As cerca de 100 pessoas que se concentraram esta terça-feira pelo direito à habitação em frente ao edifício da Câmara Municipal de Évora decidiram marcar uma nova concentração para sexta-feira e começaram a desmobilizar.
Numa assembleia popular realizada durante o protesto, o grupo decidiu marcar uma nova concentração para as 18h00 de sexta-feira, na Praça do Sertório, no centro histórico de Évora, apelando a uma maior participação.
Pouco depois de ter sido tomada esta decisão, alguns dos manifestantes abandonaram o local.
Durante esta assembleia popular em Évora, os manifestantes que intervieram relataram dificuldades para pagar as rendas e exigiram soluções.
Já em Beja, cerca de 50 pessoas estiveram nesta terça-feira concentradas na Praça da República pelo direito à habitação e em solidariedade com os organizadores dos protestos realizados em Lisboa e no Porto.
Ana Navas, uma das participantes, relatou à Lusa que, aos 34 anos e com curso superior, o ordenado “nunca foi suficiente” para comprar uma casa e tem sempre de “partilhar quarto ou casa com outras pessoas” e, muitas vezes, com a ajuda dos pais.
“É impossível viver assim. Como é que é possível uma pessoa que tem um curso superior com mestrado não conseguir ter a possibilidade de comprar ou até alugar uma casa? Se eu não consigo, como é que outros trabalhadores que não têm cursos superiores conseguem?”, questionou, enquanto segurava um cartaz em que pedia “menos bastão [e] mais habitação”.
Para esta arquiteta, a trabalhar na área há cerca de seis anos, foi por estas questões que marcou presença na assembleia popular para “lutar pelos direitos de todos”.
A iniciativa, convocada através das redes sociais, arrancou pouco depois das 19h00, com as pessoas, de diferentes faixas etárias, a reunirem-se na Praça da República, no centro histórico de Beja.
“Vivo em Beja desde 2007 e sempre foi difícil arranjar casa, [porque] a oferta também não é muita e são bastante caras, mas nos últimos anos a coisa escalou”, referiu Ana Ademar, outra das participantes na concentração.
Admitindo que a situação “tem-se descontrolado por completo”, a programadora cultural de 46 anos afirmou estar solidária com todos os acontecimentos ocorridos nos últimos dias em Lisboa e no Porto, pedindo “o mínimo de dignidade pela situação”.
“Tenho a mania de não gostar de ver pessoas a levar ‘porrada’ e menos quando têm razão. Têm de se levar a sério [os jovens que se têm manifestado] porque é a vida deles que está em jogo. Aliás, a vida deles, dos filhos deles e a nossa também”, afiançou.
A assembleia popular, que contou com diversas intervenções, terminou por volta das 20h15 e desafiou a população a aderir à manifestação nacional agendada para o dia 14 de novembro.
Os atuais protestos pelo direito à habitação e o custo de vida em Portugal tiveram início na cidade do Porto, no dia 10 deste mês, com cerca de 1.500 manifestantes a juntarem-se na Praça D. João I e a pernoitarem no local em tendas de campismo.
Nesse dia, a plataforma cívica “Não dá mais para viver assim” promoveu protestos também em Aveiro, Braga e Lisboa reivindicando o controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis, impostos sobre os lucros extraordinários das grandes empresas do setor bancário, energético e da distribuição e medidas que respondam à crise na habitação.
No dia 15, o movimento que protestava no Porto, já no formato de uma acampada, denunciou uma carga policial violenta durante a madrugada que causou ferimentos em 39 dos participantes, dois dos quais ficaram em estado grave, e num polícia, e à noite cerca de três mil pessoas juntaram-se aos manifestantes iniciais, mas acabaram por dispersar.
As tendas voltaram ao local no sábado e a acampada alastrou nesse dia à cidade de Lisboa. Hoje de madrugada, enquanto o protesto da cidade nortenha foi terminado perante os avisos de intervenção policial, as autoridades removeram dezenas de tendas na capital e detiveram 55 pessoas por desobediência, entretanto libertadas, que serão ouvidas na quarta-feira por um juiz.