Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Alguns nomes foram alterados para proteger as identidades dos entrevistados. Nesses casos, as vozes foram modificadas com recurso a inteligência artificial. Junho de 1999. Neste momento, já estarão mais de 3 mil pessoas reunidas neste descampado na zona industrial de Bucareste. Há gente de todas as idades, homens e mulheres vestidos de todas as cores. Estranhamente, não há caos. Todos sabem para onde têm de ir e o que devem fazer: esperar. Está tudo preparado para a meditação em espiral Yang, uma das atividades regulares mais aguardadas pelos alunos do MISA, o movimento de ioga fundado em 1990 na capital da Roménia por Gregorian Bivolaru. Todos que ali estão praticam ioga numa das várias escolas MISA espalhadas pelo país. Tiveram de se inscrever previamente, pagar uma pequena taxa, enviar dados pessoais, incluindo data de nascimento, signo e fotografias do corpo inteiro. Já estão no terreno, de mãos dadas, homens e mulheres alternados, a formar uma gigantesca espiral e organizados pelos respectivos signos do zodíaco, a começar em Peixes, o signo de Bivolaru. Só falta mesmo o guru para a meditação poder começar. Passa pouco das 8 da noite quando chega um jipe azul. Primeiro, abrem-se as portas traseiras e saem sete ou oito raparigas muito jovens, que rapidamente encontram os lugares delas na espiral. Depois, abre-se a porta do passageiro. Gregorian Bivolaru é imediatamente rodeado pela multidão. Vai caminhando devagar e conversando com os seguidores. Mesmo ali ao lado, junto à equipe de segurança do evento, há um magote de homens e mulheres que não estão inscritos, mas querem muito estar na presença do guru. Bivolaru repara numa rapariga que parece estar à espera dele. Chama-se Daria. Conta-lhe que está nas aulas de ioga há um ano na província e diz-lhe que gostava muito de participar na meditação, mas que não conseguiu inscrever-se a tempo. Bivolaru dá-lhe autorização para se juntar à espiral. E faz mais: convida-a para o visitar na semana seguinte. Dentro de poucos dias, Daria estará a viver em casa dele. Ela tem apenas 14 anos. Quando Daria o conhece, em 1999, Gregorian Bivolaru já dá aulas de ioga há muitos anos. O MISA, Movimento para a Integração Espiritual no Absoluto, foi fundado em Bucareste, meses depois da queda do regime de Nicolae Ceaușescu e da execução sumária do ditador comunista. Mas esse não foi o início do guru. Há já duas décadas que Bivolaru praticava ioga e dava aulas em várias regiões da Roménia. Na noite em que Daria se encontra com ele pela primeira vez, a expansão do movimento está só a começar. Nesse mesmo ano, abre a primeira escola de ioga na Alemanha. A partir daí, as inaugurações vão multiplicar-se por toda a Europa e chegar aos Estados Unidos, África do Sul, Argentina, Uruguai, Tailândia e até Índia. Antes de chegar aos 18 anos, Daria vai fazer um juramento solene e comprometer-se a entregar à MISA todo o dinheiro que receber. A seguir, vai ser enviada para o Japão, juntamente com dezenas de outras raparigas, para trabalhar em bares, clubes de striptease e casas de alterne. "Os Segredos da Seita do Ioga" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Episódio dois: Há Raparigas a Desaparecer.
Conhecer a verdade muda tudo. Muda histórias, muda caminhos. Na estrada, também há escolhas que fazem a diferença. A gama elétrica Kia tem cinco modelos, com opções para todos os estilos de condução e momentos da vida. Uma nova forma de avançar com liberdade e mais de 600 km de autonomia. Gama elétrica Kia. Elétricos sem limites.
