Caiu, reergueu-se e voltou ao topo. Tem apenas 20 anos, mas já passou por quase tudo aquilo que um desportista de elite está sujeito. Foi na quinta-feira que, em plena Arena de Milão, Alysa Liu se coroou a nova campeão olímpica da patinagem individual feminina, no que respeita à patinagem artística no gelo. Na final, a norte-americana de 20 anos até não entrou bem, tendo ficado no terceiro lugar no programa curto, a mais de dois pontos da japonesa Ami Nakai (78,71-76,59), mas respondeu da melhor forma no programa livre e “rebentou” a fasquia com uma notável prestação que lhe valeu uma pontuação de 150,20. Esse registo foi suficiente para ultrapassar Nakai (219,16) e a também japonesa Kaori Sakamoto (224,90), chegando ao ouro com um total de 226,79 pontos. Não fosse a performance de Liu e a competição tinha voltado a ser dominada pelo Japão, já que Mone Chiba terminou em quarto à beira das medalhas (217,88).
O resultado alcançado por Alysa Liu nos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina entrou para os livros da história da patinagem artística por diversos motivos, a começar pelo regresso dos EUA ao título olímpico na modalidade, algo que não acontecia há 24 anos, desde que Sarah Hughes chegou ao ouro em Salt Lake City-2002. Curiosamente, aquela potência desportiva não conquistava um pódio na patinagem artística feminina desde Turim-2006, com Sasha Cohen. Noutro prisma, a atual campeã do mundo, competição em que também quebrou um jejum norte-americano que perdurava há 19 anos, anotou a melhor pontuação da sua carreira. Esta é, ainda, a primeira medalha de ouro de um atleta dos EUA numa prova individual desde Pequim-2022, com Nathan Chen.
“Estou muito honrada por ter conquistado o ouro e por estar ao lado de quem o conquistou no passado. Elas são incríveis. É fantástico ter o mesmo que elas têm. Estou muito feliz com a forma como patinei. O público foi incrível e a patinagem correu exatamente como queria. Jantei com a minha família ontem à noite [quarta-feira] e foi inacreditável. Quando estava a patinar, ouvi os aplausos e senti-me muito conectada com este público. Quero competir cá novamente”, disse a norte-americana, que já tinha conquistado o primeiro lugar na prova equipas, na semana passada, citada pelo Comité Olímpico Internacional (COI). Este resultado tem especial importância se tivermos em conta que, há praticamente quatro anos, Alysa Liu abandonou o desporto sem saber se alguma vez regressava, alegando fadiga e esgotamento, depois de se ter tornado campeã nacional com apenas 13 anos e de ter estado nos Jogos Olímpicos de 2022 e no Mundial, onde conquistou o bronze.
A história da patinadora remonta a Clovis, na Califórnia, onde Alysa Liu nasceu em agosto de 2005 e foi criada por Arthur Liu, um chinês que se exilou nos EUA com 25 anos, por estar ligado a um movimento pela democracia da China, e que teve todos os seus cinco filhos através de barriga de aluguer.
Alysa é a filha mais velha de Arthur que, na América do Norte, relançou a sua vida e tornou-se advogado, acompanhando de perto, mais tarde, a carreira da filha, ao ponto de, em novembro de 2021, pai e filha terem sido alegadamente vítimas de uma operação de espionagem organizada pelo governo chinês, que pretendia recolher informações privadas de dissidentes políticos chineses que viviam nos EUA. Nesse sentido, os espiões terão chegado ao contacto com os Liu através de identidades falsas relacionadas com o Comité Olímpico norte-americano (NOC), obtendo cópias dos seus passaportes. Segundo o pai, a operação serviu como uma tentativa de “intimidação” e “silenciamento”, com vista a impedi-lo de tecer declarações “políticas ou relacionadas com a violação dos direitos humanos na China”. Poucos meses depois, Alysa competiu nos Jogos de Pequim, depois de o Departamento de Estados dos EUA ter acionado meios adicionais de proteção.
Voltando à primeira década deste século, Alysa Liu começou a patinar com cerca de cinco anos, por influência do pai, que era fã de Michelle Kwan. A ex-patinadora Laura Lipetsky tornou-se na sua primeira treinadora, inicialmente em aulas de grupo, seguindo depois, ainda antes de completar seis anos, para as sessões individuais. Cindy Stuart, que foi a primeira coreógrafa da atleta, também começou a trabalhar consigo em tenra idade. O primeiro grande resultado de Liu data de 2016, altura em que, com dez anos, se tornou na patinadora mais jovem a conquista a medalha de ouro no escalão intermédio nos Campeonatos Nacionais dos EUA. Como júnior, bateu o recorde de mais jovem a participar numa prova do escalão nos nacionais do seu país, em 2018, numa competição em que participou com febre e dor de garganta e acabou por vencer. Ainda assim, esse resultado não foi suficiente para estar no Campeonato do Mundo Júnior de 2018, por não ter idade suficiente.
