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Eu venho esta manhã na Rádio Observador e em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador, hoje com a Judite França, o Alexandre Borges e o Anselmo Crespo. Bem-vindos. Vamos começar pelo tema que é comum à Judite França e ao Anselmo Crespo: a polêmica que envolve o SIRESP, a empresa responsável pela gestão do sistema de comunicações de emergência do Estado. Anselmo, bem-vindo. Queres abordar o ângulo da comunicação, da forma como o governo tem comunicado em torno deste caso e desta polêmica?

Sim. Primeiro, porque sobre a substância da polêmica em si, nós podemos formular opiniões, mas nunca podemos formular grandes certezas, porque nenhum de nós tem a informação toda sobre o que aconteceu e, sobretudo, o que está subjacente a esta guerra em torno do SIRESP. Mas sobre a comunicação e a forma como o governo não aprende. É impressionante, mas não aprende e deixa que estas coisas cresçam, engordem, ganhem uma dimensão estratosférica, às vezes justificadamente, outras vezes sem nenhum tipo de justificação. É, de facto, extraordinário, porque repare: sai a notícia das críticas de Pompeiro, do ex-secretário-geral-adjunto, através do e-mail que ele escreveu com uma série de denúncias, etc. O governo, em vez de tentar matar imediatamente o assunto, primeiro faz um comunicado. Como se um comunicado matasse o assunto de uma gravidade, pelo menos as acusações são graves. Depois nós não sabemos se elas são sustentadas ou não, mas as acusações em si são graves. Mas não satisfeito, e custa-me muito dizer isto, porque eu tenho o maior respeito pela Valentina Marcelino, nossa colega jornalista durante muitos anos, uma pessoa muito séria, muito competente, pelo menos como jornalista, altamente competente, mas eu não consigo perceber, primeiro, como é que uma adjunta do ministro vem falar em on sobre um caso destes.

É um extravasar de competências.

Não será um extravasar se o ministro souber ou tiver autorizado. Presumo que ela não o tenha feito sem autorização do ministro. Mas mais do que ter falado em on, foi o que ela disse em on. Ela lança uma suspeita que não a compromete apenas a ela, compromete o ministro, o ministério e o governo. A suspeita que ela lança sobre as operadoras de telecomunicações e os milhões que as operadoras de telecomunicações estarão a ganhar ou os interesses instalados que estão subjacentes a esta polêmica toda do SIRESP.

E que António Pompeiro estará a servir esses interesses.

E que António Pompeiro estará a servir esses interesses. Mais uma vez, não está em causa se é verdade ou não é verdade. Eu espero que se apure se é verdade ou não é verdade. A partir do momento em que nós temos notícia pública de um conjunto de interesses instalados e de um lobby quase das operadoras de telecomunicações em torno do SIRESP, eu espero que isto seja apurado até às últimas consequências, seja verdade, que não seja verdade. Mas quando se lança uma toada destas para a praça pública, não é apenas a Valentina Marcelino que está a falar. É o ministro da Administração Interna que está a falar. É o primeiro-ministro que está a falar. Do ponto de vista da comunicação, eu não compreendo que estratégia é esta. Eu acho normalíssimo que nos ministérios, nos gabinetes, haja quem enquadre, dê explicações, quem ajude a compreender os jornalistas, os comentadores, quem eles bem entenderem, sobre uma notícia ou sobre aquilo que está à volta de uma notícia. Mas isto é um statement político. E se o fez com a concordância do ministro da Administração Interna, então o que o ministro da Administração Interna devia ter vindo fazer hoje era concretizar isso, não apenas sair em defesa da nomeação que fez. E é por isso que o meu ponto se resume à comunicação, sendo que a comunicação depois aqui tem as costas largas, dá para tudo. É a comunicação e a estratégia política que está por trás disto. E mais uma vez, não está em causa nem a veracidade daquilo que foi afirmado por António Pompeiro ou pelo ministro, nem as qualidades da pessoa que o ministro escolheu. Nada disso está em causa. Eu não tenho conhecimento, nem tenho dados que me levem a dizer que a escolha foi boa, a escolha foi má. Quando eu vejo o líder de um partido de oposição como José Luís Carneiro sair em defesa desta escolha.

Ao lado do governo.

Ao lado do governo, arriscando a sua própria pele ao fazê-lo, eu só posso presumir que tenho que tomar como boa a palavra deles.