Kia. Movement that inspires. O ano é 1971. Há meses que a população de Bucareste vive aterrorizada. Há um assassino à solta, a matar e violar mulheres. Todas jovens, quase todas loiras. Os crimes acontecem em noites de chuva ou tempestade, sempre depois da meia-noite e são particularmente violentos. As vítimas são mortas a golpes de machado e depois violadas e mordidas. Há até relatos de que o assassino lhes bebe o sangue. Toda a gente tem medo do vampiro de Bucareste. As mulheres começam a pintar o cabelo de castanho ou preto e os homens organizam-se em milícias para tentarem apanhar em flagrante o homicida, que já matou quatro e atacou outras 10. Enquanto isso, a polícia investiga. Primeiro, interroga os doentes mentais que vivem nas ruas da capital romena. A seguir, os condenados por homicídio ou violação, recentemente libertados das cadeias à volta da cidade. E por fim, todos os homens que moram nas zonas onde os crimes aconteceram. E é aí que o jovem Gregorian Bivolaru, então com 19 anos, a viver com a mãe e a trabalhar nos Correios locais, entra pela primeira vez no radar das autoridades romenas. Aliás, entra e já não sai. Os agentes da Securitate, a polícia secreta da República Socialista da Roménia, ficam intrigados com aquele jovem. Quando não está a trabalhar, está na biblioteca municipal a ler sobre filosofia indiana, parapsicologia e telepatia ou a praticar ioga. Em casa, guarda pilhas de correspondência sobre o assunto. Cartas enviadas de dentro e fora da Roménia por jovens artistas, intelectuais e até comerciantes de livros ilegais. E guarda materiais proibidos pelo regime comunista, como literatura erótica e fotos explícitas. As autoridades chegam depressa à conclusão de que Gregorian Bivolaru não é o vampiro de Bucareste, mas a polícia secreta abre imediatamente um ficheiro com o nome dele. Considera que as ideias daquele jovem e os contactos que ele já foi capaz de estabelecer, graças ao trabalho nos Correios, podem ser um perigo para o país. Nesta altura, Ceaușescu até tolera a Igreja Católica Ortodoxa Romena, mas proíbe todas as restantes religiões e misticismos. O Estado é ateu e é também defensor da moralidade e dos bons costumes. O ioga já tinha sido proibido na Roménia durante os anos 50 e 60 e em breve voltaria a ser. Nesta altura, é tolerado, mas só como prática de atividade física e não espiritual.
Em 1971, comecei a ensinar ioga. Havia uns 14 alunos. Fiz um curso daquilo a que chamei ginástica de ioga psicossomática. A dada altura, decidimos começar a afixar cartazes para estas aulas de ioga. Os serviços secretos, que na altura eram muito ativos, aperceberam-se disso. Lembro-me que eles restringiram os telefones e acabaram por cancelar o número que aparecia nos cartazes.
Apesar do trabalho nos Correios, o jovem Bivolaru não consegue evitar a censura da Securitate, que lhe revista a correspondência regularmente. Ainda em 1971, escreve para uma revista na República Democrática Alemã. Apresenta-se num inglês repleto de erros, como um jovem romeno de 19 anos, fã de artigos eróticos alemães e da franqueza alemã no que toca ao sexo. Infelizmente, na Roménia não existem artigos sexy, escreve, antes de pedir que lhe enviem num envelope discreto um catálogo de fotos sexy, slides sexy, filmes sexy e revistas sexy e de se oferecer para pagar em marcos alemães ou em dólares americanos. Mas em vez de receber o catálogo alemão, Bivolaru é confrontado pela polícia secreta e nem tenta negar nada. Explica que está a estudar o tantrismo e o material erótico que quer importar do estrangeiro, tal como aquele que já tem em casa, é apenas um instrumento de trabalho. Precisa dele para duas coisas: para tentar entrar em contacto com as mulheres nuas das fotografias, de forma espiritual ou telepática, e para treinar a capacidade de ter orgasmos não seminais. A resposta, ainda hoje está preservada no arquivo da Securitate. "Uso as imagens para praticar ioga tantra. Olho para as imagens e recanalizo a minha energia sexual no sentido de alcançar um plano superior de consciência. Desta forma, consigo ligar-me à consciência universal da humanidade, que é, acima de tudo, uma fonte inesgotável de amor." Antes do ioga voltar a ser proibido na Roménia em 1982, juntamente com o karaté e outras artes marciais, Bivolaru ainda há de ser detido e condenado a um ano de prisão por posse e disseminação de material obsceno. É só a primeira vez.
