De cada vez que nos sentamos a escrever sobre um disco, um livro, um filme, qualquer peça de arte, com a preocupação de os abrir a um terceiro — o leitor, que ainda não os conhece — temos o dever ético, diria, de procurar a objetividade, mesmo sabendo que ela nunca será possível. Trata-se de arte, não de ciência; de pessoas, não de coisas; de alquimia, mais do que de química. Cada obra de arte produz um efeito diferente em cada observador e, quantas vezes, até um efeito diferente no mesmo observador consoante a ocasião da observação. Porque a arte tem de contar com isto: mais do que o acabamento perfeito da obra, ela é o conjunto de possibilidades do encontro. Assim, o escriba senta-se a articular, sabendo que deve servir ao leitor uma opinião livre das coisas que são só dele, das coisas que precisou de ver no disco ou no filme, mas que, no fundo, suspeita não estarem lá.

E todavia há ocasiões em que a única forma de ser menos desonesto consigo é partilhar um pouco de contexto. É impossível o cronista separar-se do facto de ter acabado de ver partir uma das pessoas de quem foi mais amigo ao longo da vida como ela foi até aqui. Impossível não saber que andou a ouvir este disco antes e depois desse facto e que a música lhe continuou a falar, não necessariamente de forma diferente, mas mais profunda. O novo longa duração de Manuel Fúria não fala de morte, não assim, não da biológica, não explicitamente. Não está de luto. Não está a chorar. Está soturno, observa como um dos velhos deste café que tenho agora em volta. Não está de luto nem morreu. Ele ainda quer mexer no mundo, ainda o quer afetar com a sua saudade, o seu desapontamento, a sua melancolia, a sua sabedoria, o seu gosto, a sua maturidade. Mas na capa tem uma pedra tumular – e chama-se Os Perdedores. E, caramba, não há maior derrota do que a morte. Aquele dia em que um sentido deixa de ser matematicamente possível. Já diziam os Xutos, numa das suas mais lapidares e subvalorizadas frases: “A vida é sempre a perder”.

[o vídeo de “Os Perdedores”:]

Impossível não lhe dizer que escrevo de um daqueles cafés antigos de Alvalade, debaixo de um letreiro no vidro onde se lê “desde 1984”, lugar fundamental de alguma da história da música ligeira nacional, e que é quase Natal, o que acentua toda a melancolia e nostalgia que se atrevam a passar. Impossível não lhe dizer que fui levantar ao correio o bonito vinil d’Os Perdedores e que isso, por si só, traz o gosto aliviado das coisas antigas que, afinal, não se perderam. O primeiro verso da primeira canção sentencia, repetidamente: “Acabou.”

É claro que o nome Fúria é, desde logo, um programa e que esse programa se torna tão mais eficaz quanto mais suave, contida, for a interpretação de Manuel Barbosa de Matos. Dos Golpes aos Náufragos, dos Náufragos aos Perdedores. Cada vez menos épico, entrando agora por outras portas da ironia e da confissão na mesma casa. Agora, falam mais as teclas e a batida, a mecânica eletrónica do tempo em que ainda era um brinquedo e não o grande deus que tudo controla. Da influência sempre assumida de Rui Pregal da Cunha, passámos agora a um tempo mais tardio, tal como nos Heróis do Mar. A um tempo mais Macau, mais IV, mais LX90. Os Perdedores é um projeto muito concreto, um conceito muito acabado, redondo e, ao mesmo tempo, qualquer coisa exploratória, à procura de novos caminhos. Na transição dos anos 80 para os 90, isto acontecia porque tudo parecia estar feito; em 2022, Manuel Fúria fá-lo porque tudo parece desfeito.

A voz procura agora menos a melodia e mais a desconformidade dissonante de um Pedro Oliveira, de uma Sétima Legião e, portanto, uma descendência iancurtisiana que nos manda para a pista de dança sabendo ao que vamos. Prepara-nos para ir para a cama com a derrota. Iremos ao fundo com a dignidade de heróis antigos que não saíram do papel.

[o álbum “Os Perdedores” na íntegra no Spotify:]

Falamos de uma Lisboa que já não existe, de um fogo que consumiu a casa, do Cinema Londres que é agora uma loja do chinês, dos sucessivos “o meu melhor amigo” e, portanto, de como cada um deles, por definição, foi deixando de o ser, num saudosismo tão confessional como idealizado, que se estende pelo longo tempo que vai da “Oração”, de António Calvário, do distante 1964, à banda de garagem em 1998. Com o bucolismo de uma paisagem passada e o Cristianismo agora perseguido em fundo, a vida adulta cheira a desilusão entre os sonhos de duas infâncias, a do cantor e a do filho.

Manuel Fúria, nome fundamental de uma revolução que trouxe de volta a língua e uma certa identidade portuguesa, descomplexada, para a música pop, entre a primeira e a segunda década deste século, entrega-nos agora Os Perdedores, com o despudor desarmante com que diz, a dado passo, que “já foi o maior”. Num tempo que cultiva, doentiamente, o sucesso, o record, a ideia de que alguém pode ser “the greatest of all time”, a suposta perfeição pessoal, profissional, física, espiritual, que colocou os vencedores no lugar dos ídolos antigos, Fúria faz a honra aos vencidos. Sem o gesto dramático de quem na verdade ainda procura, a contrario, o aplauso que corrija a pretensa injustiça. Isto está simplesmente a acontecer: perdemos. O mundo cada vez será menos como um dia o quisemos. O que não quer dizer que possamos ou devamos retirar-nos de campo; aprendemos a viver com estes vazios.

Volto ao princípio. Os Perdedores será, para si, outra coisa qualquer, mas, decerto, não distante da minha. Por enquanto, é uma peça no grande processo que há-de ajudar a transformar esta tristeza num sentido novo para o mundo que virá agora, vazio desta pessoa. Desça o Natal e o seu milagre sobre nós e as nossas derrotas. Saúde e paz.