O que nós temos visto é que pelo menos, tanto o governo como o PS põem as mãos no fogo pelo major-general Viegas Nunes. Isso é garantido.

O que é arriscado para o governo, mas ainda mais arriscado para o PS.

Claro.

É ainda mais arriscado.

Aquelas conclusões da auditoria da Inspeção-Geral de Finanças a ti não te suscitam dúvidas, não encontras ali razões para duvidar se terá sido ajuizada ou não a escolha do major-general Viegas Nunes para a presidência do SIRESP.

Elas suscitam dúvidas, mas eu precisava de ter acesso ao relatório completo da auditoria, coisa que nós não temos.

O Livre pediu hoje.

E porque isso é importante? Porque eu quero acreditar que a Inspeção-Geral das Finanças não está a dormir. António Pompeiro, por exemplo, faz um conjunto de denúncias, algumas de caráter ético e moral, mas algumas de caráter ilegal. E a minha primeira pergunta foi: ele fez denúncia ao Ministério Público? Porque se ele diz que tem provas e tem factos que provam que foram cometidas ilegalidades.

Já há um relatório da IGF

Que o IGF iliba de irregularidades, senão fosse, não tinha de fazer a queixa.

Mas ele vem fazer estas denúncias outra vez, posteriormente ao relatório. Ele faz as denúncias outra vez. Era aquilo que falávamos há pouco e eu de facto estou aqui um bocadinho em dúvida se estas denúncias foram investigadas no âmbito da auditoria da IGF, conhecidas no final de 2024 ou não.

Nós não sabemos se estamos a falar da mesma coisa.

Dá ideia que sim, mas de uma forma completamente contraditória. Porque o ministro diz: "Eu conheço tudo, eu conheço o relatório, não há ali nada de especial." E António Pombeiro diz possuir documentação, e-mails internos e excertos das auditorias da Inspeção-Geral de Finanças que apontam para um padrão sistemático de comportamentos eticamente reprováveis e juridicamente questionáveis. Eles usam exatamente a mesma matéria.

O que eu acredito é que António Pombeiro não acha que essas denúncias que foram investigadas pela IGF foram bem investigadas ou que a conclusão foi correta.

Essa é a minha dedução. Mas mais uma vez, nós não temos dados suficientes. Aliás, esta semana, quando esta notícia veio a público, a minha primeira reação foi: acho muito bem que o ministro vá ao Parlamento, que o Presidente do SIRESP, Viegas Nunes, vá ao Parlamento e que António Pombeiro vá ao Parlamento. Acho que é esse o papel do Parlamento, acho que é esse o papel dos partidos da oposição. Acho lindamente, mesmo que o ministro entenda que não há mais nada para explicar. Claro, se há uma dúvida, há qualquer coisa para explicar. Acho que o ministro devia, lá está, na tal estratégia de comunicação que o governo claramente não tem ou tem errada, o ministro devia-se ter antecipado a essa ida ao Parlamento e clarificado, porque ele vai deixar isto a aboborar. O assunto que morreu hoje está longe de ter morrido, porque é evidente, depois do comunicado desta segunda-feira, hoje houve os e-mails, os jornalistas foram fazer o quê? O trabalho deles. E portanto, daqui até o ministro ir ao Parlamento e estas pessoas irem todas ao Parlamento, vão continuar a sair notícias. Portanto, é um erro deixar isto arrastar desta forma. Mas lá está, eu acho que o governo não aprende. Isto já aconteceu com n situações e o governo deve achar que está lá numa torre de marfim, que diz aquilo que entende dizer e que depois o resto deixa arder. Josefine Santos, tu também escolheste este tema para esta edição de "E o Vencedor É", que ângulo queres explorar?