Apesar de as aulas terem sido oficialmente banidas, continuei a reunir-me em minha casa com cinco pessoas de confiança, que depois se encontravam com mais de 170 pessoas. Portanto, eles continuaram a praticar ioga ilegalmente e eu continuei com esta atividade.
Essa atividade ama, só continuou até 1993.
Em abril de 1984, Gregorian Bivolaru é detido por difusão ilegal de publicações místicas e por trabalhar como professor de yoga sem licença legal. A partir desse ano, o guia espiritual há de passar a vida a entrar e a sair da prisão, na Roménia e no estrangeiro. Até hoje.
Eu tive sempre essas pancadas sexuais dele, mas também não é nada burro, é inteligente, lê muito. Então criou um grupo, inicialmente à volta de umas 20 pessoas à volta dele. E através deste grupo, que até hoje ainda estão com ele, conseguiu crescer.
Daria é romena, mas vive em Portugal há vários anos. Conheceu Bivolaru em 1999, uma década depois dos romenos darem início à revolução que depôs o regime comunista. Quando Ceausescu caiu, Gregorian Bivolaru estava, mais uma vez, preso. Dessa vez, num hospital psiquiátrico com diagnóstico de desenvolvimento paranoico da personalidade, aliado a problemas de masoquismo moral e inclinações inautênticas para a ética, religião, arte e profissões espirituais. Assim que Nicolae e Elena Ceausescu foram executados, depois de um julgamento militar improvisado no dia de Natal, Bivolaru foi posto em liberdade, como milhares de presos políticos. Daria recorda como o MISA foi criado poucos meses depois, e como muito rapidamente, o guru conseguiu começar a juntar mais e mais seguidores.
Depois do Ceausescu, quando as pessoas tinham uma mentalidade tão fechada, aparece alguém que está aberto da cabeça, as pessoas pegam logo, se agarram. Quando se trata de sexualidade, outra coisa ou outra, energia, ainda atrai mais. E cada vez mais. Então foi simples, porque se você tem 20 pessoas à tua volta que te colocam no pedestal, amanhã tens 40, depois tens mil, depois tens 30 mil. Cresce. Todo mundo fala: "Aquele é um guru, aquele sabe as respostas de tudo". As pessoas à volta dele criaram tudo, porque ele sozinho, acho que não é ninguém. Ele tem força através das pessoas que dão força a ele.
I started to practice yoga in 19-
Mihai Răpcea é uma dessas pessoas. Em 1991, tem 16 anos. Está, como a grande maioria dos romenos, sedento de tudo aquilo que, durante décadas, foi proibido pelo regime comunista. Quer ler os livros que antes eram proibidos, ouvir música do Ocidente e experimentar a espiritualidade e o yoga, que acaba de se tornar uma espécie de nova obsessão nacional.
Gregorian Bivolaru was a person who already knew a lot of things about this domain.
Gregorian Bivolaru já sabia muita coisa sobre este assunto e foi por isso que rapidamente se tornou muito popular nesta área. Além disso, tinha alunos de um período anterior, da época comunista, por isso já dispunha de uma equipa para organizar as aulas de yoga. E assim, em pouco tempo, transformou-se num movimento nacional, uma organização com muitas aulas em todas as grandes cidades da Roménia.
National movement, national organization with many classes in all the big cities of Romania.
Mihai inscreve-se nas aulas em Bucareste logo nesse ano. O ambiente é de efervescência. Faz lembrar um acampamento de verão. Todos os dias há livros novos para ler, conhecimento para apreender e pessoas para conhecer. Bivolaru dá duas aulas por semana, teóricas. Fala sobre espiritualidade, sobre os benefícios dos asanas, as posturas do yoga, e os efeitos dos exercícios respiratórios para a saúde.
Twice a week we met him. He had some communication conferences and he speak.
Encontrávamo-nos com ele duas vezes por semana. Ele dava conferências e falava sobre vários temas, mas não era uma seita, era um movimento com pessoas interessadas em praticar algo novo, extraordinário, com muitos efeitos benéficos.
Many beneficial effects and so on.
