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"Widow's Bay": um tesouro de ilha

Dois ingredientes fazem da série da Apple TV+ uma das melhores produções de 2026: o perfeito cruzamento entre comédia e mistério (e algum terror); e o elenco, liderado por Matthew Rhys.

Matthew Rhys é o "mayor" Tom Loftis, que quer muito transformar uma cidade, em que os habitantes parecem viver por sentença e não por vontade própria, num instagramável destino turístico. Mas há muita coisa estranha a acontecer em Widow's Bay
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Matthew Rhys é o "mayor" Tom Loftis, que quer muito transformar uma cidade, em que os habitantes parecem viver por sentença e não por vontade própria, num instagramável destino turístico. Mas há muita coisa estranha a acontecer em Widow's Bay

Matthew Rhys é o "mayor" Tom Loftis, que quer muito transformar uma cidade, em que os habitantes parecem viver por sentença e não por vontade própria, num instagramável destino turístico. Mas há muita coisa estranha a acontecer em Widow's Bay

Apesar do meu algoritmo ter sido inundado com referências muito elogiosas a esta nova série da Apple TV+, eu estava a resistir estoicamente ao FOMO, por alegada falta de tempo. Tinha posto um pionés imaginário na produção, deixando-a para outras núpcias. É verdade que ando deveras ocupada, coisa com que empatizarão, mas se a minha gestão de tempo audiovisual for escrutinada, posso eventualmente borrar a pintura. Por exemplo, o que dirá das minhas prioridades o facto de ter despachado a série toda das Patrocínio antes de ver um episódio que fosse de Widow’s Bay?

Felizmente, a salvação da minha honra chegou graças a uma prioridade suprema e incontestável: a minha filha. Pois que a pequena me disse que abandonou Widow’s Bay ao segundo episódio, porque apareceu um palhaço assassino e não tencionava arriscar mais avistamentos do dito. Atenção que ela com assassinos lida bem, agora artistas circenses de cara pintada de cal e flores que esguicham, nem pensar. É claro que, como boa mãe estóica-guerreira-leoa que sou, disse “Nada temas, minha filha!”, desembainhei o comando e ofereci-me prontamente para ver a série e assinalar ao minuto, ao segundo, e até ao frame, aparições apalhaçadas. Se não é caso para me darem a medalha de Mãe do Ano, não sei o que é.

Então e o que é que temos aqui, que desencadeou tanto sururu (boa e velha expressão de avó), a ponto de, à data, estar em primeiro lugar nas séries mais vistas da Apple TV+? Terror clássico, comédia de relação e desconforto ao mesmo tempo, e dilemas bons para discutir num jantar de amigos com o copo de vinho à frente, mas Deus nos livre de passar por eles, lagarto, lagarto, lagarto. Widow’s Bay arranca como tantas outras histórias de meter miaúfa. Um lobo do mar que está a falar para terra e perde o pio. Um nevoeiro misterioso que se adensa (se tivessem morado perto da Praia Grande, era mais uma quarta-feira) e pássaros com comportamento estranhos (que os bichos sentem sempre estas coisas, já diz a minha mãe).

Dá-se uma falha de energia, a terra começa a tremer, o fedor a desgraça está oficialmente no ar e Tom, o protagonista, vai andar a distribuir pela ilha ambientadores de pinho figurativos para disfarçar o cheiro. Tom Loftis (um inatacável desempenho de Matthew Rhys de The Americans e, para os mais antigos, Brothers and Sisters) é o presidente da Câmara de Widow’s Bay, a ilha que dá nome à série. Uma cidade costeira em Nova Inglaterra onde Judas perdeu as meias, porque as botas já tinham ido à vida há uns bons quilómetros. Tom quer muito transformar uma cidade, em que os habitantes parecem viver por sentença e não por vontade própria, num instagramável destino turístico. E está prestes a dar um passo importante para atingir o seu propósito: receber um jornalista de viagens do The New York Times.

Tom vai dar o tudo por tudo para vender o lifestyle da sua comarca, ao mesmo tempo que Wyck, o capitão do porto, (Stephen Root, de Este País não é para Velhos e Foge, só assim de repente) proclama o chamado fim do mundo em cuecas. Wyck diz que vão todos morrer. Tom diz que a ilha precisa de wifi. Ao longo da série, as evidências começam a entrar pelos olhos adentro do edil (palavra mais conhecida por ser uma solução de palavras cruzadas) e é cada vez mais difícil negar uma verdade que parece mentira. Uma maldição multidisciplinar, que é um pot pourri de carnificina para todos os gostos: um nevoeiro que enlouquece, uma bruxa que se senta na cara das vítimas, um papão com um facalhão, um pai que dizima a família, uma louca suicida, um toque ou outro de canibalismo, o já referido palhaço assassino, assim como “a tal maldição que chega de nevoeiro em que os olhos ficam brancos, há perda dos sentidos e delírio, perda de ereção…” Isto é Widow’s Bay.

