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Beverly Glenn-Copeland: a arte do renascimento

Depois de passar por Lisboa, o músico de culto faz este verão uma tour única pela Europa. Diagnosticado com demência, o ícone trans de 82 anos traz um novo álbum e uma experiência de espiritualidade.

Figura da cena artística local até entrar na casa dos 70, o canadiano tornou-se fenómeno de culto mundial quando um colecionador japonês descobriu uma cassete áudio que gravara em 1986, "Keyboard Fantasies"
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▲Figura da cena artística local até entrar na casa dos 70, o canadiano tornou-se fenómeno de culto mundial quando um colecionador japonês descobriu uma cassete áudio que gravara em 1986, "Keyboard Fantasies"

FOTOS: BEATRIZ PEQUENO

▲Figura da cena artística local até entrar na casa dos 70, o canadiano tornou-se fenómeno de culto mundial quando um colecionador japonês descobriu uma cassete áudio que gravara em 1986, "Keyboard Fantasies"

FOTOS: BEATRIZ PEQUENO

Passam cinco anos sobre a ressurreição de Beverly Glenn-Copeland. Em semana de Santos Populares, num concerto de última hora, o canadiano prepara-se para atuar pela primeira e possível última vez em Lisboa. Máscaras cirúrgicas obrigatórias, o arraial de Campolide ao longe e um auditório da Reitoria da Universidade Nova em suspenso, como uma irmandade secreta.

“Bem-vindos, jovens e velhos”, ouve-se aos primeiros minutos de música. Uma luz suave ilumina o centro do palco. De pé, acompanhado pelo pianista e diretor musical Alex Samaras, um homem franzino e grisalho entoa, “Somos sempre novos, somos sempre novos”. É o refrão do seu tema mais popular, Ever New [“Welcome to you both young and old/ We are ever new, ever new”]. Sereno, sorridente e de braços abertos, aos 82 anos, Glenn, como é conhecido, dá o mote para um encontro com tudo para se dizer inefável, salvo duas coisas: o compromisso de o partilhar e o dever de o fazer por palavras simples, mesmo que, de tão sublime, tenha parecido intraduzível.

Figura da cena artística local até entrar na casa dos 70, o canadiano tornou-se fenómeno de culto mundial quando um colecionador japonês descobriu uma cassete áudio que gravara em 1986, Keyboard Fantasies. O achado deu-se em 2015, quase 30 anos depois do lançamento. Esta reviravolta é apenas uma das muitas com que se tece a história deste compositor do futuro, que nasceu em Filadélfia, EUA, numa família quaker, e começou por estudar música clássica, em particular lieder alemães, um género criado nos séculos XVIII e XIX para voz e piano.

O curso na Universidade de McGill, em Montreal, no Canadá, de que se tornara um dos primeiros alunos negros, ficaria pelo caminho. Avançaria por uma folk com elementos do jazz, dos blues e também da clássica, registo em que gravaria dois LPs (1970, 1971) entretanto esquecidos. Ainda não era aquilo, contaria nas entrevistas que se seguiram à redescoberta e consequente reedição de Keyboard Fantasies, em 2021. A direção tardava em revelar-se. Talvez fosse inevitável.

▲ De pé, acompanhado pelo pianista e director musical Alex Samaras, um homem franzino e grisalho entoa, “Somos sempre novos, somos sempre novos”

FOTOS: BEATRIZ PEQUENO

Já no início dos anos 80, a viver no meio da floresta, no norte do Estado de Ontário, Glenn ouviria por fim os sons por que esperara uma vida inteira. Vinham de um computador. Um Atari de 8 bits, que conjugou com um sintetizador Yamaha DX7 e uma máquina de ritmos Roland TR-707. “Pela primeira vez tinha acesso àqueles sons incríveis”, conta no documentário Keyboard Fantasies: The Beverly Glenn-Copeland Story (2019). “Foi como encontrar brinquedos que não sabia como eram até um dia dar de caras com eles.”