Algum tempo depois de entrar na universidade, Mihai muda-se para um dos ashrams do movimento. Está a estudar Direito. Bivolaru, que desistiu da escola no fim do secundário, diz-lhe que, se quiser, pode usar a biblioteca pessoal dele. É uma divisão grande, cheia de livros em várias línguas sobre os mais variados temas. Há obras sobre hinduísmo, budismo, taoísmo, sufismo, esoterismo ocidental e cristianismo esotérico. E obras sobre o oculto, alimentação saudável, homeopatia e medicinas alternativas. É uma biblioteca que revela pelo menos duas coisas. Bivolaru é um leitor incansável E a filosofia que fundou é tudo menos original. É uma amálgama de teorias e conceitos copiados de religiões e movimentos espirituais.
Naquela altura, penso que até 1995, o movimento reuniu cerca de 30 mil pessoas, membros que participavam nas aulas em todo o país, na Roménia. Ouvimos falar das práticas tântricas, mas apenas no sentido em que era natural praticar a continência sexual, fazer amor sem desperdiçar sêmen. No início, era algo muito normal. Não havia problema nenhum, havia uma grande confiança nele, porque os conselhos que ele dava eram muito normais e, posso até dizer, profundos, porque ele tinha essa capacidade para comunicar com as pessoas.
Por esta altura, o MISA já ensina tantra, além de ioga, e a popularidade de Gregorian Bivolaru não para de aumentar. Mirhai Rapsea tem agora 20 anos. Vive no ashram, paga pela cama onde dorme e contribui para as despesas de gás, água e eletricidade. Como está a estudar Direito, ajuda como estagiário na equipa legal do MISA, composta por outros alunos, que são advogados ou juristas. E como todas as outras pessoas que ali moram, faz duas horas de trabalho voluntário por dia. Foi colocado na biblioteca do guru. É um ponto de observação privilegiado, a pouco mais de 100 metros da casa de Bivolaru. Todos os dias, a todas as horas, há pessoas à procura do guru. Querem conhecê-lo pessoalmente, pedir-lhe orientação espiritual e juntar-se à comunidade. É preciso arranjar espaço para elas e construir mais ashrams e salas de ioga. A mão de obra é fácil de arranjar. Os novos e os velhos alunos fazem esse trabalho de forma voluntária. Mas para comprar casas, terrenos e materiais de construção, é preciso muito dinheiro. Daria acaba de fazer 18 anos. Está há mais de dois a viver num ashram em Bucareste. O verão de 2002 está a chegar ao fim, o que significa que a seguir devia começar o último ano do liceu. Mas o guru tem outros planos. Vai enviá-la para o Japão. Daria já sabe o que a espera. Não é a primeira aluna do MISA a ir para o Japão. Antes da partida, tem de memorizar algumas palavras em japonês, tem de aprender a dançar de forma sensual, tem de decorar coreografias, tem de fazer provas para vestidos provocantes que depois a farão usar para se apresentar em palco e tem ainda de fazer um juramento solene com a mão direita sobre a Bíblia.
E tudo com o intuito, com propósito e com juramento de doar tudo, inclusivamente joias, aparelhos digitais, tudo o que nós recebemos dos clientes. Naquele contexto, foi um nightclub, mas podias ter qualquer tipo de trabalho, a doação era a mesma. E era tudo para doação. Nós tínhamos direito de guardar o equivalente a oito dólares por dia para comer. O resto era tudo para doar.
Para além de entregarem tudo aquilo que receberem, Daria e as outras raparigas enviadas para o Japão têm de prometer uma última coisa.
Caso tivermos relações sexuais, usarmos preservativos, porque muitas mulheres iam voltar para a Roménia depois disso.
Daria calcula que até 2003, o movimento de Bivolaru tenha enviado para o Japão 2000 mulheres para trabalharem em bares, clubes de strip e casas de alterne. Algumas mulheres são enviadas para Tóquio ou outras grandes cidades japonesas. Daria é mandada para Matsumoto, a mais de 200 km da capital.
