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De Jackie O a Alexandra Leclerc, está estampado que o verão é Pucci

Nova edição da Taschen volta à casa fundada por Emilio Pucci, o designer aristocrata que foi descoberto na neve de St. Moritz e que triunfou a partir de Capri, autor do guarda-roupa estival do jet set

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▲Destacando-se no uso da cor, domínio dos tecidos e tecnologias de impressão, Pucci foi pioneiro também na diversificação dos seus produtos, apostando antes de muitos outros nos interiores, nos acessórios e no vestuário de pendor atlético.

Corbis/VCG via Getty Images

▲Destacando-se no uso da cor, domínio dos tecidos e tecnologias de impressão, Pucci foi pioneiro também na diversificação dos seus produtos, apostando antes de muitos outros nos interiores, nos acessórios e no vestuário de pendor atlético.

Corbis/VCG via Getty Images

Talvez a morte do minimalismo seja manifestamente exagerada, mas pelo menos o verão trouxe consigo uma pausa na tendência. Em claro contraste, silhuetas esvoaçantes, espírito boémio e uma overdose de estampados, tão geométricos quanto coloridos, chegaram para baralhar o algoritmo. O guarda-roupa do paddock que o diga. Entre o cor de rosa e o azul, para estrear em público uma barriguinha saliente, Alexandra Leclerc caprichou na fórmula Pucci no Grande Prémio da Hungria, uma etiqueta que anda de braço dado com o estilo de vida mediterrânico há largas décadas — e que se estende aos casamentos da estação, reforçando uma vaga que vem do período estival de 2025.

Numa nova edição da Taschen, um volume (25 euros) a cargo de Vanessa Friedman, a editora de moda do The New York Times, é condensada a história da casa italiana fundada por Emilio Pucci, marquês de Barsento, em 1947. A linhagem aristocrática, que remonta ao século XV, contagia as coleções desenvolvidas pelo criador, que partiu de uma pequena loja em Milão para uma marca internacional, das primeiras a usar um logo. Nessa década de ascensão do jet set, a sua visão e boutique aberta na ilha de Capri abasteceu uma míriade de estrelas de cinema, herdeiras e outras clientes que colocaram os seus designs estivais no mapa. Nomes como Jacqueline Kennedy, Sophia Loren, Grace Kelly e Marilyn Monroe (que terá sido mesmo enterrada com um vestido verde menta Pucci, que usara no México seis meses antes da sua morte) desfilaram com os seus vestidos. Chegados a meados dos anos 60, o seu maximalismo boho (hoje opulência retro) confundia-se com o verão dos ricos, bonitos, bronzeados e famosos. A obra reúne centenas de fotografias, desenhos e outros elementos do arquivo da Fundação Emilio Pucci, mas é sobretudo pretexto para recordar a história da etiqueta, para lá da publicação.

Nesta segunda década do novo milénio, cabe a estrelas como Hailey Bieber incendiar o tiktok com este festim garrido. Mudam-se os rostos e influências, fica o impacto entre as gerações emergentes, que procuram novas divas e referências de estilo.

Destacando-se no uso da cor, domínio dos tecidos e tecnologias de impressão, Pucci foi pioneiro também na diversificação dos seus produtos, apostando antes de muitos outros nos interiores, nos acessórios e no vestuário de pendor atlético. Ao longo de mais de 500 páginas, o volume conta ainda com os contributos de Alessandra Arezzi Boza, historiadora e curadora do Palazzo Pitti, em Florença, e antiga curadora da Emilio Pucci Archive Foundation; e de Laudomia Pucci, filha do designer, vice-presidente e membro do conselho de administração da Altagamma, Polimoda Srl, Salini Impregilo, Sotheby’s, Palazzo Strozzi Foundation USA. A edição ficou a cargo de Armando Chitolina, que trabalhou como consultor de design e diretor de arte na Vogue Italia e L’Uomo Vogue, e consultor de imagem para casas de moda Moschino e Mila Schön, tendo editado também Valentino: Um Grande Épico Italiano.

Nascido no seio de uma antiga família nobre em Florença, Emilio Pucci terá sido dos primeiros a arregaçar as mangas para um trabalho formal, já que tempo e recursos não faltariam nos seus primeiros anos para descobrir o mundo e os seus interesses. Curiosamente, não começou nem pelo design nem pela moda. Desportista nato, terá circulado entre natação, esgrima, e esqui, de tal forma que chegou mesmo a alinhar nos Jogos Olímpicos de 1932 no Lago Placid, enquanto membro da equipa italiana de esqui. Os estudos superiores não ficaram pelo caminho. De 1932 a 1935 Pucci frequentou a Universidade de Milão, onde estudou ciência política e agarrou uma bolsa para o Reed College, no Oregon. Foi nos EUA que despertou uma vocação que começou por cruzar duas áreas, quando projetou os uniformes para a equipa de esqui daquela instituição, enquanto cursava ciência política em Reed. Emilio obteria mesmo um PhD na área após a guerra, e uma vez retomados os estudos, depois de ter servido na Força Aérea Italiana. No futuro, haveria de assinar os uniformes de companhias aéreas, durante o período mais glamourosa da aviação comercial.

