Isto não costuma acontecer assim: uma banda nasce, faz um primeiro disco que é bem recebido, sacam um single de êxito e nesse momento é óbvio que se forçarem um bocadinho, se apostarem no marketing, se fizerem uma digressão, podem tornar-se uma daquelas bandas lá de casa de um bom número de portugueses – mas, ao invés, concluem que chegou a altura de cada um ir à sua vida.
Mais pormenor, menos pormenor, foi isto que aconteceu aos Golpes, que desapareceram do espaço público logo a seguir a encontrarem um êxito que até aí não conheciam, com um excelente e melódico single. Vá Lá, Senhora (de 2010), a cantiga em que surgia o mítico Rui Pregal da Cunha nas vozes, era incluída, um ano depois, no que viria a ser o segundo e último disco dos Golpes, que se desintegraram no exato momento em que pensávamos que iam explodir pelo país inteiro.
Quando hoje ouvimos Manuel Fúria a cantar, em O Último Que Apague a Luz, quinta canção de Verde Veneno (o seu mais recente disco a solo), que “As galerias estão a arder / ninguém parece querer saber”, por entre uma guitarrinha funk e synths dançáveis, quase reconhecemos o antigo líder dos Golpes, que nessa banda escrevia sobre ser garoto e jogar à bola. Há aqui, apesar do lado dançável de cada canção, uma espécie de negrume, como se o julgamento final viesse já a seguir ao refrão.
Vai uma grande distância entre a exposição pública que Manuel Fúria tem hoje quando comparado com 2011. Quando os Golpes acabaram, já Manuel estava a gravar o que viria a ser o seu segundo disco a solo (o primeiro fora em 2008), mas o primeiro com alguma grandeza, Manuel Fúria Contempla os Lírios do Campo. Quando estava a compô-lo já sabia que seria disco a solo porque “não dava para fazer aquilo n’Os Golpes. Não sentia que houvesse espaço na banda para aquilo”, diz hoje Fúria, numa conversa que é uma troca de memórias — Fúria que reconhece que o disco a solo foi, talvez, “uma aventura demasiado ambiciosa”.
Nessa altura ainda houve atenção da imprensa e concertos – e mais tarde, no Viva Fúria, o seu quarto disco a solo, também, mas era-lhe claro que o interesse no que fazia tinha vindo sempre a descer. Ainda era minimamente conhecido quando lançou Os Lírios do Campo, mas a ideia do disco era “ser mais intelectual, mais reflexivo, mas existir ao mesmo tempo que Os Golpes”, ser uma espécie de projeto paralelo. Os Golpes eram mais imediatos e mais dançáveis – e com o fim da banda, ele ficou só com o disco a solo nas mãos.
Muita coisa havia mudado ou mudaria em breve: a AmorFúria, a editora que ajudou a criar e editou Os Golpes ou Os Velhos, morre em 2016; ele, Manuel, assina pela Sony. Quando apareceu, a AmorFúria seguia um “impulso que correspondia a um vazio – não havia bandas a cantar em português, não havia gente a cantar a nossa vida, com palavras ditas da maneira como nós falamos uns com os outros”.
Foi, digamos, um movimento orgânico, entre amigos ou gente que se conhecera através da internet. Ao mesmo tempo, os artistas da FlorCaveira também ganharam exposição – mas com uma diferença: da FlorCaveira saíram músicos a tempo inteiro (Samuel Úria, B Fachada, Jorge Cruz, estes dois últimos com obra anterior à FlorCaveira), enquanto a AmorFúria era diferente: “Cada um começou a ir para seu lado, mas também se dá o caso de os músicos da editora não serem bem músicos, eram estudantes que gostavam da música e depois foram ser arquitetos e viver a sua vida”.
No caso de Manuel, ele tentou que resultasse “até que se tornou insuportável, em 2018”, quando já tinha dois filhos. Foi dedicar-se a negócios de família, ser “um homem comum”.