A minha sorte foi que, como era uma área montanha, não se praticava nem striptease, nem topless, porque a mentalidade aí era mais fechada. Então, por esse lado, eu estive protegida, porque me limitei a fazer karaokê, servir na mesa, falar com os clientes.
Fica alojada numa casa com outras raparigas. Trabalham todas no mesmo bar, num prédio no centro da cidade. O edifício Acrópolis tem colunas dóricas à entrada e seis andares. Há clubes noturnos em praticamente todos eles. O Bram Pebbles fica no terceiro piso, tem televisões e microfones para karaoke e tem um varão mesmo no centro da sala. Por esta altura, Mihai Răpcea já é advogado. Continua a viver no ashram e a fazer parte da equipa jurídica do movimento, mas começa a pressentir que, afinal, o guru não será assim tão perfeito. Apercebe-se de que há uma operação em curso com o Japão que envolve várias alunas das escolas de ioga. Sabe que há empresários japoneses que viajam até à Roménia para escolherem mulheres em castings. Sabe que há contratos de trabalho assinados e sabe também que, por muito que o nome do movimento de ioga criado por Gregorian Bivolaru não conste nesses documentos, nada acontece sem o conhecimento e o consentimento do guru. Até porque é o próprio Mihai quem ajuda a criar as empresas para fazer estes contratos.
Eles escolhiam algumas raparigas, elas aprendiam um pouco de japonês, faziam alguns vestidos e aprendiam a dançar. E o empresário japonês que veio à Roménia escolheu algumas raparigas para esses contratos e o negócio começou. Mas não em nome do Misa. Naquela altura, tinham uma empresa, mas com a aprovação do Gregorian Bivolaru, isso é certo. Passado algum tempo, isso tornou-se algo mais ou menos normal. Recrutavam raparigas nas aulas de ioga e nos ashrams.
Mas o guru não manda mulheres apenas de Bucareste para o Japão. Ao longo dos anos, centenas de alunas de escolas de todo o mundo vão ser enviadas para outros países. Essas simplesmente desaparecem. De um dia para o outro, conta Vera, que passou vários anos na escola de Lisboa. Não se sabe para onde vão, nem o que vão fazer.
Eu estou num belo dia, normalíssimo, a olhar no meu telemóvel, vejo três fotos e cai-me tudo. E penso: "ela sempre me disse que estavam lá fora em retiros". E penso: "ela não tem estado em retiros, ela se calhar tem estado sempre a fazer isto". Estou um dia em choque e a chorar.
O alerta chega por WhatsApp, anos depois de Vera cortar com o movimento. Mantém contato com muito poucas pessoas dos tempos da escola de ioga. As fotografias são enviadas por uma delas. São capturas de ecrã de um site chamado Rampant TV. No lado direito da imagem, há um chat com mensagens de incentivo em inglês: "Go girl" ou "You're so hot". No rodapé, há várias fotografias de outras mulheres maquiadas, seminuas e com nomes sugestivos, como Bunny, Rosy Love ou Goddess. Do lado esquerdo está a Esmeralda, sorridente, sentada num sofá cheio de almofadas. No menu do site há seis opções. É possível ligar-lhe, é possível fazer uma chamada em vídeo e é possível dar-lhe uma gorjeta. Depois, por 30 créditos por minuto, também é possível ativar a chamada Perv Cam, sendo que em inglês perv é a forma abreviada de pervertido e cam de câmara. Por 50 créditos por minuto, já é possível pedir um privado e, por um valor não discriminado, é possível ativar à distância um vibrador que Esmeralda está a usar.
Eu começo a receber as fotografias, mas ao mesmo tempo, às tantas já eram múltiplas pessoas da escola a mandarem fotos de outras.
A descoberta inicial é feita por outra aluna. Beatriz passou quase 10 anos na escola e a viver no ashram. É ela a remetente das mensagens enviadas para Vera e para outros ex-alunos de Lisboa. Percebe, através de um fórum alimentado por antigos membros do movimento a nível internacional, que há mulheres fechadas em casas na Roménia e na República Checa a trabalhar em chats pornográficos. Assim que entra no site, Beatriz descobre várias alunas e até professoras da escola de Lisboa.