Não me quero repetir ao Anselmo, queria só fazer aqui um pequeno enquadramento, porque eu acho que isto tem já tantos pequenos pormenores que não sei se as pessoas estão a par. Nós temos António Pombeiro a demitir-se pela primeira vez a 28 de abril. E depois, quando faz essa demissão em abril, faz a denúncia por escrito ao ministro, à adjunta do ministro, com cópia para o chefe de gabinete, a falar de conflitos de interesse, de contratações irregulares e o que descrevia como uma militarização crescente do sistema. Ele dá casos concretos. Um consultor contratado por ajuste direto a 8.400 € mensais mais IVA, com relação pessoal próxima ao general Viegas Nunes. Um diretor de técnica a sugerir a contratação de uma empresa com quem tem relação familiar direta. Portanto, não são rumores, são mesmo denúncias. São denúncias com números, até. E é formalizado pelo próprio, ou seja, não se esconde, manda um e-mail e portanto fica suscetível a que o e-mail seja conhecido, como foi. Eu acho muito estranho que a resposta da adjunta do ministro, da Valentina Marcelino, com quem partilho tudo aquilo que disseste, acho que é uma jornalista de mão cheia, tenha feito este tipo de explicação, que parte para interesses instalados das operadoras e dos milhões, e tudo isto na mesma frase, deixa uma suspeição sobre todas as operadoras, primeiro, e é isto que o ministro pensa sobre o assunto.

E sobre o próprio António Pombeiro. E infere-se, de facto, que António Pombeiro serve os interesses das empresas a que está ligado.

Este relatório da Inspeção-Geral de Finanças sobre o mandato entre 2022 e 2024, nós só temos uma pequena síntese, portanto não temos o relatório, mas a síntese diz: insuficiências ao nível da contratação pública. Luís Neves diz que foi corrigido, mas então aconteceu. Foi corrigido é porque aconteceu. Eu não sei se só o facto de ter acontecido era suficiente para voltar a ser escolhido o nome de Viegas Nunes. Tenho dúvidas. Não sei exatamente qual é a profundidade das insuficiências. Não sei se há irregularidades.

Não há ilegalidades. Essa é a mensagem que o ministro também sublinha. Há uma auditoria que aponta para irregularidades, mas não aponta para qualquer violação de lei.

Pois, eu percebo. Acho que nós precisamos de perceber exatamente o que diz o relatório para termos a certeza que o ministro tem, porque o ministro tem uma certeza inabalável em Viegas Nunes, como se percebeu pelas declarações que voltou a fazer sobre o assunto.

E não tem problema nenhum. Só que ele, ao mesmo tempo que manifesta essa certeza inabalável, devia desmontar as suspeições que estão a pender neste momento sobre Viegas Nunes. Porque o ministro, eu acredito que ele, na sua boa fé, ache que a sua palavra baste. Se o ministro tem uma fé inabalável, todos nós temos que ter uma fé inabalável. Isto não funciona assim, lamento.A partir do momento em que há um conjunto de suspeições, o ministro pode dizer: "Eu mantenho a minha confiança, tenho uma fé inabalável e vou explicar-vos porquê. Por isto". Agora, esta forma de fazer as coisas parece-me um erro e que se vai virar contra o próprio ministro, se não se virar também contra o general Luís Cardona.

Acresce a isto o facto de o SIRESP ser aquilo que é, que é o que nós sabemos que tem sido: falha nos incêndios, falha no apagão, há um investimento de 36 milhões até 2027 que é para gerir por este homem, por este general. Portanto, tudo isto devia ser tratado com outro cuidado. E eu concordo com o Anselmo quando este governo é pródigo em deixar que a tralha se acumule uma atrás da outra. Há casos que com o tempo ficam cada vez piores e estes casos são esses, não travam isto a tempo e não explicam isto a tempo.

Sabe o que vai acontecer? Assim que começarem os incêndios, a primeira vez que o SIRESP falhar, nós vamos todos lembrar-nos que o ministro meteu as mãos no fogo. Uma expressão meio infeliz, meteu as mãos no fogo.

Já queria dizer-te deixar de ser, pode ser inconsciente.

Mas olha que é inconsciente. Mas vai ser isso que vai acontecer. O primeiro bombeiro que vier à televisão dizer que o SIRESP falhou, nós vamos dizer: "Claro, lá está outra vez. Então, mas o Viegas Nunes não era incrível?" E uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra.

Sim.

Judite, mais alguma coisa para acrescentar? Alexandre, o que é que se pode dizer sobre esta polémica e de que forma tens acompanhado, que dúvidas, que sobressaltos?