Entrou num transe quase religioso. Dormia três, quatro horas por noite. O tempo que não passava a limpar a neve à volta da casa, a rachar madeira e a dar atenção à família, passava-o a trabalhar. Podia, por fim, pôr cá fora o que pulsava dentro de si. Contemplativo e espiritual, Keyboard Fantasies nasce de uma comunhão total com a natureza, por intermédio da tecnologia. “Senti-me num estado elevado de consciência, como se estivesse a ouvir os bosques”, explica, uma ideia a que voltou na Reitoria da Universidade Nova.

Em Lisboa, depois de dar as boas-vindas à primavera, às flores que desabrocham no verão, à ligação com o que o rodeia, tudo isto nos versos de Ever New (1986), apresenta um tema lançado em 2023, Lakeland Angel. “Oh anjo, anjo, anjo/ Vem buscar-me, não te esqueças de mim/ Ainda preciso do teu amor”, canta [“Oh, angel, angel, angel/ Come to get me, don’t forget me/ I still need your love”]. A mesma espiritualidade, a mesma simplicidade absurda, mas vindas de um outro lugar. No final, a audiência surpreende. Nem palmas nem burburinho. Uma palavra que seja. Só um silêncio absoluto e prolongado. Como um reflexo natural. É Glenn quem quebra o encanto, “Essa é a reação certa para esta canção”. Elogia as cerca de 200 pessoas no auditório e pergunta a Alex Samaras quantos voos são necessários para “chegar aqui”, uma graça que repetirá várias vezes. “São só dois, Glenn”, responde-lhe o outro, apoio fundamental ao longo do espetáculo. O público ri-se, aplaude e, de novo com um sorriso, Glenn interrompe: as palmas não são para ele, está ali apenas como mensageiro. “Sinto que as minhas canções vêm de uma fonte superior”, diz.

Reeditada em vinil pela Transgressive Records, a nova edição de Keyboard Fantasies inclui recortes de jornais de 1986. Dois são anúncios. “Música new age de sintetizador com múltiplas camadas, para relaxar”, lê-se num deles. Noutro, “A arte curativa da música: relaxa, inspira, fala ao corpo e à mente”. Se ainda é difícil encontrar categorias musicais para encaixar o trabalho de Beverly Glenn-Copeland, há 40 anos talvez parecesse doutro mundo. Daí a pesada condenação. Associado a vagas como a New Age, mas sem fazer parte, o título quase não vendeu e muitas das 200 cópias ficaram a hibernar.

▲ Durante o concerto, Glenn-Copeland elogia as cerca de 200 pessoas no auditório (que usam máscara para evitar surpresas na saúde do músico) e pergunta a Alex Samaras quantos voos são necessários para “chegar aqui”, uma graça que repetirá várias vezes

FOTOS: BEATRIZ PEQUENO

Em 2019, a viagem do compositor, então com 75 anos, até Tóquio, para o colecionador e dono de uma pequena loja de música que o redescobriu, Ryota Masuko, ficou registada em vídeo. O constrangimento é quase comovedor. Separados por várias décadas de idade e reunidos por um acaso improvável, nenhum sabe o que dizer. Vão repetindo, “obrigado”, até que Masuko lhe explica quão importantes são as seis canções de Keyboard Fantasies para a sua geração. “Só recebo instruções”, insiste Glenn, ao que o jovem que o redescobriu replica, “Essa foi exatamente a impressão que tive da primeira vez que ouvi Ever New”. De novo o compositor: “Nunca achei que a música fosse só para mim. Graças a ti, pôde ser ouvida.”

De volta a Campolide, naquilo que poderá considerar-se uma tranquila tournée pela Europa, com meia dúzia de concertos espalhados pelo verão, no Reino Unido, em França e na Dinamarca (para já; têm surgido novas datas), o músico vai contando que, “ultimamente”, não escreve palavras, “só melodias”. No entretanto, de frente para uma estante com partituras, vai interpretando um repertório variado. Laughter in Summer, do álbum homónimo lançado em fevereiro com a mulher, Elizabeth Glenn-Copeland; uma versão do clássico popular americano Shenandoah (“existe há muito tempo mas só agora o entendi”); outra do êxito da Broadway The Impossible Dream. O pianista orienta o coro informal, feito de pessoas que foram ali para ouvir e acabaram a cantar e a estalar os dedos. O ambiente é o de um encontro íntimo.

