Cherchez la Femme inspira-se livremente no conto A confissão de Lúcio (1914), de Mário de Sá-Carneiro, e conta com interpretações de Ângelo Rodrigues, Romeu Costa e Joana Barradas no trio central da narrativa: Lúcio Vaz, Ricardo de Loureiro e Marta.
O filme foi rodado pouco antes da morte de António da Cunha Telles, em novembro de 2022, aos 87 anos, e foi finalizado postumamente pela filha, Pandora da Cunha Telles, e André Rosa Carvalho.
“Neste ponto final da minha carreira, pretendo fazer um filme à glória da mulher e retomo o título sugerido pelo próprio Sá-Carneiro, Cherchez la Femme, provavelmente correspondia à sua íntima intenção. O filme será tratado com intriga e suspense, como se de um filme de Hitchcock se tratasse”, escreveu Cunha Telles na nota de intenções deixada.
Sob a forma de uma confissão policial, Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) relata a história de dois homens, personagens centrais: Lúcio e Ricardo de Loureiro, de cuja morte o primeiro é acusado e pela qual, apesar de protestar a sua inocência, se encontra preso.
Considerada uma narrativa de vanguarda para a época, por romper a tradicional conceção da novela como tema, desenvolvimento e desenlace, A Confissão de Lúcio” foi redigida em apenas um mês e reflete três das obsessões de Sá-Carneiro — o suicídio, as perversões do amor e a loucura.
“A ideia simplista de A Confissão de Lúcio ser a explicação elegante da relação entre dois homossexuais, é posta em questão. O amor pode existir entre dois ou mais seres, independentemente do seu género”, sublinhou António da Cunha Telles na nota de intenções.
A longa-metragem teve financiamento do Instituto do Cinema e do Audiovisual, com apoio de RTP, Fundo de Apoio ao Turismo e Cinema, Câmara Municipal de Lisboa e Lisboa Film Commission e da plataforma de ‘streaming’ Netflix.
António da Cunha Telles foi uma das mais importantes figuras do Cinema Novo português nos anos de 1960, enquanto produtor de filmes fundadores daquele tempo, como Os Verdes Anos (1963), de Paulo Rocha, e Belarmino (1964), de Fernando Lopes.
Nascido no Funchal, em 1935, onde deu os primeiros passos no cinema, Cunha Telles foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e rumou a Paris para estudar realização no Institut d’Hautes Études Cinematographiques.
Teve ainda um papel importante na distribuição, a partir de 1973, com a Animatógrafo, fazendo estrear em Portugal o cinema de cineastas como Sergei Eisenstein e Jean Renoir.
O Bobo (1982), de José Álvaro de Morais, Balada da Praia dos Cães (1986), de José Fonseca e Costa, O Fio do Horizonte (1993), de Fernando Lopes, Aqui na Terra (1993), de João Botelho, são outros filmes aos quais esteve ligado.
Também produziu telefilmes, em particular para a SIC, nomeadamente Monsanto (2000), de Ruy Guerra, Mustang (2000), de Leonel Vieira, e Facas e Anjos (2000), de Eduardo Guedes.
Apesar dessa multiplicação de funções no cinema, na produção, distribuição e formação, e em cargos diretivos, na administração do antigo Instituto Português de Cinema e na Tobis, Cunha Telles admitia em 2017: “No meu íntimo sou mais realizador do que produtor”.
A estreia nas longas-metragens de ficção aconteceu em 1970 com O Cerco, protagonizado por Maria Cabral e apresentado naquele ano em Cannes. Também participou no filme coletivo As Armas e o Povo (1975), que retrata o período vivido em Portugal entre o 25 de Abril e o 1 de maio de 1974.
Cunha Telles realizaria menos de uma dezena de filmes, como Meus Amigos (1974), o documentário Continuar a Viver ou os Índios da Meia Praia (1976), Pandora (1993), Kiss Me (2004) e Cherchez la Femme (2022/2026).