Gold dress. Golden Performance. Gold Medal. Alysa Liu.. Golden girl! ????????✨#FigureSkating #MilanoCortina2026 pic.twitter.com/BOuQOssYhW
— The Olympic Games (@Olympics) February 20, 2026
Em 2020, Liu pôde finamente participar no Mundial da sua categoria, apesar de ainda não ter atingido a idade necessário para participar em competições internacional do escalão sénior. Nesse Campeonato do Mundo de juniores foi terceira classificada. No final dessa época, o pai decidiu romper os trabalhos com Laura Liptesky e optou por começar a treinar com Phillip DiGuglielmo e Massimo Scali, bem como com Lori Nichols e Lee Barkel, mas por videoconferência e durante viagens ocasionais a Toronto, no Canadá.
A pandemia da Covid-19 serviu de transição para a jovem atleta, que enfrentou também um período de recuperação por conta de uma lesão sofrida no quadril direito. Em dezembro, Jeremy Abbott, que foi tetracampeão norte-americano, juntou-se à sua equipa técnica. Apesar de ainda ser jovem para o nível sénior, Liu estreou-se no escalão em 2019, nos Campeonatos dos EUA que decorreram em Detroit. Na competição, bateu o recorde que pertencia a Tara Pinski e passou a ser a campeã feminina mais jovem da história do país. A idade voltou a ser um fator determinado para falhar os Mundiais de juniores e seniores, embora a expectativa fosse alta. Aos 14 anos sagrou-se bicampeã dos EUA.
Em agosto de 2021, Alysa Liu foi convocada para o Trofué Nebelhorn, na Alemanha, com vista a garantir uma vaga nos Jogos de Inverno do ano seguinte. Contudo, a patinadora superou as expectativas e venceu todas as provas, ficando com a primeira das seis vagas olímpicas disponíveis. Seguiu-se o Grande Prémio do Canadá, onde passou por mais um dissabor: caiu depois de ter sido quarta no programa curto e não foi além de um quinto lugar na classificação geral. Depois de ter sido quarta no Troféu NHK, em Tóquio, o pai decidiu despedir a dupla de treinadores italianos e levou a filha para o Colorado, para trabalhar com Christy Krall, Drew Meekins e Viktor Pfeifer, três referências da modalidade. Para Pequim-2022, Alysa juntou-se a Mariah Bell e Karen Chen na seleção norte-americana, tornando-se na mais jovem de sempre a integrar uma convocatória. Na estreia olímpica, Liu foi sexta classificada na competição individual.
Olympian Alysa Liu has announced her retirement from figure skating. pic.twitter.com/Dp1hagyp6U
— NBC Olympics & Paralympics (@NBCOlympics) April 9, 2022
Apesar de ter atingido o patamar olímpico aos 16 anos, o grande resultado desse ano apareceu em março, nos Mundiais de Montpellier. Na estreia em Campeonatos do Mundo, Liu conquistou a medalha de bronze na sua última performance e voltou a colocar os EUA na rota das medalhas na competição, algo que não acontecia desde 2016 e que só tinha acontecido duas vezes desde 2006. O melhor ano da sua ainda curta carreira foi, ao mesmo tempo, o ano que marcou a sua… despedida. Em abril de 2022, Alysa Liu surpreendeu o mundo do desporto ao recorrer às redes sociais para anunciar a sua reforma, depois de ter alcançado os seus objetivos. “Sentiu que cumpriu a sua parte do acordo que fez com o pai e com a comunidade da patinagem em geral, que era ir às Olimpíada e ser a patinadora que todos queriam que fosse. Era hora de deixar o desportos em alta”, explicou, mais tarde, o treinador DiGuglielmo.
Contudo, em março de 2024, Liu voltou à modalidade que a viu crescer, num anúncio que voltou a ser feito nas redes sociais e que se intitulou de “regresso ao gelo”. “No início deste ano fui esquiar pela primeira vez. Não sentia aquela adrenalina desde que parei de patinar. Só queria patinar de novo porque não tinha pisado o gelo desde a última vez que participei numa competição. Só queria voltar e ver como eram os patins e tudo o resto”, explicou. Depois de voltar a trabalhar com os técnicos italianos, bem como com Amy Evidente e Ivan Dinev. Na sua primeira prova, o Troféu de Budapeste, conquistou o ouro, seguindo-se um sexto lugar no Grande Prémio do Canadá e um quarto no Troféu NHK. Em dezembro, nos Nacionais norte-americanos, bateu o seu recorde pessoal no programa curto e ficou com a prata, atrás de Amber Glenn, tricampeã do país. Já em 2025, Liu esteve nos Mundiais de Boston, onde se sagrou campeã do mundo pela primeira vez. O início de Alysa Liu na patinagem artística foi meteórico. O fim também. Mas o regresso não ficou atrás e aparenta estar para perdurar.