O interior dos seus muros encerra mais de 500 anos monumentais, numa confluência única de memórias. Entre salões e corredores, pátios e jardins, da arquitetura gótica-mudéjar à arte renascentista, uma visita a Las Dueñas convida a um percurso por diferentes estilos, política e história, no encalço de residentes e convidados que raramente desempenharam papel secundário, muito menos de figurante. Pelo palácio sevilhano passaram Eugenia de Montijo e Afonso XIII, Grace Kelly e Jacqueline Kennedy, que coincidiram com Orson Wells em 1966 em plena Feira de Abril, o ponto alto do calendário andaluz. Mas quantos protagonistas terão fundido modernidade e tradição de forma ímpar?

Da Semana Santa ao flamenco, da tauromaquia ao social, María del Rosario Cayetana Fitz-James Stuart y Silva bebeu do mundo e manteve Sevilha como lar predileto. É agora a vez dessa mesma Sevilha celebrar o centenário de nascimento da XVIII duquesa de Alba. A partir desta quinta-feira, e até final de agosto, a exposição temporária “Cayetana: Grande de Espanha” rende-lhe uma homenagem íntima através de múltiplas obras procedentes das principais coleções da Casa. Pinturas, joias, documentos e objetos pessoais são testemunhos da vida extraordinária da mulher que viveu como quis e casou quando quis, desafiando convenções em todos os campos, e que morreu em 20 de novembro 2014, aos 88 anos, no mesmo palácio que agora, mais uma vez, a evoca.

Declarado Monumento Histórico-Artístico em 1931, a propriedade pertence à Casa de Alba desde 1612, e foi dois anos após a morte de Cayetana que abriu as suas portas ao público em geral, numa decisão impulsionado pelo filho e sucessor Carlos Fitz-James Stuart, XIV duque de Huéscar, figurando hoje como uma das atrações mais visitadas da cidade. “A minha mãe era muito liberal, muito moderna e ao mesmo tempo muito conservadora e amante da tradição e das instituições. Surpreendia sempre”, comentou o filho, citado pelo jornal ABC, aludindo às “facetas poliédricas da duquesa de Alba” que esta mostra permite desvendar.

Por sua vez, Eugenia Martínez de Irujo, filha de Cayetana e comissária da exposição em Las Dueñas, ao lado da crítica de arte Cristina Carrillo de Albornoz, sublinha o perfil de “uma mulher pioneira que assumiu um papel relevante e um compromisso com a cultura, a arte, a música, a dança, o teatro e a moda.” A exposição em Sevilha é inaugurada três anos depois de Liria, o palácio dos Alba em Madrid, receber uma viagem por inúmeros trajes marcantes que foram usados pelos rostos femininos da dinastia ao longo dos séculos.

Um dos pátios de Las Dueñas

A inauguração contará esta quarta-feira com um convidado de peso. Depois de ter apadrinhado a abertura da mostra “Flamboyant”, da artista portuguesa Joana Vasconcelos, no Palácio de Liria, o Rei Felipe VI irá deslocar-se a Sevilha para se reunir à família.

Nascida em 18 de março de 1926, a duquesa atravessou a Guerra Civil, a II Guerra Mundial, a ditadura, e por fim a transição para a democracia. Em 2012, quando a revista TELVA lhe concedeu o prémio de Melhor Embaixadora de Sevilha no Mundo, encontrou forças para manifestar o seu raro duende, levantando as mãos e luzindo uma criação dos seus estimados criadores sevilhanos Victorio & Lucchino. Foi agora a vez da sua filha Eugenia abrir as portas do palácio à mesma publicação, antecipando o conteúdo da mostra em destaque. Aos 12 pátios, como aquele que o escritor Antonio Machado, que aqui nascera, fixou no poema Retrato, soma-se um acervo único de 1.425 obras de arte, classificadas como Património Histórico Andaluz. A estas junta-se ainda cada porcelana que Cayetana passava a pente fino. “Quando éramos pequenos não nos deixava andar pelos salões, tudo tinha que estar impecável. Mas quando foi avó, as crianças passavam a vida a correr para cima e para baixo”, adite a duquesa de Montoro. A filha da duquesa de Alba lembra ainda o detalhe exaustivo com que a mãe cuidava do recheio de cada residência do clã espanhol.

