O antigo diretor do Instituto Gulbenkian de Ciência António Coutinho defendeu que a Fundação Gulbenkian, que este mês comemora 70 anos, contribuiu para a profissionalização da ciência em Portugal e para a distribuição de investigadores de excelência pelo país.

Em entrevista à Lusa a propósito dos 70 anos da Fundação Calouste Gulbenkian, que se assinalam no dia 18, o imunologista disse que a instituição teve “uma importância grande” no desenvolvimento da ciência em Portugal.

O Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) foi criado em 1961, cinco anos depois da Fundação Calouste Gulbenkian, para cumprir um dos quatro pilares definidos no testamento de Calouste Sarkis Gulbenkian: ciência, arte, beneficência e educação.

António Coutinho identificou algumas das pessoas que contribuíram para que a Gulbenkian tivesse esse papel na investigação que se faz em Portugal, a começar pelo primeiro presidente da fundação, José Azeredo Perdigão, que no terceiro relatório da Fundação “tem uma das defesas mais clarividentes da ciência” jamais feitas em Portugal.

“Obviamente ele queria muito ciência. E, como queria muito ciência, olhou para o país, viu o que é que se fazia e decidiu o que tinha que fazer fora do que já existia: uma coisa nova, para começar de novo“.

O antigo diretor do IGC recordou também o papel de João Pedro Miller Guerra, médico e político que nos anos 1960 exerceu funções no Conselho Consultivo de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian e que defendia que as universidades nunca se autorreformam.

“E era um universitário convicto a dizer isto. O que veio confirmar de certa maneira a visão do Perdigão, que dizia que o melhor era fazer ao lado, fazer uma coisa nova”, com cientistas a tempo inteiro, que não fossem professores e assistentes em universidades.

Para António Coutinho, “esse primeiro período foi muito importante, desde a criação do IGC”, porque correspondeu a uma profissionalização da atividade científica.

“Era a primeira vez que isso se fazia, porque até aí os cientistas eram sempre professores de alguma coisa. Mas é mais que isso, é dar relevância à ciência e à investigação científica”, sublinhou.

Nesse primeiro período, no entanto, as áreas de investigação do IGC eram “tudo e mais alguma coisa“: economia agrária, cálculo científico, investigação pedagógica e economia e finanças, além da biologia, uma dispersão de focos corrigida nos anos 1980, quando se concentrou a investigação na biologia.

Seguiu-se um período “calmo, de ramerrame: ia-se fazendo (…), os cientistas, afinal, já eram também assistentes da faculdade, professores”, recordou António Coutinho.

Nos anos 1990, a Gulbenkian convidou António Coutinho para pegar nos ‘estudos avançados‘ do IGC, um projeto que passava por convidar professores estrangeiros para dar cursos de duas semanas em Oeiras.

“Então, passei algum tempo a estudar, ainda organizei um ou dois destes cursos e simpósios, mas fiquei a pensar o que é que se podia fazer”.

Nessa altura, por iniciativa do antigo ministro da Ciência Mariano Gago, havia um investimento muito grande do Estado na ciência e havia muitas bolsas de doutoramento para os investigadores irem para o exterior.

“Iam para sítios que os orientadores conheciam e, portanto, ficava tudo (…) mais ou menos consanguíneo”, além de que os candidatos às bolsas tinham de apresentar um programa doutoral ainda antes de começarem, pelo que “todos os projetos de tese apresentados eram dos orientadores, não eram deles. Portanto, novidade nada, nenhuma”.

António Coutinho propôs então começar um programa doutoral novo, em que os jovens eram educados no melhor que se sabia em biologia e, ao fim de meio ano, tinham de produzir o seu próprio projeto de tese.

“Isto, evidentemente, não podia ser feito na universidade. Eu expliquei isso ao [administrador da Gulbenkian Vítor] Sá Machado, que imediatamente adotou a ideia”, e convenceu o Governo, que após alguma resistência da tutela e dos reitores, acabou por financiar o projeto.

Esse programa ficou conhecido como ‘super doutores‘ e atraía centenas de investigadores por ano.

“Eu entrevistava-os todos à entrada, eu e o Alexandre Quintanilha, que era o diretor adjunto do programa, e víamos 300 pessoas por ano. A entrada também não era nada burocrática, era a gente a falar com a pessoa e a perceber se esta pessoa era como nós queríamos que fosse, se estava talhada para aquilo ou não”, lembrou.

O sucesso do programa levou a Gulbenkian a convidar António Coutinho para dirigir o IGC, o que o imunologista aceitou sob a condição de começar do zero.

Todos os investigadores foram dispensados: uns foram para a pré-reforma, outros passaram para as universidades a que já estavam ligados, e “toda a gente ganhou com o assunto“.

“Começámos de novo. E esse período, digo-lhe, de entre 1998 e 2015, por aí, foi um período excecional. Começámos a trazer gente muito nova, portugueses e estrangeiros, e de repente começámos a ser uma espécie de porto de acolhimento“, disse.

A esses investigadores, muito jovens, o IGC dava “três anos de total liberdade, de autonomia total” e eles, com o apoio do instituto, “faziam o que queriam” para mostrarem se valia a pena ou não.

“Criou-se um ambiente muito vivo, muito dinâmico, muito jovem, havia muita gente a chegar e a sair todo o tempo”.

Esse período de grande atividade permitiu a muitos investigadores afirmarem-se e começarem a ser cobiçados pelos diferentes institutos e universidades em Portugal.

“De repente, o IGC, funcionando como porto de abrigo para essas pessoas que queriam voltar, (…) tornou-se uma espécie de placa distributiva para outros sítios”, disse o imunologista, para quem essa terá sido a contribuição maior desse período: “Formar muita gente, formá-la nos melhores sítios, dar-lhes os melhores contactos internacionais, acolhê-los de volta em condições de autonomia, deixá-los fazer o que eles queriam e depois os melhores, ajudá-los a ir para outros sítios”.

Ainda hoje, muitos dos diretores e diretores adjuntos científicos de instituições reconhecidas em Portugal e no estrangeiro passaram no IGC nessa fase, lembrou, exemplificando com o caso de Mónica Bettencourt Dias, que esteve no IGC, dirigiu o instituto e hoje é diretora do Center for Genomic Regulation em Barcelona.

Para António Coutinho, depois da contribuição inicial da Gulbenkian para profissionalizar e dar credibilidade à ciência em Portugal, esta segunda fase permitiu formar investigadores, com a condição de os mandar para fora e depois incubar jovens cientistas e redistribuí-los outra vez.

“É o outro período de grande contribuição centrífuga para o resto do país e isso acho que foi muito importante esse período. (…) Acho que o que o país é hoje na ciência, nomeadamente a ciência biomédica e biologia, se deve muito a este período entre 2000 e 2015 do IGC, que fez muita coisa e distribuiu muita gente”.

O início do IGC e os primeiros 15 anos do século XXI são, na opinião do antigo diretor, “dois períodos muito diferentes, mas ambos contribuem de maneiras diferentes, mas significativas para a ciência em Portugal”.