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O atleta português sagrou-se campeão mundial de triatlo no passado domingo, em Pontevedra
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▲O atleta português sagrou-se campeão mundial de triatlo no passado domingo, em Pontevedra

Fernando Paz | Red Bull Content Pool

▲O atleta português sagrou-se campeão mundial de triatlo no passado domingo, em Pontevedra

Fernando Paz | Red Bull Content Pool

"Jogos? Desde que as coisas corram bem é no pódio que devo estar." Os days after de Vasco Vilaça, da música dos Queen ao objetivo de LA

Dois dias depois de ser campeão mundial de triatlo, Vasco Vilaça falou com o Observador em Lisboa e já olha para LA como objetivo – e não como sonho. Lembrou Vanessa, uma música dos Queen e os amigos.

Vasco Vilaça já tinha uma história pouco comum. Nasceu em Portugal, foi viver para a Suécia quando os pais decidiram emigrar, estudou Engenharia Informática em Linköping – nem sequer precisava de ser campeão do mundo de triatlo para ter ótimas peripécias para contar num jantar de amigos ou num brunch para pôr a conversa em dia. Até porque, como ele próprio diz, está sempre mais interessado em conhecer os outros do que em dar-se a conhecer.

A prova no Cartaxo que espantou o medo da água, um leão-marinho, Vanessa e o sonho de LA: Vasco Vilaça, o novo campeão mundial de triatlo

“Em Pontevedra, no dia a seguir à prova e à festa, saí para dar um passeio normal pelo meio da cidade, no meio das pessoas, onde ninguém me conhece, para poder estar só eu e sem precisar de pensar se estou a sorrir bem para a câmara ou pensar no que estou a dizer. Portanto, se chego a um sítio e as pessoas não me conhecem nem sequer sinto necessidade de contar que sou campeão do mundo de triatlo. Sou o Vasco Vilaça, o meu trabalho é ser triatleta e quero conhecer as pessoas, mais do que contar-lhes quem eu sou”, explicou em conversa com o Observador na sede da Red Bull em Portugal, em Lisboa.

Apenas dois dias depois de ser campeão do mundo de triatlo em Pontevedra e horas depois de aterrar em Portugal, Vasco Vilaça deslocou-se ao Parque das Nações para um dos primeiros choques de realidade. Pelo caminho, foi surpreendido com um brutal outdoor que a Red Bull instalou naquela zona, uma espécie de presente depois do feito do fim de semana, e entrou na sede da marca austríaca que o patrocina há vários anos sob aplausos. Sempre sorridente, como é seu apanágio até durante as provas, cumprimentou todos os funcionários, um por um, e ainda teve tempo para uma volta completa num simulador de Fórmula 1 antes de se colocar à frente de microfones e gravadores.

▲ O triatleta português esteve no início desta semana em Lisboa, na sede da Red Bull, a falar com a comunicação social

Fernando Paz | Red Bull Content Pool

Especialista numa modalidade que é dividida em três partes, o atleta de 26 anos nunca escondeu que prefere a corrida e que durante muito tempo até dispensava a natação, o capítulo onde reconhece que tem de crescer mais. “A natação é a parte que tenho mais dificuldade em controlar. É o momento mais stressante, em que alguma coisa pode correr mal. Não posso ganhar a prova na natação, mas posso perdê-la. Passa muito por aí”, detalha, acrescentando depois que, apesar de sentir sempre mais confortável a correr, é na bicicleta que consegue “relaxar”, até porque consegue comer e “voltar a focar”.

De boné na cabeça e ainda com o bigode que se tornou uma imagem de marca em Pontevedra, onde no domingo carimbou o primeiro lugar do Mundial de triatlo, Vasco Vilaça é a representação clara da descontração. Responde às perguntas com naturalidade, parece pronto para qualquer cenário, elogia as reportagens e notícias que foram feitas depois da medalha de ouro e nunca se perde no raciocínio. Quem olha para ele diria que é campeão do mundo todos os dias. Mas ele é o primeiro a lembrar que não.