Glenn fala muito com as mãos. O mesmo ao cantar. “Rain” (e a chuva cai com os dedos), “smell” (aponta para o nariz), “grand” (abre os braços, acolhedor). Conversa com o público. Bate palmas. Os 30 anos a trabalhar para crianças num programa de TV chamado Mr. Dressup terão qualquer coisa a ver com isto. Mas a maior parte das pessoas não está a par deste pedaço de trivia. Até que ele anuncia um programa-piloto recente para miúdos, criado por ele e pela mulher. O formato não avançou para mais episódios, mas nós vamos vê-lo. Chama-se Caring Cabin. Há marionetas, diálogos sobre emoções, as estações do ano e canções. Didático e enternecedor, tem qualquer coisa de Rua Sésamo e de Mr. Rodgers Neighbourhood (pedagogo retratado num filme com Tom Hanks), mas de repente o tom passa a disco, com qualquer coisa de psicadélico.

Quem esteja a par da biografia de Glenn confirmará no seu regresso ao palco lisboeta, logo a seguir a este interlúdio, que a pausa também foi uma forma de lhe dar descanso. Entra apoiado numa bengala. Pouco antes, Alex Samaras sugerira-lhe que trocasse a ordem do alinhamento, para ir ao encontro de uma troca de palavras com o público. Ele acedera, entre sorrisos e gracejos. “Qual é o tema de que falas?”, pergunta, enquanto o procura nas folhas A4. No auge do seu renascimento, que, além da reedição de Keyboard Fantasies, contou com um álbum de versões por intérpretes como Bon Iver e Blood Orange, vira a tournée mundial em que investiu tudo cancelada por causa da pandemia de Covid-19. Em 2024, foi diagnosticado com LATE, um tipo de demência. No último álbum, celebra a vida, o amor, a generosidade. Todas as faixas foram gravadas num só take.

▲ Os afortunados que ainda conseguiram comprar um dos raros vinis à venda agarram-se a eles sorridentes. Para os outros, restam as palavras de Glenn na despedida

Quando fala, são evidentes as hesitações e esquecimentos. Quando canta, como que transportado por uma força maior, enche a sala. Mesmo que tenha de consultar as cábulas para se lembrar das letras. Mesmo que já só escreva melodias. Em época de desesperança global, o encontro de hora e meia revela-se um bálsamo. Estamos perante uma prova viva de que é possível renascer, uma e outra vez. Para Glenn, nascido Beverly Anne Glenn, entre tantos episódios referidos neste texto e outros que ficaram por contar, houve um fundamental, aquele em que se assumiu como um homem trans. Ever new. “Sempre novos”, mas também “sempre outros”, como nos ensinam os ciclos da natureza.

Stand Anthem, single de 2023, é a última faixa. No original, inclui um coro e percussão. No auditório da Reitoria, só está o pianista Alex Samaras, mas o público já percebeu ao que veio e celebra a uma só voz. O entusiasmo é tal que, previsto ou não, há direito a encore. Glenn explica que Prince Caspian’s Dream é um tema que o seu “coração levou 30 anos a receber”: “A vida é uma parte do amor/ A arte viva do amor/ A vida é o coração do amor, isto eu sei” [“Life is a part of love / The living art of love/ Life is the heart of love, this I know”].

À saída, de novo com a nortada das noites de verão a trazer pelo ar o arraial de Campolide, procuram-se palavras. Os afortunados que ainda conseguiram comprar um dos raros vinis à venda agarram-se a ele sorridentes. Para os outros, restam as palavras de Glenn na despedida, mesmo antes de virar costas, devagar, “Tenham uma vida maravilhosa. Façam o que vos fizer felizes. O mundo vai ser um lugar melhor”. Ámen.

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