1246,2kWh poupados 1246,2 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Brasil 2026
2.ª Volta

Resultados 1.ª volta: Lula 45,16% - Flávio Bolsonaro 47,03%

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

Sandra Hüller em Berlim, travesti pela liberdade

Este artigo tem mais de 6 meses

Cresce o festival a olhos vistos com as chegadas de “Rose”, de Markus Schleinzer e “We Are all Strangers”, de Anthony Chen. E o novo filme de Angela Schanelec é de outra galáxia.

Sandra Hüller em “Rose”, de Markus Schleinzer
i

▲Sandra Hüller em “Rose”, de Markus Schleinzer

▲Sandra Hüller em “Rose”, de Markus Schleinzer

Há 8 anos, no dia do seu aniversário, o austríaco Markus Schleinzer recebeu de uma amiga uma parabenização invulgar: “Sabes que, neste mesmo dia, foi executada a última mulher alemã acusada de sodomia feminina?” — contou-nos em entrevista. Markus quis saber mais sobre aquele caso criminal. Encarou a informação como uma prenda de aniversário e a investigação levou-o a meados do século XVII, ao período posterior à Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), em que uma mulher alemã, disfarçada de homem, casou, de facto, com outra mulher e com ela manteve, com recurso a dildos esculpidos em madeira (na altura chamavam-lhes “objectos mortos”), um relacionamento sexual que pervertia a união natural entre homem e mulher (“aos olhos da Lei, o sexo entre mulheres, nessa altura, ainda não tinha sido inventado…”, disse também o cineasta). Veredicto: acto punido com a pena capital.

Por aqui começou a nascer Rose, nome que mal é pronunciado nesta terceira longa-metragem de Schleinzer porque, de facto, a protagonista (que mais tarde se sabe ter usurpado a identidade de um militar do conflito supra-citado), passa o filme inteiro na pele do homem que não é, proprietário rural, o “mestre”, como lhe chama a criadagem. Rose sabe que, enquanto mulher, nunca poderá chegar longe. Finge então ser homem num pragmático travestismo que lhe permite ter poder, liberdade, independência. Esta questão não é nova e está longe de ter terminado. Falou-se disso na entrevista: na África sub-sariana há mulheres migrantes que se mascaram de homens porque o disfarce favorece a sua entrada clandestina na Europa.

No filme de Schleinzer, o assunto adensa-se quando “ele” (Rose) é levado a casar para manter o status quo naquela sociedade rural. Sorte das sortes: não só a noiva do casamento de conveniência (papel de Caro Braun) lhe chega às mãos grávida (às escondidas de toda a gente), permitindo ao “casal” formar família, meses mais tarde, como alinha na mentira organizada e num lesbianismo implícito, fintando aquele mundo de homens — que não lhes perdoará.

De Schleinzer vimos, em Portugal, a sua obra de estreia, Michael, de 2011 (em torno de um pedófilo que mantinha um miúdo em cativeiro na sua cave). Há que acrescentar que o austríaco é um célebre director de casting em Viena, trabalhando com muita frequência com Michael Haneke, que o lançou nos palcos internacionais. O filme seguinte, Angelo, de 2018, não teve estreia portuguesa. Mas Rose terá, indubitavelmente, querem apostar? É um salto de gigante na esparsa filmografia do seu autor e o primeiro filme maior deste concurso, um trabalho de dramaturgia notável, com qualidades em todos os departamentos, da fotografia a preto e branco à minuciosa reconstituição de época.

GettyImages-2261759633

▲ Caro Braun, Markus Schleinzer e Sandra Hüller em Berlim, no photocall de “Rose”

Getty Images

We Are all Strangers, de Anthony Chen, é um retrato sublime não apenas da Singapura natal do cineasta, mas de como vive, de facto, toda uma classe média daquele país privilegiado da Ásia, do qual o cineasta se tornou o grande cronista. Deixou Berlim a cair de quatro. O lado panorâmico do cinema deste realizador tem sido uma aventura no tempo desde a estreia com Ilo Ilo, premiado com a Câmara de Ouro de Cannes 2013, continuada em seguida por Wet Season (2019), até este We Are All Strangers, o mais completo e emocional destes trabalhos. Em todos eles foi Chen acompanhando o crescimento do actor Jia Ler Koh (tinha 11 anos em Ilo Ilo), que agora interpreta um jovem homem incapaz de definir uma linha para o seu horizonte.

