Uma exposição dedicada ao potencial da terra como material de construção sustentável e campo de experimentação para a arquitetura contemporânea inaugura quarta-feira no Centro de Arquitetura do Museu de Arte Contemporânea/Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

Com curadoria de Madalena Vidigal, a mostra, intitulada Terra Crua, propõe uma reflexão sobre a utilização da terra crua enquanto recurso natural, local e disponível, num contexto marcado pela crescente pressão sobre os limites ambientais do planeta, segundo a informação divulgada pelo museu.

A exposição no Centro de Arquitetura do Museu de Arte Contemporânea/Centro Cultural de Belém (MAC/CCB) parte da ideia de que construir com terra implica compreender o território e recuperar conhecimentos acumulados ao longo de gerações, relacionando recursos naturais, cultura construtiva e práticas arquitetónicas contemporâneas.

Através de exemplos históricos, investigação científica e experiências práticas, Terra Crua apresenta a terra como matéria, arquivo e agente da arquitetura contemporânea, propondo uma reflexão sobre modelos de construção mais sustentáveis e ligados aos recursos locais.

A partir da observação das chamadas Terras de Lisboa, resultantes de escavações realizadas em obras urbanas, os investigadores procuraram testar formas de reutilização destes materiais na construção, através daquele projeto dedicado ao mapeamento, caracterização e desenvolvimento de componentes construtivos a partir de solos urbanos, assinala o museu.

Durante a preparação da exposição, foi instalado um Laboratório de Terras, espaço de experimentação e produção onde se cruzaram investigação, ensino e prática construtiva, aberto regularmente a estudantes, orientados pelo atelier DOING.pt e pelo CRU atelier em residência, que funcionou como dispositivo pedagógico e operativo, conjugando o conhecimento com a sua aplicação.

O percurso expositivo organiza-se em torno de três núcleos — Matéria, Arquivo e Agente —, explorando as propriedades físicas e minerais do solo, a memória das tradições construtivas associadas à terra, e as possibilidades da sua aplicação atual na arquitetura, descreve o texto.

A exposição destaca as qualidades ecológicas e físicas da terra crua, apresentada como um material de reduzida transformação industrial, baixo carbono incorporado e potencial circular, cuja utilização assenta num conhecimento profundo das características dos solos.

No núcleo dedicado à matéria é abordada a composição física da terra e o seu comportamento enquanto material de construção, sublinhando-se a articulação entre saberes empíricos tradicionais e investigação tecnológica contemporânea para alcançar elevados níveis de desempenho construtivo.

A secção Arquivo centra-se na relação histórica entre a terra e os territórios, documentando práticas construtivas desenvolvidas em Portugal ao longo de séculos e a forma como os recursos locais influenciaram diferentes expressões arquitetónicas regionais.

Segundo a curadoria, a industrialização da construção, a partir da segunda metade do século XX, contribuiu para o enfraquecimento da transmissão destes conhecimentos, embora o interesse pela construção em terra tenha conhecido um renovado impulso desde a década de 1980, associado à investigação científica e à arquitetura contemporânea.

O núcleo Agente apresenta projetos desenvolvidos no âmbito do Laboratório de Terras, criado para a preparação da exposição, envolvendo investigação, ensino e experimentação prática com estudantes e os ateliers DOING.pt e CRU atelier.

Citada no comunicado, a curadora, Madalena Vidigal, considera que a mostra procura demonstrar como a terra pode voltar a aproximar a arquitetura do território onde se constrói, valorizando o potencial “sensível, ético e poético” deste material.

Por seu lado, a diretora artística do MAC/CCB, Nuria Enguita, considera que a exposição, que ficará patente até 11 de outubro, propõe olhar para a terra “não como um retorno nostálgico, mas como uma proposta radical para a arquitetura contemporânea em Portugal num momento de pressão sobre os limites do planeta”.