“Aquela sensação de ‘isto aconteceu mesmo’ foi com ser campeão do mundo, porque em termos de expectativas para a prova foi como no resto da época, só fiz primeiros e segundos lugares, a época foi toda assim. Ou seja, claro que sabia que o meu lugar na prova era na frente e era a lutar pelo pódio, onde tenho de estar. Não houve assim nenhuma emoção de ‘agora posso ser campeão do mundo’. Mas claro que, antes da prova, a perceção do que poderia acontecer trouxe mais emoção do que o que aconteceu na prova propriamente dita. Acabou por ser muito mais estar no momento do que pensar no título ou no que poderia representar”, sublinha.

▲ Vasco Vilaça ficou no quinto lugar nos Jogos Olímpicos de Paris, garantindo um diploma olímpico

Anadolu via Getty Images

Natural da Amadora, o atleta só precisava de um quinto lugar na derradeira etapa deste domingo para conquistar o Mundial. Já Matthew Hauser, que era o campeão mundial em título, precisava de ganhar e esperar que o português fosse sexto ou pior do que isso para voltar a festejar. No sprint final, numa altura em que o triunfo de Vasco Vilaça já era incontestável na medida em que só os dois estavam a lutar pela vitória na corrida, Hauser acabou por mudar de trajetória de repente, bloqueando a passagem do rival e praticamente encostando-o às barreiras. No fim, Hauser ganhou, mas perdeu o Mundial; Vilaça ficou em segundo, mas ganhou o Mundial. O português criticou a “atitude muito feia” do australiano logo após a meta, mas agora, dois dias depois, já tem a capacidade de relativizar.

“Não voltei a falar com ele. Não queria tornar o meu momento sobre isso, trabalhei muito a época toda e trabalhei muito principalmente para preparar muito bem esta prova. O que aconteceu no fim… Acho feio, eu não compito assim, mas no final fui eu o campeão do mundo. Tive ali um minuto depois da prova em que estava chateado e no momento disse-lhe: ‘Olha, não acho que isto esteja certo, não concordo com esta forma de competir’. Mas ao mesmo tempo, felizmente, estava lá o Ricardo [Batista] ao meu lado. Lembro-me de ver o Ricardo a dar um abraço ao treinador dele a chorar, o que me trouxe um bocadinho à realidade. Acabei de ser campeão do mundo, o que é que isto interessa? Quero é celebrar o lado positivo das coisas, não vale a pena focar numa coisa negativa, não tenho nada a ver com isso”, defende, adiantando que acabou por contar com algum cinismo para gerir as emoções.

Vasco Vilaça sagra-se campeão mundial de triatlo

“Foi difícil sentir fosse o que fosse quando cheguei à meta. Foi um bocadinho ‘overwhelming’ quando cheguei, com as coisas todas a acontecerem à minha volta. Sou uma pessoa que gosta de manter as emoções para mim e como atleta aprendi que, com os nervos e tudo o que acontece na prova, ter ali uma ‘poker face’ e manter as emoções dentro de mim torna as coisas muito práticas, principalmente quando tenho tanta gente à minha volta”, indica.

▲ O atleta de 26 anos reconhece que consegue "relaxar" durante o capítulo da bicicleta nas provas

Getty Images for NEOM Beach Game

A presença de Ricardo Batista no discurso de Vasco Vilaça não é uma novidade. O atleta de 25 anos ficou no quarto lugar em Pontevedra, algo que lhe garantiu a terceira posição na classificação final do Mundial, e é um dos principais amigos do agora campeão do mundo – a par de João Nuno Batista, irmão de Ricardo, e ainda Miguel Tiago Silva, todos triatletas. “Ajuda muito ter uma força extra para nos mantermos organizados e para nos podermos ajudar. Durante a prova de corrida, por exemplo, eu agarrei numa garrafa de água porque vi que o Ricardo não conseguiu apanhar água, ele bebeu um bocado e como não precisava de mais deitou a água para cima de mim. São detalhes… Não é a ajuda no momento em si, mas é saber que tenho ali alguém em quem posso confiar, que não está cá para me estragar a prova ou para me tramar”, diz, antes de recordar vários momentos em que a camaradagem fez a diferença.

