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Com “Fatherland”, o concurso de Cannes começa a ganhar gravidade

O novo trabalho do polaco Pawel Pawlikowski é uma meditação lancinante sobre a Europa, com Hanns Zischler e Sandra Hüller no elenco.

Em Dezembro passado, Thierry Frémaux, delegado-geral de Cannes, estava em Varsóvia e cruzou Pawel Pawlikowski, que lhe contou ter rodado um novo filme com o sigilo habitual praticado pelo cineasta polaco. O projecto teve durante longo tempo o título “1949”. Foi em seguida baptizado de Fatherland. É uma co-produção europeia falada em alemão, com intérpretes germânicos da mais alta estirpe, e invade a biografia de Thomas Mann (1875-1955), no ano supra-citado em que o autor de A Montanha Mágica, com passaporte americano no bolso (país onde se exilara), regressa pela primeira vez à Alemanha após a II Guerra Mundial, para receber o Prémio Goethe em Frankfurt e, logo em seguida, ser homenageado em Weimar.

Convém precisar — pois é informação essencial — que, em 1949, Frankfurt e Weimar estavam tão equidistantes politicamente como o Ocidente do Bloco de Leste. Ambos os lados — a Alemanha capitalista e a Alemanha comunista — foram visitadas, num curto espaço de dias, por Thomas Mann e pela filha Erika Mann (que secretariava o pai com rigor e zelo, além de conduzir o seu negro Buick), entretanto devastados pela notícia de que o também escritor Klaus Mann (filho de Thomas e irmão de Erika), instalado em Cannes, se suicidara por overdose de soníferos, a 21 de Maio daquele ano.

Fatherland é um filme espectral sobre o presente, pois fixa, no “rigor mortis” do sistema estético de Pawlikowski — planos fixos, milimetricamente enquadrados, e fotografia a preto e branco, tal como em Ida ou Cold War — uma Europa rasgada pela guerra e radicalmente dividida. Em um e outro lados, da “boa Alemanha que é a força abençoada pela arte” de Frankfurt à sinistra Alemanha comunista de Weimar regada a conhaque arménio, terão Mann e Erika que lidar com a velhacaria, a dissimulação, o mais lamentável cinismo, com toda a devastação moral acrescida ao luto de Klaus, aspecto que nos conduz a uma ideia muito cara à história da Alemanha do século XX: a de que o regresso à pátria (Heimat) se tornara uma missão impossível.

Esta ideia é, de resto, transportada pela trágica e nihilista lucidez de Klaus, incapaz de aceitar a existência de uma nova Alemanha pós-hecatombe nazi, incluindo a própria língua em que escreveu o seu opus magnum, Mephisto. Só o génio de Bach o ligava ainda à identidade germânica. E a chamada a Bach, no filme, deixa-nos, até agora, o mais intenso plano visto em Cannes 2026.

Em Fatherland, Pawlikowski recorre a sublimíssimos actores que nos tocam igualmente pelo seu peso histórico. Thomas Mann é interpretado por Hanns Zischler (um dos rostos fulcrais da nova vaga do cinema da R.F.A., em especial dos filmes de Wenders); Erika, por seu lado, é encarnada pela actriz germânica mais requisitada destes dias, Sandra Hüller (é a segunda vez que a vemos este ano num filme de época a preto e branco, depois de Rose, de Markus Schleinzer); August Diehl dá corpo a um Klaus Mann prestes a tombar no abismo.

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▲ Sandra Hüller e Pawel Pawlikowski nesta quinta-feira, em Cannes

FilmMagic

De um ponto de vista técnico, é assombrosa (e julgo que caríssima) a reconstituição história da Alemanha de 1949 que se vê no ecrã, face a uma economia narrativa extraordinária, cortando gorduras e sublinhados: no final, o cronómetro bate 82 minutos. Este também é (e quase sem se notar) um grande filme melómano — Bach, Mozart, Messiaen, canções populares alemãs dos anos 40, composições contemporâneas — escolhas do próprio Pawlikowski que, na banda-sonora, vai doseando a música nas cenas com uma eficácia tremenda, de acordo com o que exprimem.

Fatherland chegou a Cannes para subir a fasquia. Nesta coisa de concursos em festivais tão decisivos, é como o salto em altura no atletismo, meus caros: a partir daqui, a fasquia não desce mais.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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