Tu conseguias ver muita coisa. Se tu quisesses interagir com a pessoa, é que tinhas que pagar, mas tu conseguias ver ela a seduzir-te, porque elas têm as câmaras abertas, elas têm que cativar a pessoa, porque repara, é um site onde tem muitas webcams a funcionar ao mesmo tempo, o que te faz carregar na da direita e não na da esquerda. Então elas têm que aliciar e cativar, mas é um site porn, aquilo não tem nada a ver com o tantra, não tem nada a ver com evolução espiritual, nada. Aquilo é só ganhar dinheiros, ganhar dinheiro para a escola.
Miranda Grace é inglesa. Conhece bem a casa nos arredores de Praga, onde as alunas da escola de Lisboa estão em direto a fazer vídeos pornográficos para a montra da Rampant TV. Em 2019, durante seis meses, também viveu ali.
Não tinha o meu telefone, não tinha o meu passaporte. Pude ficar com o meu cartão bancário, mas mais uma vez tive de mentir à minha família, tive de lhes dizer que estava noutro lugar, tive de inventar uma história.
Chega à capital checa exausta, depois de uma viagem noturna de autocarro vinda de Paris. A primeira coisa que faz, ainda antes de ver o quarto que vai partilhar com outras raparigas que conhece vagamente, é entregar o passaporte e o telemóvel. Durante os próximos seis meses vai manter-se incontactável. Ninguém pode saber onde está, nem o que está a fazer, nem sequer a família. E só pode sair de casa com autorização superior.
Fazemos estes rituais de manhã e depois trabalhamos no site. Nos primeiros dias podes ficar só a observar, a ver as outras mulheres no site.
Está ali para trabalhar. Seis dias por semana, durante três ou quatro horas por dia, vai estar fechada num quarto com uma câmara a transmitir em direto para a Rampant TV. Miranda e todas as outras mulheres, incluindo muitas portuguesas, passaram anos naquele site a ser exploradas sexualmente, mas nenhuma delas entrou forçada naquelas casas. Todas vieram de livre vontade.
Portanto, eu era uma prisioneira, estava em prisão domiciliária, mas da minha perspetiva, interiormente era livre porque estava focada no meu crescimento espiritual e as circunstâncias externas eram apenas aquilo que tinha de fazer por isso.
Estavam convencidas de que eram privilegiadas, porque estavam a entrar no Jardim dos Milagres.
O Bivolaru chamava-lhe o Jardim dos Milagres, por causa das transformações incríveis que lá aconteciam às mulheres.
Karma yoga. É o conceito que leva todas estas mulheres a viajar até ao Japão para trabalhar em bares de striptease ou a estar em frente a câmaras a participar em chats de sexo pela internet. O karma yoga é importado do hinduísmo. O objetivo é transformar tarefas do dia a dia em trabalho espiritual, que os alunos, de forma desapegada e altruísta, doam à escola. Mas no movimento criado por Gregorian Bivolaru, o karma yoga é apenas um instrumento de controle e manipulação. Com a promessa de que vão poder acelerar a evolução espiritual, estas mulheres fazem tudo o que o guru lhes pede. Porque Gregorian Bivolaru não fundou apenas uma escola de yoga, nem lançou apenas um movimento. Ele criou uma seita.
Há um colega nosso que me envia um vídeo a explicar como é que uma seita funcionava, para ver se eu percebia ou não a coisa. Esta sinta que tinha uma luva. Quando eu vi aquele primeiro vídeo que me enviaram a explicar como é que uma seita se forma, caiu-me tudo, porque era tão óbvio. Era tão óbvio que doía.
Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.
Se eu alguma vez contasse o que se tinha passado, que eu era uma mulher larval, ignorante.
Não, não pode ser. Juramento. Fiz o juramento, não posso.
É muito complicado provar que estamos a ser forçadas a alguma coisa, quando, na verdade, nos levaram a crer que efetivamente aquilo é bom para a nossa evolução espiritual.
É um processo de desconstrução do indivíduo, em que ele chega a um ponto em que ele já obedece sem pensar. Ele sabe que tem que obedecer. Já não interessa porque é que eu tenho que obedecer.
