Há 8 anos, no dia do seu aniversário, o austríaco Markus Schleinzer recebeu de uma amiga uma parabenização invulgar: “Sabes que, neste mesmo dia, foi executada a última mulher alemã acusada de sodomia feminina?” — contou-nos em entrevista. Markus quis saber mais sobre aquele caso criminal. Encarou a informação como uma prenda de aniversário e a investigação levou-o a meados do século XVII, ao período posterior à Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), em que uma mulher alemã, disfarçada de homem, casou, de facto, com outra mulher e com ela manteve, com recurso a dildos esculpidos em madeira (na altura chamavam-lhes “objectos mortos”), um relacionamento sexual que pervertia a união natural entre homem e mulher (“aos olhos da Lei, o sexo entre mulheres, nessa altura, ainda não tinha sido inventado…”, disse também o cineasta). Veredicto: acto punido com a pena capital.
Por aqui começou a nascer Rose, nome que mal é pronunciado nesta terceira longa-metragem de Schleinzer porque, de facto, a protagonista (que mais tarde se sabe ter usurpado a identidade de um militar do conflito supra-citado), passa o filme inteiro na pele do homem que não é, proprietário rural, o “mestre”, como lhe chama a criadagem. Rose sabe que, enquanto mulher, nunca poderá chegar longe. Finge então ser homem num pragmático travestismo que lhe permite ter poder, liberdade, independência. Esta questão não é nova e está longe de ter terminado. Falou-se disso na entrevista: na África sub-sariana há mulheres migrantes que se mascaram de homens porque o disfarce favorece a sua entrada clandestina na Europa.
No filme de Schleinzer, o assunto adensa-se quando “ele” (Rose) é levado a casar para manter o status quo naquela sociedade rural. Sorte das sortes: não só a noiva do casamento de conveniência (papel de Caro Braun) lhe chega às mãos grávida (às escondidas de toda a gente), permitindo ao “casal” formar família, meses mais tarde, como alinha na mentira organizada e num lesbianismo implícito, fintando aquele mundo de homens — que não lhes perdoará.
De Schleinzer vimos, em Portugal, a sua obra de estreia, Michael, de 2011 (em torno de um pedófilo que mantinha um miúdo em cativeiro na sua cave). Há que acrescentar que o austríaco é um célebre director de casting em Viena, trabalhando com muita frequência com Michael Haneke, que o lançou nos palcos internacionais. O filme seguinte, Angelo, de 2018, não teve estreia portuguesa. Mas Rose terá, indubitavelmente, querem apostar? É um salto de gigante na esparsa filmografia do seu autor e o primeiro filme maior deste concurso, um trabalho de dramaturgia notável, com qualidades em todos os departamentos, da fotografia a preto e branco à minuciosa reconstituição de época.
▲ Caro Braun, Markus Schleinzer e Sandra Hüller em Berlim, no photocall de “Rose”
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We Are all Strangers, de Anthony Chen, é um retrato sublime não apenas da Singapura natal do cineasta, mas de como vive, de facto, toda uma classe média daquele país privilegiado da Ásia, do qual o cineasta se tornou o grande cronista. Deixou Berlim a cair de quatro. O lado panorâmico do cinema deste realizador tem sido uma aventura no tempo desde a estreia com Ilo Ilo, premiado com a Câmara de Ouro de Cannes 2013, continuada em seguida por Wet Season (2019), até este We Are All Strangers, o mais completo e emocional destes trabalhos. Em todos eles foi Chen acompanhando o crescimento do actor Jia Ler Koh (tinha 11 anos em Ilo Ilo), que agora interpreta um jovem homem incapaz de definir uma linha para o seu horizonte.
Ele vive sozinho com o pai, que se consome a trabalhar num street food. Quando sai do exército, a namorada engravida, é forçado a casar à pressa. À sua volta, toda uma maré de incertezas e já a vida lhe exige que tome as responsabilidades do mundo adulto. We Are all Strangers é bonito e comovente, um filme de grande riqueza a nivel afectivo, com uma Ásia que o presidente do júri Wim Wenders saberá reconhecer como poucos. Tem todos os argumentos para entrar no Palmarés e arrecadar prémio de prestígio.
▲ “We Are All Strangers”, de Anthony Chen
Deixou-se a um canto o drama belga Dust, de Anke Blondé, sobre dois empresários corruptos da Flandres do fim dos anos 90 (é o mais anti-climático dos thrillers). Perdeu-se tempo com o turco Salvation, de Emin Alper, sobre lutas tribais e de classes pelo direito à Terra numa remota aldeia do Curdistão que quer ser metáfora carregada do mundo.
Um pouco melhor mas, ainda assim, em plano secundário, ficou o reencontro com Amy Adams em At The Sea, em que a actriz dá corpo a uma mulher de meia-idade a sarar as próprias feridas, ex-bailarina, alcoólica, traumatizada pelo pai. Passou seis meses em clínica de reabilitação e regressa agora a casa, para reatar uma vida confortável com o marido – mas choca com a filha adolescente. É o mais acessível dos filmes do húngaro Kornél Mundruczó, que anda em desavença aberta com o rumo que Viktor Orbán está a dar ao país. Também ele dado a metáforas que por vezes pesam como chumbo, Mundruczó refugiou-se outra vez na língua inglesa (após Pieces of a Woman) e na península de Cape Cod, no Massachusetts, que não é propriamente o pior sítio do mundo para ressacar (e, também por isso, falta convicção às pulsões destrutivas da personagem de Amy Adams, que não pôde estar na Berlinale).
▲ Amy Adams em “At the Sea”, de Kornél Mundruczó
Também se deixa nota de simpatia para Nina Roza, filme “québécois” mas praticamente todo falado em búlgaro, assina Geneviève Dulude-de-Celles. É a história de um marchand de arte de Montréal, búlgaro de origem, que regressa a uma aldeia profunda do seu país após 28 anos de ausência. Objectivo: avaliar as criações de uma suposta criança-prodígio da pintura que começou a fazer furor nas redes sociais. Depois de Rosebush Pruning e de Rose, chegou a Berlim este Nina Roza de ironia fina, com um viajante solitário à tentar destrinçar o que é genuíno e o que é fraude — a sua vida talvez tenha passado pelo mesmo dilema.
Entretanto, a Berlinale fez valer a sua força e acrescentou duas obras de grande fôlego ao seu concurso: My Wife Cries, da alemã Angela Schanelec, e Queen at Sea, regresso do norte-americano Lance Hammer após 18 anos de ausência, desde Ballast, estreado em Berlim, em 2008. Queen at Sea é inglesíssimo de gema, foi rodado no Norte de Londres, com “Sir” Tom Courteney, Anna Calder-Marshall (dois intérpretes extraordinários que contracenam há mais de 50 anos no teatro britânico) e Juliette Binoche (no mesmo nível de grandeza). Ficam para a crónica seguinte.
É incrível como a partida muda. Este festival saiu para o intervalo a perder por muitos. Já pouco se dava por ele, adivinhando programação desbaratada, indiferente, sem chama. De repente, eis a remontada — e estamos em cima, pelos filmes de Schleinzer e Chen, pelos de Schanelec e Hammer. Esta Berlinale ainda não se deu por vencida. Acaba de lançar quatro cartas para a mesa que poderiam ir a jogo, sem a menor hesitação, em Cannes ou Veneza.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.