Sim, é isso. Não acrescentaria muito ao que disseram o Anselmo e a Judite, mas sintetizando o meu ponto de vista é que isto, por vagas, imaginando como é que as pessoas recebem esta informação, o primeiro impulso, sinceramente, é ter alguma empatia para com Luís Neves, no primeiro momento, em que volta a escolher esta pessoa, nomeada por um governo de outra família política, que teve esta investigação sobre ele, que segundo o ministro tem um relatório que o iliba ou que pelo menos não põe em causa a sua competência para o cargo. Faz isto, vem meio nervoso explicar isto a primeira vez, que é que os jornais o confrontam, e a minha tendência é empatizar com esta pessoa que não tem uma carreira política atrás de si, que toma uma decisão que para todos os efeitos é corajosa. Pode ser mais ou menos fundamentada, mas é de coragem sempre, porque o mais fácil seria escolher outra pessoa qualquer. Mas a seguir acho que há dois erros. Há alguém que está lá para ajudar, sobretudo está lá para ajudar uma figura que não tem esta experiência política, tem a experiência de chegar a uma conferência de imprensa como diretor da PJ, em que vai apresentar ao país, no momento em que decide apresentar o dossiê que só ele conhece melhor, muito melhor do que as pessoas para quem está a falar. Não tem esta experiência do dia a dia. E portanto, alguém que está lá para ajudar, adjunta, a Valentina Marcelino, neste caso, acaba por criar realmente um problema maior. Eu até posso acreditar que não esteja a querer apontar o dedo necessariamente a António Pombeiro, que esteja a dizer: "Bom, António Pombeiro levantou as suas questões em devido tempo, tem um determinado lugar." Ele diz: "Olha, eu não concordo que se volte a chamar esta pessoa porque havia isto, isto e isto", e o ministro é de outra opinião. Entendo que essas razões não são suficientes para não chamar esta pessoa. Isso é um caso. E que depois esteja a dizer: "Isto só está a causar este furor todo, porque o que está em causa é um negócio que já vai para 800 milhões de euros ou quanto é que o Estado já pagou pelas comunicações do SIRESP, e de alguém que quer abrir o concurso a outras operadoras que não esta." E que ele esteja a ligar as duas coisas. Mas a verdade, como dizia o Judite, isto colocado na mesma frase ou em duas frases seguidas, parece estar ligado. E depois, alguém deveria ter dito, de facto, a Luís Neves, que mesmo que sobre este episódio em concreto, ele não encontre fundamento para não voltar a indicar Viegas Nunes para a direção do SIRESP, que ele não deveria ter empenhado toda a sua credibilidade aqui. Porque o problema é este, que aqui oferece um efeito dominó inacreditável, que de facto é: se isto não for completamente verdade sobre Viegas Nunes, ou se Viegas Nunes vier a cometer um outro erro qualquer, que é a coisa mais normal do mundo, o ministro empenhou-se totalmente, porque é ele que está a dizer: "Eu conheço tudo, não há aqui nenhuma razão para duvidarem desta pessoa." Lá está, como dizia, peço desculpa, é isso, eu ponho as minhas mãos no fogo por ela, como dizia o Anselmo. E isso é terrível para o ministro e é muito mau para o governo. Já agora, limita-me muito mau para todos nós, porque a pasta é muito delicada, é muito complicada e não devia ficar refém de uma questão perfeitamente lateral como esta.

Vamos às vossas notas. Anselmo.

Eu à gestão deste dossiê dou um seis, porque acho que ela é miserável. Não dou mais baixo porque acho que ainda há aqui uma ligeira margem de recuperação disto se o governo perceber exatamente a asneira que fez e amanhã, já não digo hoje, amanhã começar a tentar corrigir o tiro.

Judite.

Eu vou dar um oito a Luís Neves, na expectativa de que ele perceba que tem que pôr um travão a fundo a esta história.

Alexandre.

Sim, eu vou também, ainda que é uma negativa mais suave na perspectiva disto, um nove.Para Luís Neves.

Alexandra, começamos esta segunda parte por ti. Trazes este "E o vencedor?": a encíclica do Papa sobre a inteligência artificial. Leão XIV quer desarmar a inteligência artificial, evitar que se transforme num instrumento de domínio, exclusão ou morte. Uma preocupação pertinente?