“Uma das coisas que me fez voltar a ganhar o gosto pelo triatlo é ter esta geração que está agora a competir. As coisas estavam a correr muito bem para mim e estava a fazer etapas do Mundial noutro nível, estava um bocado mais sozinho. Neste momento, com o João Nuno, o Ricardo e o Miguel a chegarem cá, as pessoas com quem eu cresci, está a voltar aquele sentimento que tinha quando era criança. Vou para a prova e não estou só a pensar no lado tão profissional. Temos momentos incríveis e divertimo-nos imenso. Antes das provas estamos no hotel e até podemos estar cada um no seu quarto, mas depois jantamos no mesmo quarto e ficamos na brincadeira. Nos estágios, o Miguel leva a PlayStation e jogamos FIFA juntos ou vamos ao bowling. Não há muito tempo para estas brincadeiras, mas o tempo que há é assim, descontraído, a brincar com amigos, tal como uma pessoa normal tem tempo de ir beber uma cerveja ou tomar um café”, afirma.

Natural coqueluche da Federação de Triatlo de Portugal, conta que tem tido algum “‘media training'” para se habituar ao contacto mais intenso e frequente com a comunicação social, ainda que se sinta muito à vontade para responder a perguntas. “Para mim não é assim tão difícil, vocês também são só pessoas. A parte mais estranha é que vocês fazem perguntas sobre mim e eu nunca tenho tempo de vos conhecer melhor, enquanto que numa conversa normal recebo mais de volta. Mas gosto muito de ser eu mesmo nas entrevistas, falar do coração e da realidade das coisas. Ser verdadeiro comigo mesmo é o que me dá força”, atira.

▲ Vasco Vilaça não esconde que a natação é o seu calcanhar de Aquiles nas provas de triatlo

Getty Images

Ouviu “We Are the Champions” dos Queen no primeiro banho enquanto campeão do mundo, por ser a música que o pai punha no carro antes das provas quando era criança e adolescente, diz que não é “um robô”, mas que é impossível ter uma personalidade totalmente paralela à de um atleta de alta competição, e nunca esquece Vanessa Fernandes, a grande inspiração que o levou a experimentar o triatlo e que, em 2007, também foi campeã mundial.

“Esta bolha que houve do triatlo, com tantas crianças a experimentar e que fez com que agora estejamos onde estamos, foi criada por causa da Vanessa. O triatlo na altura não era um desporto qualquer, era um desporto de família, um estilo de vida muito giro em que criámos amizades muito fortes porque tínhamos de viajar pelo país inteiro. Acho que ela teve uma carreira incrível, mas no momento não viu essas crianças… Ouviu dizer que havia mais crianças, mas não sabia exatamente o impacto que isso tinha. Acho que é giro mostrar realmente de volta esse impacto, passados tantos anos. Os frutos que está a dar. E seria muito bonito que eu, juntamente com os outros rapazes, conseguisse ter o mesmo impacto numa geração daqui a uns anos”, diz, revelando que ainda não falou com Vanessa Fernandes desde que é campeão do mundo.

“Tinha medo da água. Superei e não voltei atrás. Além de gostar muito, é perceber que sou bom”: entrevista ao triatleta Vasco Vilaça

Ora, o facto de ter agora essa medalha de ouro em conjunto com a antiga atleta recorda um outro detalhe da carreira de Vanessa Fernandes: depois da conquista do Mundial em 2007, alcançou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Pequim de 2008. E Vasco Vilaça, que em Paris já garantiu um quinto lugar que deu direito a um diploma olímpico, não esconde que o objetivo para 2028 é subir ao pódio nos Jogos Olímpicos de Los Angeles.

“Motivação nunca faltou. Mas sim, diria que na minha carreira, depois de ser campeão do mundo, o próximo objetivo é sem dúvida uma medalha olímpica. Agora está mesmo nos objetivos. Ser campeão do mundo já não foi um sonho… Uma coisa era quando era mais novo e era um sonho, algo que ainda não era tangível, agora era algo possível, algo que estava nas minhas mãos. Os Jogos Olímpicos são uma prova, um dia, duas horas, tudo pode acontecer. Mas estou na elite mundial, estou entre os melhores do mundo. Desde que as coisas corram bem, porque ainda faltam dois anos e muita coisa pode mudar, é no pódio que eu devo estar. E quanto mais me vou aproximando mais é um objetivo real”, termina.

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