Se ouviu esta história e está a passar ou conhece alguém que esteja a passar por uma situação semelhante, pode ligar para a APAV, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, através do número de telefone 116 006. O Observador contactou a Natha, escola espiritual de yoga e tantra, a Federação Atman, à qual pertencem as escolas de yoga espalhadas pelo mundo, e ainda Gregorian Bivolaru, através dos representantes legais. Foram confrontados com várias questões relacionadas com as alegações feitas ao longo deste podcast. O Observador contactou Gregorian Bivolaru através dos representantes legais. Não responderam. O Observador contactou a Natha, escola espiritual de yoga e tantra. A direção não aceitou ser entrevistada, mas respondeu por e-mail a várias perguntas. Seguem-se as perguntas e respostas relevantes para este episódio. O Observador pergunta Professoras e alunas da escola viveram durante meses numa casa nos arredores de Praga, capital da República Checa. A partir dessa casa, que é propriedade da Federação Atman, estas mulheres desempenharam, alegadamente, trabalho sexual em chats de vídeo em pelo menos um site chamado Rampant TV. A Natha responde: "A Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra desconhece por completo alegado trabalho sexual em chats de vídeo". "O Observador pergunta: estas mulheres foram enviadas para Praga pela Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra ou com o apoio da Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra?" A Natha responde: "A Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra não organizou, promoveu, apoiou ou financiou qualquer deslocação de professores ou alunas para Praga, nem teve qualquer participação direta ou indireta em atividades fora do âmbito das suas funções enquanto associação. A Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra desenvolve exclusivamente atividades relacionadas com o ensino e a prática do yoga e do tantra em Portugal". "O Observador pergunta: a Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra tem conhecimento, sanciona e incentiva esse tipo de alegado trabalho sexual por parte das suas professoras e alunas?" A Natha responde: "Não, a Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra não tem qualquer conhecimento, não sanciona nem incentiva a tal". "O Observador pergunta: este tipo de alegado trabalho sexual está de acordo com os ensinamentos lecionados nas aulas de tantra da Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra?" A Natha responde: "No âmbito da sua tradição espiritual, a Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra aborda o tema de erotismo sagrado como uma dimensão filosófica e espiritual do ser humano, entendendo-o como uma expressão consciente, respeitosa e transformadora da energia vital, sem quaisquer incentivos ou ligações a atividades de caráter comercial ou sexual". "O Observador pergunta: o site da Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra, no separador Quem Somos, faz referência a Gregorian Bivolaru como um verdadeiro mestre espiritual vivo. Qual é a ligação de Gregorian Bivolaru à Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra?" A Natha responde: "Como pode ser verificado nos respectivos estatutos suprarreferidos, a Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra não tem qualquer ligação a Gregorian Bivolaru, sendo que o mesmo não desempenha nem nunca desempenhou qualquer função na Natha, não é, nem nunca foi sócio ou membro dos respectivos órgãos sociais. Podemos dizer é que, como autoridade publicamente reconhecida na área, com vários livros publicados, nos seus cursos, a Natha segue alguns dos seus ensinamentos, pelo que no nosso site apresentamos Gregorian Bivolaru como o coautor do curso de Yoga Integral Esotérico, do curso de Tantra Yoga Esotérico, oferecido pela Federação de Yoga e Meditação Atman, da qual a Natha é escola membro afiliada, e autor de muitos livros e publicações espirituais. Sendo que o curso de Yoga Integral Esotérico e o curso de Tantra Yoga Esotérico são apenas dois dos variados cursos que disponibilizamos na Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra". "O Observador pergunta: e qual é a posição da Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra face à detenção de Gregorian Bivolaru por suspeitas da alegada prática de crimes de violação, tráfico de seres humanos, sequestro e abuso de fraqueza?" A Natha responde: "A Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra repudia de forma inequívoca qualquer forma de violência, exploração ou abuso, ou qualquer tipo de atividades criminosas. Não compactua com atividades ou comportamentos que possam configurar crimes dessa ou de outra