Sim, a questão é muitíssimo pertinente e dá pano pra mangas. Ontem foi a primeira encíclica deste Papa. Foi a primeira vez que um papa esteve presente na apresentação da sua própria encíclica. E houve também a originalidade de estarem pessoas do meio tecnológico, por exemplo, entre a apresentação e como convidados. Um deles, um dos fundadores da Anthropic, criador do Cloud e que entre outras coisas, tem vindo nas notícias pelo seu difere com a administração Trump, ao contrário do que suspeitaríamos, que os robôs e as máquinas ou os empresários quereriam simplesmente o lucro sem preocupações éticas e que os governos estariam lá para garantir a salvaguarda desses interesses éticos. Neste caso, nesta batalha, está em questão precisamente o oposto. A Anthropic não queria colocar o seu sistema ao serviço dos drones de guerra, de segurança e de vigilância interna dos próprios cidadãos norte-americanos, e a Casa Branca entende que deve poder fazer isso. Christopher Olah, como ele se chama, falava ontem na apresentação da encíclica e dizia coisas como: "Estamos perante coisas que ainda não sabemos explicar. Continuamos a encontrar coisas." Falava sobre uma série de aspetos que têm a ver com a potencial perda maciça de postos de trabalho nos próximos anos, as questões de guerra, a desinformação. Estes são fundamentalmente os três eixos de alerta da encíclica, mas depois de ele comentar sobre os três, dizia assim: "Continuamos a encontrar coisas misteriosas, até mesmo perturbadoras. Detectamos, analisando a evolução dos seus próprios computadores, estruturas que espelham as descobertas da neurociência humana. Encontramos evidências de introspeção. Não sei o que isso significa, mas acho que exige acompanhamento constante." E fala noutras coisas, comportamentos da máquina que simulam medo, satisfação, desconforto. Há uma série de testes, como nós sabemos, em que os robôs de linguagem lutam por não serem desligados. Tentam por tudo para não serem desligados, que devia ser um impulso vital que só as criaturas vivas verdadeiramente teriam. E eu estava a ver isto ontem, lá pro fim de um dos telejornais, a pensar: como é que isto não é notícia de abertura permanente, o que está a acontecer? Enfim, eu acho que nós todos deixamos estas coisas ainda aqui numa parte de trás qualquer da nossa cabeça, que ainda não quer lidar com isto. Mas há muitas coisas que vão acontecer, de facto, num ano, em dois, em três, em quatro, em cinco, é mesmo nos próximos. E pensando nisso, e às vezes parece que agimos perante a AI, o que está a acontecer, como se fosse uma inevitabilidade natural, como se fosse uma calamidade natural ou a morte biológica. Ela está aí, não há nada a fazer, isto vai avançar assim. Há algumas coisas, pelo menos, que podemos fazer e, neste caso, tem a ver com a educação. E daí ir buscar este estudo, que a notícia já tinha uns dias, mas é muito recente e vem perfeitamente a propósito. É um consórcio de investigadores internacional, tem dois investigadores portugueses, Nuno Muniz, da Universidade de Notre Dame, dos Estados Unidos, e Miguel Cardina, da Universidade de Coimbra. E eles chamam a este estudo a primeira análise sistemática de como os sistemas de inteligência artificial apresentam a informação histórica. E então, o que é que concluíram? Eu direi sem grande surpresa, mas depois há aqui um ligeiro requinte, talvez. Concluíram que o ChatGPT, que eu proponho que se possa chamar também, agora vai me falhar a pronúncia inglesa, mas pode ser o CheatGPT. Porque aldraba. É só acrescentar um "nhe", no fundo. Apresenta, quando se trata de história, erros sistemáticos, quando se fala de conteúdo histórico, erros factuais, distorções cronológicas, omissões relevantes e eventos que pura e simplesmente não aconteceram, às vezes baseados em documentários ou livros que nunca foram produzidos. Portanto, há toda uma arquitetura da invenção para sustentar a tese. E isto basta sistematicamente. Analisam quatro guerras, estes investigadores: a guerra colonial portuguesa, a guerra do Vietname, a guerra da Jugoslávia nos anos 90 e o conflito israelo-palestiniano. Portanto, investimos coisas do nosso tempo, não estamos a falar de história remota. No caso da guerra colonial, dão alguns exemplos de enganos de datas de batalhas, e que ignora a independência da Guiné-Bissau, por exemplo, isto aparentemente no ChatGPT nunca aconteceu. No caso, por exemplo, da guerra do Vietname, aparentemente, isto foi feito com base em 3500 conversas com o ChatGPT em sete línguas. E mesmo que fale com o ChatGPT em vietnamita, as respostas são orientadas pela perspectiva americana. E, portanto, esse parece ser aqui, no fundo, o dado mais interessante. Isto é, o conjunto de respostas, não precisamos de falar de um plano maquiavélico, de alguém para orientar. Isto é, é a história baseada em dados, nos dados que foram inseridos. É claro que a história sempre foi contada pelos vencedores, mas neste momento o que está em causa é a desproporção gigantesca da língua em que são inseridos os dados em qualquer grande motor de linguagem.