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Cayetana no começo dos anos 70 com a filha Eugenia, no palácio Dueñas

“Se alguém trazia uma câmara com um tripé, imediatamente mandava que pusessem cobertores no chão, para que não o riscasse. Era muito perfeccionista, com um enorme sentido da ordem. Tinha cada quadro, cada caixinha na sua cabeça. E às 7 da manhã já estava a ligar para cada uma das Casas para organizar tudo. Era incansável. O seu trabalho de conservação do legado da Casa foi excecional, tanto aqui como em Liria ou no Palácio de Monterrey de Salamanca”, acrescenta.

“Cayetana: Grande de Espanha” está organizada em cinco áreas temáticas. As 200 peças em destaque mostram a sua veia de colecionadora, de conservadora do património, mas também a sua dedicação enquanto embaixadora não oficial de Espanha e até o seu trabalho solidário. Desde logo, como alguém que sempre teve muito enraizadas todas as tradições andaluzas, não faltam apontamentos como o manto da igreja dos Ciganos, bordado com a letra A de Alba, obras de arte de Julio Romero de Torres e esculturas de Benlliure, entre outros. Preparar este circuito incluiu ainda redescobrir inúmeros álbuns de fotografias com preciosas anotações à mão. Aliás, a dupla de comissárias revela que eleger as imagens para esta mostra foi das tarefas mais difíceis, já que reúnem um vasto material a preto e branco assinado por nomes como Richard Avedon ou Cecil Beaton. Foram também longos os dias a rever centenas de cartas e telegramas dos arquivos da Casa de Alba. Correspondência com todas as casas reais, missivas carinhosas trocadas com Jackie Kennedy, visitas à madrinha rainha Victoria Eugenia em Lausanne, ou um sem fim de lendas de Hollywood que com ela privaram em solo espanhol.

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Um retrato de María del Rosario Cayetana Fitz-James Stuart y Silva

Em evidência estará ainda uma seleção de obras de arte adquiridas por Cayetana, que ampliou a coleção dos Alba com nomes como Renoir, Chagall, Dalí e Picasso, mas também com autores mais castiços do século XIX, que ganham palco nesta exposição.

A abrir a mostra, recordam-se os conselhos que o pai daquela que chegou a ser a mulher mais titulada deu à filha. “Quando me for, Tanuca, deixo-te uma carga muito pesada, aquilo a que chamo ‘ o peso do nome‘. Precisarás de mais resistência e uma preparação sólida”. O duque Jacobo recomendou-lhe ainda a fruição da música e da cultura, para triunfar no grade de teatro do mundo. A herdeira seguiu a recomendação a rigor e organizou noites de ópera com Montserrat Cavalé, Yehudi Menuhin e Alfredo Kraus, fomentando também o teatro e a dança.

As homenagens a Cayetana, que chefiou a casa de Alba desde 1953 até à sua morte, marcarão a agenda da capital andaluz ao longo de todo o ano. Em colaboração com a Fundación Cajasol, os meses de março e abril serão dedicados a conferências que atrairão nomes destacados da política ou literatura.“Ela atualizou, pôs na moda e converteu em símbolo internacional da Espanha e da Andaluzia muitas coisas desde o coração de uma instituição profundamente ancorada na tradição como é uma casa nobiliárquica”, define Antonio Pulido, presidente da Cajasol, que lembrou ainda a relevância da duquesa como mecenas da arte, do património e da cultura.

“Cayetana: Grande de Espanha”, de 5 de março a 31 de agosto. Das 10h00 às 16h00. Calle Dueñas, 5, 41003 Sevilha, Espanha. A visita geral ao Palácio de Las Dueñas e a mostra temporária custa 15 euros.