natureza. A Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra pauta-se pelos valores éticos do yoga, do respeito pelo ser humano e da integridade individual. Defende que qualquer suspeita ou acusação deve ser devidamente apurada pelas autoridades competentes, no respeito pelo princípio da justiça e do Estado de Direito". "O Observador pergunta: a Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra deixou de lecionar aulas escritas por Gregorian Bivolaru?" A Natha responde: "A resposta a esta questão está clara no nosso site, aberto a todos os que quiserem ler. Gregorian Bivolaru é o autor do curso de Yoga Integral Esotérico, coautor do curso de Tantra Yoga Esotérico, oferecido pela Federação de Yoga e Meditação Atman, da qual a Natha é escola membro afiliada, e autor de muitos livros e publicações espirituais". "O Observador pergunta: por que motivo se mantém a referência a Gregorian Bivolaru como mestre espiritual vivo no site da Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra?" A Natha responde: "No contexto do yoga, o termo mestre espiritual designa alguém que, através da sua experiência e prática, inspira e orienta outros no caminho de autoconhecimento e do desenvolvimento interior. A referência a mestres espirituais vivos reflete uma tradição milenar presente em várias escolas de sabedoria presentes em todo o mundo, que reconhecem a importância de pessoas experientes que transmitam conhecimento de forma direta e viva. A nossa menção mestre espiritual vivo deve ser entendida nesse enquadramento filosófico e espiritual, e não como uma validação pessoal de comportamentos ou acontecimentos externos à prática e aos ensinamentos do yoga". "O Observador pergunta: e qual é a ligação da Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra ao MISA?" A Natha responde: "A Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra é uma associação com personalidade jurídica própria, com órgãos sociais próprios, que se dedica ao ensino do yoga e do tantra em Portugal, enquanto o MISA, Movement for Spiritual Integration into the Absolute, é uma organização estrangeira que promove atividades também de caráter espiritual a nível internacional, não existindo qualquer relação jurídica, administrativa, orgânica ou outra. Temos conhecimento que, a título individual, no exercício da sua liberdade pessoal e espiritual, alguns alunos e professores sócios da Natha - Escola Espiritual de Yoga & Tantra participam em eventos internacionais organizados por essa e outras entidades A Federação Atman, à qual pertencem as escolas de yoga do movimento criado por Grigorian Bivolaru, não respondeu diretamente às questões enviadas pelo Observador, mas enviou um comunicado. Nesse texto, a Federação Atman garante não ter recebido, até ao momento e por parte da Justiça francesa, qualquer comunicação oficial por possível envolvimento no caso. Refuta todas as acusações levantadas contra membros afiliados, professores e alunos. Recorda que a investigação ainda está em curso e que não há qualquer acusação, muito menos uma condenação. E acusa as autoridades francesas e os meios de comunicação internacionais de perseguição religiosa e de uma campanha mediática que, ao longo de anos, vem projetando a imagem da escola como um culto sexual culpado de lavagem cerebral e abuso sexual. Lê-se no comunicado: "O que aconteceu em França é a continuação de uma longa série de ataques contra membros afiliados da Federação Atman e o professor de yoga Grigorian Bivolaru, por forças que consideram intolerável qualquer combinação de erotismo e espiritualidade". No mesmo texto, a federação garante ainda que não é responsável pela vida privada dos funcionários, alunos e professores das escolas afiliadas. Diz que as escolas são independentes e assumem total responsabilidade pelas respetivas decisões e atividades. Acrescenta ainda que condena categoricamente todos os tipos de abuso, incluindo o uso abusivo da força policial e detenções injustas. E por fim, assegura que ensinamentos de comportamento sexualizado nunca foram nem serão tolerados na Federação Atman. "Os Segredos da Seita do Yoga" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Daniela Ruah, e tem banda sonora original de Benjamim. O guião e as entrevistas são de Mariana Marques Tiago e Tânia Pereirinha. A sonoplastia e desenho de som são de Pedro Oliveira. O design gráfico é Diana Moreira. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Se tem alguma informação para partilhar sobre este podcast, ou se conhece alguma história que acha que deve ser investigada, pode escrever-nos para podcastplus@observador.pt. Podcast Plus do Observador: é mais do que um podcast.
Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.