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Imagem de uma campanha Pucci, na primavera de 1964, em Florença

À primeira vista, o futuro apontaria para uma carreira política, mas antes de entrar na década de 50 uma casualidade colocou-o em definitivo na rota da moda. Apesar da sobreposição de vários relatos, o episódio passa sempre por Toni Frissel, o fotógrafo da revista Harper’s Bazaar que avistou Pucci na estância suíça de St. Moritz, naquele inverno de 1947. Frissel fotografou a roupa de Pucci e ficou ainda mais encantado quando descobriu que tinha sido feita pelo próprio. O editor do fotógrafo pediria mesmo a Pucci que contribuísse para o artigo sobre moda de inverno com os seus desenhos, o que se tornaria um sucesso.

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Emilio Pucci com a cantora Barbra Streisand

A sua ligação ao contexto desportivo colocava-o num lugar privilegiado para estar a par das inovações capazes de otimizar cada funcionalidade, cruzando nylon e tecidos à prova de vincos com a sofisticação, e formulando assim trajes perfeitos para o jet set usar nas suas viagens, seguindo a sugestão de Stanley Marcus, da Neiman Marcus. Em 1949/50, abria a sua primeira boutique, no beach club La Canzone del Mare, em Marina Piccola, na Ilha de Capri, postal apetecível no rescaldo da II Guerra. O espaço fecharia nos anos 80 e em 2016, agora na Via Camerelle, na mesma ilha, a casa de luxo reabria uma loja. Por cá, na Comporta, a marca mostrou-se em modo pop up até ao dia 12 de julho na loja do Carvalhal da Fashion Clinic.

Ao longo da muito pop década de 60, Jacqueline, ex-Kennedy, agora Onassis, passeava-se pela Grécia em modelos Pucci, incluindo o pormenor do lenço protegendo o cabelo, uma das imagens de veraneio por excelência. É de 1965, aliás, o icónico padrão Vivara desenvolvido por Emilio e batizado em honra desta ilha no golfo de Nápoles, zona pela qual se perdeu de amores enquanto a sobrevoava no seu bombardeiro torpedo durante a Segunda Guerra Mundial. O mesmo padrão que Isabella Rossellini usou numa produção de 1990, e que voltaria a desfilar, agora no evento Pucci em abril de 2024.

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Em 1969, Jacqueline vestiu Pucci para celebrar o seu 40.º aniversário, na Grécia. Na imagem ao lado de Aristotles Onassis

Se o psicadelismo colorido dos anos 70 ficou pelo caminho (ou pelo menos abrandou o seu ritmo nos anos seguintes), os desejos maximais continuam bem vivos, e em contrapeso às imagens minimais e estilizadas que enformam as estéticas mais cleans e depuradas. Depois da morte do “príncipe dos estampados” em 1992, passaram pela marca vários designers, que imprimiram a sua própria visão. Os destinos criativos começaram por ser assegurados pela filha de Emilio, Laudomia Pucci. No ano 2000, o grupo LVMH adquiriu 67% da empresa e trouxe para bordo ao longo dos anos designers como Christian Lacroix (2002-05), Matthew Williamson (2005-2009), Peter Dundas (2009-2015), Massimo Giorgetti (2015-2017), e ainda a criação coletiva a cargo da equipa Emilio Pucci, com coleções convidadas por designers, incluindo Tomo Koizumi.

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A princesa Grace com a sua Rollei Magic, em 1972, com um kaftan Emilio Pucci

Atualmente ao leme está Camille Miceli, que começou a carreira na indústria em 1989 na equipa de relações públicas da Chanel. Em 2002, recorda o Business of Fashion, passou para o design e tornou-se diretora criativa de joias de moda da Vuitton e consultora nesta área, movimentando-se já nos corredores do LVMH. Foi nomeada diretora criativa de joalharia de moda e consultora criativa de artigos de couro na Dior em 2009, voltando para Louis Vuitton em 2014 para se tornar diretora criativa de acessórios antes de assumir o papel de diretora artística na Pucci. Chegou à etiqueta florentina em 2021, depois de a gigante de luxo LVMH assumir o controlo total da marca, trabalhando com Sidney Toledano, CEO do LVMH’s Fashion Group. A sua missão foi recuperar as raízes Pucci e o conceito de férias para jet setters elegantes, ou influencers poderosos que correm o mundo a fabricar conteúdos, e que melhor que ninguém dominam o acrónimo YOLO (só se vive uma vez). A estratégia centrou a aposta em boutiques de resort e lojas pop up em destinos de férias.

A campanha Passepartout, por exemplo, foi revelada através de conteúdos filmados por Oliver Hadlee Pearch, com a top model Naomi Campbell a incorporar a liberdade e sensualidade da marca. A maison italiana apresentou a coleção Fall-Winter no cenário simbólico do Palazzo Clerici, em Milão, estreando-se na semana da Moda em outubro de 2025. “A coleção chama-se Passepartout por duas razões”, explica Camille Miceli. “Primeiro, porque quando você usa Pucci você pode ir a qualquer lugar — aos clubes de Ibiza, galerias de arte, feiras da ladra. Não precisa de uma chave. E também por causa de um programa de arte italiana de Philippe Daverio com o mesmo nome. Sou apaixonado pela arte, até coleciono algumas peças. Para mim, foi uma referência direta a este espírito italiano, que é tão importante para Pucci.”

Já em abril de 2026, o mote de Camille Miceli foi L’Alba, um nascer do sol ou convite para desfrutar de uma estética vitaminada a partir do cenário de Siracusa.

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