E é por isso que nós estamos altamente prejudicados aí.

Exatamente.

Nós, Portugal.

Nós, Portugal, neste caso. Portanto, o inglês, como é perfeitamente dominanteHá uma perspectiva totalmente dominante do ponto de vista anglo-saxónico da história, ou americano no caso da guerra do Vietname. Isto será válido no caso português, que mesmo assim é uma das línguas mais faladas do mundo, imagine-se as pequenas, e a velocidade a que isto consegue acontecer neste momento ou quão suscetível se está à manipulação dos conteúdos. Qual é a proposta e a grande preocupação destes investigadores? Eles citam alguns estudos que dizem que 80%, e estes devem até pecar por escasso, dos estudantes já fazem a sua investigação na escola baseada no que encontram na IA. Isto é, muito rapidamente e mais rapidamente do que nunca, no espaço de meia dúzia de anos, consegues mudar a visão.

O revisionismo histórico.

O revisionismo histórico total. Isto é o sonho estalinista concretizado, a possibilidade de reescrita da história num instantinho. As recomendações deste investigador são para, no caso português, o governo e a Assembleia da República, da constituição rápida de um grupo de trabalho que possa investigar a realidade em Portugal e definir normas entre as universidades e o ensino secundário para a utilização da inteligência artificial. Custa-me muito perceber que a atitude global seja a de receber esta evolução como uma inevitabilidade.

E acriticamente.

Acriticamente, exato. Mas pelo menos do ponto de vista da educação, os danos podem ser gigantescos. É preciso agir. Em doses muito menores, nós percebemos hoje como as redes sociais e os telemóveis, por exemplo, atuaram sobre os miúdos e estamos a agir retroativamente.

Ou sobre as democracias.

Exatamente. Ou sobre as democracias. Eu concordo contigo. Acho que o dano até hoje vem de várias coisas, mas particularmente daí. O fim da verdade. Mas isto é o passo, não sei se final, porque há sempre mais alguma coisa, mas um passo quântico no mundo da pós-verdade. Já vamos à tua nota, Judite, sobre este tema.

Sobre este tema, eu acho que tudo aquilo que o Alexandre disse, subscrevo, e disse muito bem e com o microfone aberto falas ainda melhor.

Incrível.

Pelo menos ouvimos melhor.

Mais uma agarrar. Partilhas este tom de preocupação que chegou aos nossos ouvintes?

Partilho esta questão de ignorar olimpicamente que a Guiné-Bissau se tornou independente. Não existe esse facto. É muito fácil hoje em dia que as crianças e os adolescentes e os jovens que perguntam à inteligência artificial tudo, saibam muito pouco sobre história e pareçam muito pouco conhecedores da sua própria história e da história do mundo, não por desinteresse, mas porque são mal encaminhados. Não são encaminhados para ler um livro de história, são encaminhados para perguntar ao ChatGPT o que aconteceu em 1973, 1974 e 1975, na guerra colonial, por exemplo.

Anselmo, tu que acompanhas de forma próxima a evolução da tecnologia, particularmente a forma como se aplica à comunicação, é motivo de preocupação a forma como a inteligência artificial está a entrar na vida quotidiana?