Ele vive sozinho com o pai, que se consome a trabalhar num street food. Quando sai do exército, a namorada engravida, é forçado a casar à pressa. À sua volta, toda uma maré de incertezas e já a vida lhe exige que tome as responsabilidades do mundo adulto. We Are all Strangers é bonito e comovente, um filme de grande riqueza a nivel afectivo, com uma Ásia que o presidente do júri Wim Wenders saberá reconhecer como poucos. Tem todos os argumentos para entrar no Palmarés e arrecadar prémio de prestígio.

▲ “We Are All Strangers”, de Anthony Chen

Deixou-se a um canto o drama belga Dust, de Anke Blondé, sobre dois empresários corruptos da Flandres do fim dos anos 90 (é o mais anti-climático dos thrillers). Perdeu-se tempo com o turco Salvation, de Emin Alper, sobre lutas tribais e de classes pelo direito à Terra numa remota aldeia do Curdistão que quer ser metáfora carregada do mundo.

Um pouco melhor mas, ainda assim, em plano secundário, ficou o reencontro com Amy Adams em At The Sea, em que a actriz dá corpo a uma mulher de meia-idade a sarar as próprias feridas, ex-bailarina, alcoólica, traumatizada pelo pai. Passou seis meses em clínica de reabilitação e regressa agora a casa, para reatar uma vida confortável com o marido – mas choca com a filha adolescente. É o mais acessível dos filmes do húngaro Kornél Mundruczó, que anda em desavença aberta com o rumo que Viktor Orbán está a dar ao país. Também ele dado a metáforas que por vezes pesam como chumbo, Mundruczó refugiou-se outra vez na língua inglesa (após Pieces of a Woman) e na península de Cape Cod, no Massachusetts, que não é propriamente o pior sítio do mundo para ressacar (e, também por isso, falta convicção às pulsões destrutivas da personagem de Amy Adams, que não pôde estar na Berlinale).

▲ Amy Adams em “At the Sea”, de Kornél Mundruczó

Também se deixa nota de simpatia para Nina Roza, filme “québécois” mas praticamente todo falado em búlgaro, assina Geneviève Dulude-de-Celles. É a história de um marchand de arte de Montréal, búlgaro de origem, que regressa a uma aldeia profunda do seu país após 28 anos de ausência. Objectivo: avaliar as criações de uma suposta criança-prodígio da pintura que começou a fazer furor nas redes sociais. Depois de Rosebush Pruning e de Rose, chegou a Berlim este Nina Roza de ironia fina, com um viajante solitário à tentar destrinçar o que é genuíno e o que é fraude — a sua vida talvez tenha passado pelo mesmo dilema.

Entretanto, a Berlinale fez valer a sua força e acrescentou duas obras de grande fôlego ao seu concurso: My Wife Cries, da alemã Angela Schanelec, e Queen at Sea, regresso do norte-americano Lance Hammer após 18 anos de ausência, desde Ballast, estreado em Berlim, em 2008. Queen at Sea é inglesíssimo de gema, foi rodado no Norte de Londres, com “Sir” Tom Courteney, Anna Calder-Marshall (dois intérpretes extraordinários que contracenam há mais de 50 anos no teatro britânico) e Juliette Binoche (no mesmo nível de grandeza). Ficam para a crónica seguinte.

É incrível como a partida muda. Este festival saiu para o intervalo a perder por muitos. Já pouco se dava por ele, adivinhando programação desbaratada, indiferente, sem chama. De repente, eis a remontada — e estamos em cima, pelos filmes de Schleinzer e Chen, pelos de Schanelec e Hammer. Esta Berlinale ainda não se deu por vencida. Acaba de lançar quatro cartas para a mesa que poderiam ir a jogo, sem a menor hesitação, em Cannes ou Veneza.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.