte e o azar – e de repente aqui estamos, em Colegas de Trabalho, em que “as várias personagens [do disco se apercebem] que são os menores da aldeia, e a aldeia já é pequena de si”.

Haverá certamente várias maneiras de lidar com o fracasso – a de Éme é insusitada: em vez de fracassar, ter êxito – que é uma forma de dizer que, quando pensou neste álbum, “a ideia era tentar ser pop”. Ele, embrenhado nas tarefas da lavandaria enquanto fala comigo ao telefone, não está convencido de o ter conseguido: “Pelo menos a minha conta bancária não deve estar como a dos Coldplay”, diz, com a mesma sinceridade que atira que “gostava de fazer um disco em que os gajos da RFM passavam a La Feria [5.ª canção do disco]”.

Percebe-se a ideia: não é que Éme seja explicitamente pop, mas — por exemplo — a dita La Feria é fascinante, o início recorda os Go-Betweens e o refrão lembra Fausto, como se tal ponte fosse possível; o refrão (com aquela letra ótima: “E tenho imenso medo de ficar assim / alegre p’ra todos / e triste p’ra mim”) não chega às massas porquê? Porque as rádios não passam, não arriscam, vivem no medo e vivem a seguir modas. Tudo isto é triste e se não é fado também não é la feria (o que é ainda mais triste).

Os últimos anos da obra de Éme têm sido marcados pela sua parceria com Moxila,que é também parceira de vida. “Nos últimos três discos”, recapitula ele, “há uma fase nova: o 1.º [Éme e Moxila] era óbvio sobre o que era, e só tinha de fazer metade das músicas; o Disco Tinto era um conceptual e chegado a este quis ser pop”.

Admite que não sabe “exatamente” o que está a fazer: “Não sou um músico extraordinário, não penso que me está a faltar uma 5.ª ou uma 9.ª aumentada, não sou um iluminado da música”. Assim se confessa, antes de se auto-indagar: “Ainda não percebi bem o propósito disto tudo”. Mas nem tudo é auto-depreciação: na produção, ele sente que “já não é preciso rodinhas”, sente que ele e a Moxila já conseguem fazer um disco com um bom som, sem grande ajuda externas.

Moxila, está, claro, presente por todo o lado – num arranjo aqui, numa harmonia ali, numa voz acolá. Éme adora feedback e quem melhor para o dar do que a companheira? Claro que ela podia não ter feitio para isso, mas “ela inevitavelmente dá-me”. Éme está em casa a escrever “e surge uma observação dela ou ela tem uma ideia melhor ou ela ajuda-me a reescrever uma coisa que não gosta”. É óbvio que ele gosta desta parceria – aliás, se assim não fosse, desde Domingo à Tarde [disco a meias, de 2017], cada um fazia as suas coisas a solo. Mais: por ele, “o disco teria sido assinado a meias, porque nos arranjos ela fez muita coisa – enquanto eu fiz a parte mais rítmica, ela fez a parte melódica”.

Quando não está a fazer música, Moxila faz banda desenhada, assunto no qual Éme não costuma envolver-se. Porque a música não faz pingar todas as moedas necessárias à sobrevivência, ele tem “feito biscates, coisas que permitam ter muito tempo livre, até porque isto da música consome-me muito tempo, então tenho sempre trabalhos que não me ocupem muito a cabeça. A música também dá algum dinheiro – e no fundo este disco também é um disco biscateiro”, o que, temos de admitir, é um excelente conceito. “Esse lado de ter de fazer biscates para sobreviver, isso traz algumas experiências que os meus colegas mais boémios da música não têm – este disco não é super boémio”.

Não, não é não é super boémio – é até meio caseiro, o disco de um gajo normal, que não tem bem onde cair morto, que faz o que pode. O que soa um pouco a Éme: “Estou um bocado naquele dilema de não saber onde encaixo”. Numa segunda reflexão, não é bem assim: “Para todos os efeitos, encaixo-me na tradição que vem do B [Fachada] e da [editora] Flor Caveira. Não me sinto um alien. Eles sim, inventaram tudo do zero, muitos caminhos já estavam desbravados”.

Éme ainda sente espanto ao recordar o momento em que se deparou com a música da geração mais velha: “Quando apareci, já sabia que dava para fazer o que me apetecesse”, admite. E como é que sabia isso? Muito simples: “Um dia estás a ouvir indie americano e de repente ouves um gajo que é pastor protestante [Tiago Cavaco, cujo nome artístico nessa altura era Tiago Guillul] a dizer “Beijas como uma freira” e ficas “OK, tá tudo a valer tudo”. Isso é libertador, mas por outro lado, é assoberbante. Pensas: e agora, o que é que um gajo diz depois disto?” Diz: “E tenho imenso medo de ficar assim / alegre p’ra todos / e triste p’ra mim”.

De toda essa malta da Flor Caveira, só B Fachada, Samuel Úria e Jorge Cruz (dos Diabo na Cruz) se tornaram profissionais. Dos músicos chegados a Éme, talvez só Maria Reis (das Pega Monstro) viva da música. Não sei se Éme devia ficar rico à conta do que canta – mas ricos ficamos nós ao ouvir canções como Aleatório e o restante Colegas de Trabalho.

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