Um homem comum que em 2022 lançou um pequeno disco chamado Os Perdedores, que é, musical e tematicamente, como que a matriz deste Verde Veneno. O nome surgira-lhe em 2018: “Eu ia fazer um concerto em 2018, no Mexefest, antes do Johny Marr, e sabia que ia ser o meu último. Mas nessa altura já sabia que o próximo disco seria chamado Os Perdedores e teria sintetizadores”.
Posteriormente, foi operado às cordas vocais e ficou sem falar um mês ou dois; começa a retomar a composição d’Os Perdedores. E foi gravando lentamente em 2020, 2021, numa altura em que, tanto quanto sabia, já não tinha carreira. O disco acaba por concretizar-se porque o escritor Nuno Costa Santos o convida para participar no Arquipélago de Escritores, nos Açores, e a existência de uma data acelerou o processo.
Aqui já havia “uma certa vontade de ser marginal em relação à cena musical”: deu mais 3 ou 4 concertos e acabou. Curiosamente, deu por si espantado por os concertos terem público – fosse gente mais velha que gostam dos New Order ou miúdos mais católicos que se interessavam pelas letras.
▲ Para este Verde Veneno, começou a trabalhar logo enquanto finalizava Os Perdedores: “Nessa altura estava num período criativo fértil, e estavam sempre a sair-me coisas interessantes. Algumas das canções vêm ainda dessa altura”
Mas lentamente voltou a ser uma personalidade pública, embora de forma inesperada para quem o conhece só das antigas: começou a escrever para os media a partir de 2024, primeiro para o site da Renascença, depois para a Visão (O Vale era Verde) e para a Tribuna do Expresso (Odeio Futebol Moderno). Escrever sempre foi um objetivo, mas ao início não se imaginava a escrever em jornais ao mesmo tempo que fazia música.
Para este Verde Veneno, começou a trabalhar logo enquanto finalizava Os Perdedores: “Nessa altura estava num período criativo fértil, e estavam sempre a sair-me coisas interessantes. Algumas das canções vêm ainda dessa altura”. Como no caso d’Os Perdedores foi gravando lentamente, ao longo de 2023, 2024, 2025. “Tenho mais do que fazer [do que gravar], não sou só músico”, explica.
A dicotomia entre o lado dançável e as letras que parecem ser sobre o apocalipse não foi propriamente pensada – o que era pensado era “usar sintetizadores e fazer música dançável”, que a mim me recorda dos New Order e dos Happy Mondays, com alguma escuridão mas sempre com aquela capacidade a que Manel nos habituou. “O último que apague a luz” é um bom exemplo: abre com uma guitarrinha funky (que, lá está, me lembra os Happy Mondays), tem os synths la atrás e fala sobre o fim do ocidente. Por sua vez, “Nós fomos enganados” parece ter saído de uma pista de dança dos anos 80 – e ao mesmo tempo ouve-se Manuel Fúria a cantar “Quando te deitas na cama e apagas a luz / que homem é este?”.
Claro que, “a dada altura”, Manuel apercebeu-se que “havia uma singularidade. Mas acho já tinha sentido isso com Os Perdedores”. Dá como exemplo o músico John Maus, que canta “I hate the anti-christ / I hate the son of a bitch”. Verde Veneno, inclusive na faixa homónima (batidona, uma guitarra que lembra os Franz Ferdinand e teclas quase eurodance, enquanto Fúria canta “Uma morte que alastra / e se agarra às tuas mãos”), Verde Veneno (dizia) “é a minha maneira de dizer isso”.
Manuel atua esta quinta-feira, 14 de maio, no Coliseu Club, que é uma sala pequena no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, ou “o Coliseu possível”, como ele diz, e no Porto o disco vai ser apresentado n’O Mouco, a 23 de maio. Manuel Fúria pode usar mais ou menos guitarras, mais ou menos sintetizadores, estar numa fase mais ou menos popular – mas nunca deixa de provocar (no melhor sentido da palavra) uma curiosidade imensa pelo que raio ele quer dizer sempre que abre a boca.