Como se não lhe bastasse estar a debater-se como uma hecatombe paranormal, Tom é pai de um adolescente órfão de mãe, o que pode ser tão ou mais difícil do que lidar com o Belzebu. Não sabemos se a relação já teve melhores dias, mas estes não são bons, certamente. E para cereja no topo do bolo, Tom tem um gabinete autárquico digno do Inferno de Dante.

Uma equipa composta por meia dúzia de gatos pingados que derivam entre a incompetência, o desrespeito total e absoluto pela sua autoridade e a pura e simples falta de noção. A secretária Ruth (K Callan, a avó catatónica do primeiro Knives Out) é uma octogenária a dever umas décadas à reforma, que vai a casa fazer sestas durante o horário do expediente. Rosemary (Dale Dickey, a detetive de Unbelievable), dona da delicadeza de um caterpiller, entre cigarros faz umas pausas para trabalhar. Dale (Jeff Hiller de Somebody Somewhere) tem o semblante de quem está permanentemente surpreendido por estar na presença de seres humanos, ao mesmo tempo que  parece estar a todo o momento sob o efeito de medicação que exige prescrição. E faz lembrar imensamente o Stephen King, o que não me parece ser uma mera coincidência, tendo em conta a quantidade de referências à obra do mestre dos cagaços.

A fechar este hino ao funcionalismo público, temos Patricia (Kate O’Flynn que faz um papelaço. E já agora, se ainda não viram, vão ver Landscapers). Patricia é, como dizer, maluca dos cornos. E parece ter um mix de crush tóxico e absoluto desdém pelo chefe. Da mesma maneira que, por um lado, odeia o trabalho e por outro, é a coisa mais importante da sua vida. Mais uma vez, as semelhanças com a Winifred (Shelley Duvall) de The Shining não serão um puro acaso (se estiverem com atenção, o livro até aparece num episódio). Assim como o quarto episódio (um dos meus preferidos), que é muito centrado em Patricia, é uma clara homenagem a Carrie, o primeiro livro de King.

Um dos grandes feitos de Widow’s Bay é fazer com mestria um cruzamento de géneros extremamente difícil: a comédia com o terror/mistério. Mas o toque de génio é pegar em dois tipos de narrativa tão familiares e criar um tom único, que dá uma sensação de novidade que é cada vez mais complicada de atingir. E não vou mentir, muito me alegra que esta chave tenha sido descoberta por uma congénere, a argumentista Katie Dippold. É que se formos ao IMDB da criadora da série, vemos que ao lado dos créditos de escrita de um Mad TV e Parks and Recreations, temos uma Haunted Mansion e GhostBusters e dá-se um aha moment.

Então e a realização, perguntam vocês (que é esplêndida, diga-se em abono de verdade)? Temos 4 singelos nomes: Hiro Murai da série de culto Atlanta, Andrew DeYoung do ovni The Chair Company, Samuel Donovan do meu hiper-foco pessoal Severance e Ti West do frito, mas lindíssimo, Pearl. É um bis de aha moment, senhoras e senhores. De referir ainda que a montagem de som e a banda sonora estão de apetite, como se exige em particular no thriller/terror/suspense.

O elenco faz um brilharete de uma pontinha à outra, mas Matthew Rhys e a Kate O’Flynn estão que estão. Porque se é difícil equilibrar uma narrativa com momentos de gargalhada e de pânico, interpretar isso sem cair no ridículo é de tirar a cartola. Tom está constantemente entre o frenesim e o desmaio e quanto mais se esforça por fazer tudo bem, mais enfia não só o pé, como as duas pernas na poça. E será que ele só quer mesmo o bem comum ou quer levar avante a sua razão? Já Patrícia é a subalterna que trata o superior hierárquico não como se fosse mãe dele, mas mais como madrasta (sim estou a usar estereótipos, calma), não sendo essa a única relação em que ela se mostra bastante inapta. A solidão dela dá pena, mas não faltam motivos em quantidade e qualidade, até porque o instinto de sobrevivência aconselha uma distância de segurança.

Engraçado como foi a minha filha que me levou a ver a série e como a série, para lá de ótimas piadas e excelsos sustos, também é sobre o amor incondicional de um pai. Como em muitas histórias do omnipresente Stephen King, Widow’s Bay assenta muito na ideia de que as situações limite revelam o melhor, mas muitas vezes o pior da espécie humana e de como os teus valores e as tuas prioridades se tornam claras quando estás à beira do precipício. Davas a vida por alguém? Matavas para sobreviver? A ameaça é uma motivação para a defesa ou um pretexto para o ataque?

É excelente que uma série, adornada com uma boa dose de palermice, mas estruturalmente de terror e recheada de superstições, feitiçarias e demónios, convide a uma reflexão tão crua e real, porque dá muito jeito pôr na conta do Diabo o mal que há no mundo e o pobre do mafarrico tinha que fazer duplos turnos, e não chegava, para justificar a tão atual e proliferante falta de humanidade.

Só mais uma coisa: o último episódio é dos fechos de temporada mais perfeitinhos que vi nos últimos tempos. Bravo!

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