Os Possessos estreiam, no dia 9 de outubro, no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, a nova criação da companhia, Laissez-faire, uma peça inspirada em Woyzeck, de Georg Büchner, disse esta sexta-feira à agência Lusa um dos autores do texto.

Leonardo Garibaldi, que escreveu Laissez-faire com Leonor Buescu, disse tratar-se de um espetáculo que “queria fazer há muito” e que “cada vez ganha mais atualidade”.

Inspirado na peça de Büchner e na crítica inerente aos processos de industrialização, do lucro pelo lucro e de expansão da pobreza, no início do século XIX, Leonardo Garibaldi, que também encena, situou Laissez-faire na empresa Lex, uma firma que “sobrevive num sistema hierárquico intransigente, onde o mais forte ou, pelo menos, o mais esperto, ganha, mas onde todos são parte da família”.

“São todos colaboradores, mas o mercado é livre de fazer o que quiser”, acrescentou, sublinhando ser na Lex que trabalha Jorge, um pai viúvo que “aceita de forma subserviente todas as exigências dos superiores”.

Iludido com a “falsa esperança” de um futuro melhor, e na impossibilidade de não cumprir as exigências dos patrões para poder criar a filha, Jorge acaba por ser empurrado para um programa “inovador de produtividade para provar o seu compromisso e [pagar] a sua dívida para com a empresa”, observou.

Um esforço que, ironicamente, não será recompensado, acabando por originar primeiro a morte muito antes de qualquer esperança.

Laissez-faire é, nas palavras de Leonardo Garibaldi, uma crítica aos tempos atuais, uma peça que ganha contemporaneidade, nomeadamente com a polémica em torno das convicções que estiveram na base do pacote laboral, frisou.

“Vivemos tempos muito esquisitos e coisas que poderiam parecer absurdas, de repente… [são realidade]. É assim um bocadinho assustador, para não dizer muito assustador que as pessoas vivam cada vez mais centradas no trabalho e acabem por não ver nada em troca”, acrescentou.

A peça original de Georg Büchner retrata um soldado pobre, abusado por todos, que acaba por cometer um crime passional. Explorado por um capitão, num trabalho sem sentido, que serve apenas para lucro de terceiros, usado como cobaia médica, como se fosse um animal de laboratório, para ganhar algum dinheiro, humilhado pelo amante da mulher, Woyzeck perde o controlo sobre a realidade, num processo de alienação que o leva à morte da companheira, Marie, e em que a sociedade o elogia pelo crime e o culpa pela pobreza em que vive.

No Pequeno Auditório do CCB, que coproduz Laissez-faire, a peça será apresentada em três récitas – nos dias 9, 10 e 11 de outubro -, com a última a ter interpretação em Língua Gestual Portuguesa.

A interpretar Laissez-faire estão Ana Baptista, Catarina Rôlo Salgueiro, David Esteves, Gonçalo Cotrim, João Pedro Mamede, Leonor Buescu, Margarida Martins e Rogério Maurício, que também faz a assistência de encenação.

O desenho de luz e a direção técnica são de Diana dos Santos, a cenografia e os figurinos são de Tatiane Oliveira e Leonardo Garibaldi, e a sonoplastia é de Pedro Freixo.

A companhia Os Possessos foi fundada em 2013, com sede em Lisboa.