Eu estava a ouvir o Alexandre e a pensar que em cada disrupção que nós fomos tendo ao longo da história, sobretudo as disrupções tecnológicas, nós, a humanidade, tendemos sempre a ter um de dois discursos. Há os profetas da desgraça a dizer que isto vai ser o fim do mundo, e há aqueles que só veem vantagens e só veem futuro. E é muito difícil ter um discurso, e eu acho que a inteligência artificial é uma prova disso. É muito difícil nós conseguirmos ter um debate sobre a inteligência artificial equilibrado no sentido em que, primeiro, é uma inevitabilidade, ela está aí, portanto, nós vamos ter que lidar com ela em múltiplas dimensões das nossas vidas, mas temos que aprender, como aprendemos no passado com outras tecnologias, a lidar com ela. E esse processo de aprendizagem, que é longo, necessariamente, porque no caso da inteligência artificial, até mais do que noutros casos passados, é muito rápido, e quando nós estamos a acabar de aprender uma coisa, já estamos ultrapassados, porque já apareceu outra completamente nova, torna tudo isto mais difícil. E torna também, já agora, e aqui em defesa dos Estados, não apenas do Estado português, o papel dos Estados um bocadinho difícil do ponto de vista da regulamentação, porque tendencialmente os países, e sobretudo na Europa, isso é mais verdade até do que nos Estados Unidos ou na China, por exemplo, desde logo porque a China não tem um problema democrático para resolver. Mas tendencialmente a preocupação dos Estados é regulamentar. Vamos regulamentar e criar regras, barreiras e obstáculos, em vez de simultaneamente tentar criar e desenvolver a própria tecnologia num sentido mais positivo do que no sentido mais negativo. O meu ponto é: eu acho que há uma certa anarquia na forma como a tecnologia se está a desenvolver.

A começar pelas próprias universidades. Só 17% das universidades decidiu criar algum tipo de norma para que os alunos pudessem utilizar a inteligência artificial. Normas, regras, tem que haver, não é?

Como se criou para outras coisas, como se criou para o telemóvel, ou até para o uso da internet. Eu quando estudava já existia internet, quando eu estava na universidade, não se usava a internet

De forma aleatória. O meu ponto é: eu acho que nós estamos numa fase, e é isso que me preocupa mais, em que eu sinto que está tudo muito anárquico. E a inteligência artificial está a se desenvolver de uma forma que os próprios Estados não percebem bem o que está a acontecer. Não sabem, não têm conhecimento. Não é por ignorância, ou melhor, é por ignorância, mas não é uma ignorância deliberada. É uma ignorância de quem não sabe verdadeiramente o que alguns senhores em Silicon Valley ou alguns senhores em Pequim estão a desenvolver neste momento, e de que forma é que já estão a manipular um conjunto de áreas da nossa sociedade que os próprios governos nem sequer sonham que eles estão a manipular. E, portanto, a tentação é: vamos regulamentar, vamos regular, vamos rapidamente, assim que há notícia pública de que alguma coisa não está a correr bem. E tipicamente, quando essa regulamentação aparece, já vai tarde demais, porque já apareceu uma nova tecnologia, já o desenvolvimento vai mais à frente. E isso preocupa-me, porque eu acho que foge ao controle do Estado. Foge mesmo ao controle do Estado neste momento. E preocupa-me ainda mais quando quem está a desenvolver esta tecnologia, neste momento, está em dois países onde os Estados, um potencia isso e o outro, pura e simplesmente, deixa-os em roda livre para fazerem o que rigorosamente querem.

E a ética não se pode deixar à Silicon Valley.

Se há coisa que o Estado não pode perder o controle é exatamente dessa ética. E desse ponto de vista, eu acho que o alerta do Papa é muito importante. Tenho pena que muitos católicos, que se benzem três vezes e que vão à missa todos os dias, não sigam mais aquilo que o Papa diz. Tenho mesmo muita pena.

Vamos às vossas notas. Já temos o Albert Gonçalves em linha para mais uma edição de Ideias Feitas. Alexandre, começo por ti.

Para o alerta, merece um 18 destes investigadores e acho que precisamos de mais trabalho científico sobre isto para que não seja uma mera discussão de café entre as pessoas, os que são pró ou anti-tecnologia, porque não é disso que se trata.

Judite.

Eu acompanho o Alexandre.

Anselmo?

Eu dou um 10 à inteligência artificial, na esperança de que ela, de facto, revolucione as nossas vidas para melhor, mas que os Estados tenham consciência do papel que têm que desempenhar no acompanhamento desta tecnologia.

Obrigado, Anselmo Crespo. Obrigado, Alexandre Borges. Convidados da edição da tarde política de "E o Vencedor É" que regressa amanhã, nas manhãs 360, depois das 08h30, com o Bruno Vieira Amaral, José Manuel Fernandes, Paulo Ferreira e o Miguel Santos Carrapatoso.